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Primeiro mistério em Cobra Norato

10/01/2009

Uma vez sonhei que estava perdido numa cidade estranha. Era noite, fazia frio. Não havia ninguém na avenida e as casas e os edifícios estavam às escuras. Tenebroso, pensei. Conforme eu andava, fui percebendo que não havia outras avenidas na cidade. Nem ruas, nem alamedas. Nem esquinas, nem cruzamentos. Havia apenas uma longa avenida que dava voltas num morro. E no alto do morro, coroando a cidade, existia um zigurate. Pra quem não sabe, um zigurate é um santuário em forma de pirâmide. A famosa Torre de Babel, dos babilônios, era um zigurate. Tudo muito misterioso, secreto, mágico. Fiquei fascinado com essa cidade onírica e a batizei de Cobra Norato, em homenagem ao delicioso poema de Raul Bopp. Como a Macondo, de Gabriel Garcia Márquez, a Comala, de Juan Rulfo, a Santa María, de Juan Carlos Onetti, Gotham City e Metropolis, das histórias em quadrinhos, Cobra Norato condensa em seu corpo mítico uma infinidade de metáforas e segredos. Desde o sonho, venho imaginando muitas aventuras ambientadas aí.

Babel Hotel, romance lançado agora pela editora Scipione, é a primeira história publicada, de muitas ocorridas com os cidadãos de Cobra Norato. No início da narrativa, o taxista Heitor está com um sério problema com o calendário. Não importa o que faça, ele acorda sempre no mesmo dia: 13 de julho, sexta-feira. Parece até uma piada de mau gosto do destino. Para o pobre Heitor todos os dias são o mesmo e único dia, tudo se repete, nada muda. Como na divertida comédia Feitiço do tempo (o título original é Groundhog day), estrelada por Bill Murray. Mas o taxista não vê graça alguma nesse fenômeno. E o que já é estranho vai ficando mais estranho ainda quando ele conhece outras pessoas na mesma situação: a adolescente Paula, a atriz Estela, o gerente de banco Ulisses, o fotojornalista Flávio, o investigador policial Tigre e a ortodontista Rhana.

Os sete prisioneiros do tempo transformaram um quarto do Babel Hotel em seu quartel-general. Cada um tem uma explicação diferente para o que está acontecendo: Heitor acredita que morreu e foi parar no inferno, Paula pensa que está participando de um jogo de realidade virtual, Estela acha que está havendo uma falha nas leis da física, Ulisses crê que está sofrendo uma alucinação provocada por sua esquizofrenia, Flávio acredita que está sendo usado como cobaia de uma experiência médica com alucinógenos, Tigre pensa que forças ocultas e fantasmagóricas estão agindo na cidade e Rhana acha que tudo não passa de uma ação de seres de outro planeta. Quem estará com a razão? Pra complicar mais ainda as coisas, um sujeito muito magro, vestido todo de preto, com uma maleta preta e óculos escuros, atravessa o caminho do grupo, aparecendo nos lugares mais inesperados e desaparecendo sem deixar pista. Ninguém sabe quem é ele. Mas os sete desconfiam que somente o Magrelo pode dizer o que realmente está acontecendo em Cobra Norato.

Para leitores reflexivos: a partir dos doze anos de idade.
Ilustrado por Renato Moriconi
Editora Scipione

Texto das orelhas

Conheça Cobra Norato, cidade construída em torno de uma montanha alta e pontuda, com uma única e enorme avenida descendo em espiral desde o topo, feito uma serpente. Essa imagem fascinante surge nas primeiras páginas de Babel Hotel e vai assombrar todo o livro. Sim, porque a narrativa de Luiz Bras também é construída em espiral.

O primeiro personagem que conhecemos é Heitor, um taxista beato que se vê preso eternamente em um mesmo dia. Toda manhã, quando acorda, é a mesma sexta-feira 13 e tudo o que aconteceu no dia anterior vai se repetir, nos mínimos detalhes. O leitor poderá dizer: já li esse livro antes, ou já vi esse filme antes. Sem dúvida: a premissa é semelhante à do filme Feitiço do tempo, comédia de Harold Ramis, com Bill Murray no papel do jornalista resmungão forçado a viver inúmeras vezes o mesmo dia.

Mas aqui, em Babel Hotel, esse é apenas o ponto de partida da trama, ou melhor, um dos fios da teia. Porque, ao contrário do filme, Luiz Bras não está interessado em acompanhar as desventuras e as angústias de um único personagem preso no tempo. Logo vamos descobrir que, além de Heitor, outras pessoas também se encontram na mesma situação: a adolescente Paula, a atriz Estela, o fotógrafo Flávio, a dentista Rhana e outros mais. Cada um deles ganha o seu capítulo, o seu fio da meada, a chance de apresentar seu ponto de vista, sua própria explicação para aquela situação inusitada.

No caso de Heitor, o sentimento de culpa católica o leva a buscar em seus erros uma justificativa para seu sofrimento. Acaba chegando à conclusão de que morreu e foi parar numa espécie de inferno. Os demais personagens vão encontrar outras explicações: seria tudo um sonho, uma doença, uma realidade paralela, um jogo virtual? Cada especulação parece coerente para uma pessoa, mas não consegue convencer as outras. E nós, leitores, capturados pela teia de Bras, somos levados a bolar também nossas hipóteses. Haverá solução para esse mistério? Ou ele vai comer sua própria cauda, como a serpente Oroboro, nome, por sinal, da longa avenida da cidade?

Esta envolvente Babel mistura várias histórias e várias vozes. Mas, ao contrário do que possa parecer, possui sim um início, um meio e um fim. Se é ironia ou não, só lendo pra descobrir.

Leo Cunha