Lima Trindade: dois e-mails

29 de setembro — (…) Rapaz, achei o conto Primeiro contato uma belezura! Com sutileza, você marca o contexto histórico do ano em que o homem pisou na Lua, uma certa inocência juvenil, a influência dos quadrinhos e da tevê, nostalgia, lirismo… E tem a cena da corrida de bicicletas que remete ao Spielberg, mas também a uma infância nem tão distante, quando nós, crianças, ainda ocupávamos as ruas e as transformávamos em cenários espaciais, campos de batalhas, pista de corrida… E há também o aspecto político subjacente ao encontro com o diferente, o vietnamita, o alienígena próximo e distante. Excelente! Receba meus sinceros parabéns…

Reli também o Memórias, que já conhecia do Portal Solaris, igualmente eficiente, mas seguindo outra linha… Creio que fiz os comentários na ocasião do lançamento do Portal, não? Mas algo que me agrada na sua produção de uma literatura atravessada pela FC e pela Fantasia é o fato de você escrever bem, dominar a linguagem. Aprecio também o texto do Fábio, do Mayrant e de alguns novos escritores, pois muitos dos escritores brasileiros que no passado se dedicavam ao gênero eram descuidados com a linguagem e a expressão, afastando os leitores mais exigentes e acostumados com excelentes autores estrangeiros.

8 de outubro — (…) Falando do Paraíso líquido, quero dizer que amei e odiei Daimons… Quero dizer, está muito bem escrito, a narrativa nos captura, mas há todo o aspecto de perversão, violência e morte que nos afundam seriamente no jogo entre brinquedos e humanos. Remeteu ao I.A. do Spielberg, ao próprio Pinóquio, a Chuck, o brinquedo assassino, Poltergeist e a própria memória noturna das estranhas imagens que os brinquedos adquiriam na escuridão da noite. Mambo Jambo soou para mim como um Grilo Falante perverso, vingativo.

Aço contra osso não me emocionou da mesma forma. Não me desagrada. Acho um bom conto sobre clones e esfacelamento identitário, autodestruíção e loucura. Aliás, lendo seus contos, há um flerte com a possibilidade de loucura muito interessante, tema que Caio Fernando Abreu explorou com maestria.

Fiquei chapado com Nostalgia. E o engraçado é que, no começo da leitura, não imaginei que fosse me envolver tanto. Mas é um conto que vai num crescendo e quando menos percebemos estamos arrebatados. A princípio pensei que se tratava de um conto sobre robôs. E conspiração. Depois, conduzidos num clima de suspense, terror, aventura e fantasia, percebemos que o conto é muito mais. E, penso eu, Luiz, é muito mais do que um conto. Sei que todos os contos devem ser maiores do que verdadeiramente são. Mas não falo simplesmente de plurissignificações. Por favor, me diga aí, mas você não pensou em transformar Nostalgia em um romance? Achei que a história tem fôlego para tanto. Adorei a quarta parte, a brincadeira com o Gênesis, messianismo, Ray Bradbury, Planeta dos macacos, Matrix e, ao mesmo tempo, nada disso. A sua hiper-realidade, que tanto se distingue da proposta formal de uma literatura hiperviolenta e realista, a sua liquidez e o paraíso… Fiquei querendo saber mais de Mitra, Vitória e Efraim. O conto termina bem, está fechadinho, mas continua ressoando em possibilidades dentro da gente… Tantos escritores transformaram um conto numa base para uma explanação maior e mais detalhada… Você, quando o escreveu, não pensou nisso?

 

9 de outubro — Lima, meu caro, eu tenho certeza de que você abraçou a literatura por idealismo, como eu. O início do caminho da maioria dos escritores é mais o menos o mesmo. Começamos como leitores apaixonados. Como leitores aborrecidos com a pobreza sensorial e emocional do mundo cotidiano. A literatura salvou minha vida, ao me salvar da rotina mesquinha da civilização trabalha-trabalha. Também tenho certeza de que a viagem, nos dois sentidos da palavra, que você e a banda fizeram ao coração da Bahia foram jornadas de resgate. Vocês foram àquelas cidades resgatar o ser humano (vocês, eles), pela via da música e da literatura. Foi uma aventura descentralizadora, como esta do Rosel. Merecem ser aplaudidas.

(…)

Se você me permitir, estou com muita vontade de publicar no blogue tuas observações sobre os contos do Paraíso líquido. Principalmente porque não são simples comentários de um amigo escritor, são muito mais do que isso. Você descreve e analisa cada conto com uma força e uma delicadeza que não vejo em outros lugares fora da web. E há as dicas inteligentes, bem sacadas, como a de transformar Nostalgia num romance. Eu não havia pensado nisso, mas agora vejo que a possibilidade existe e é muito sedutora. Você me autoriza a compartilhar com os leitores do blogue as tuas rápidas reflexões?

Um abraço,

Luiz

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