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Dois ciclos

09/11/2010

Não sei se os mágicos e os alquimistas do passado enxergavam a água como eu a enxergo. Como metáfora do maleável ser humano, que, dependendo da temperatura emocional e intelectual, está sempre se alterando. Transmutação. Metamorfose. Ao longo da vida, sem a menor cerimônia, as pessoas passam do sólido para o líquido, do líquido para o gasoso etc. E esse ciclo físico vem sempre acompanhado de outro, mais delicado: o patafísico. Do inferno para o purgatório, do purgatório para o paraíso etc. Os dois ciclos se combinam de muitas maneiras, aparecendo aos olhos dos mágicos, dos alquimistas e dos poetas ora na forma de um inferno gasoso, ora na de um purgatório sólido, ora na de um paraíso líquido…

Ao lançar mão da metáfora do liquidificador, o ficcionista Daniel Lopes — É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança (romance) e Pianista boxeador (contos) — entendeu perfeitamente a natureza dos dois ciclos. Daniel desvendou belamente o Paraíso líquido no sítio Caos e Letras. E, caçador de sutilezas camufladas, não deixou escapar as alterações concretas que a matéria ficcional vai sofrendo ao longo da coletânea. Alterações de densidade, de consistência. Dissolução. Viscosidade. Liquidificador.

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