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Flávio Carneiro: um e-mail

21/12/2010

17 de dezembro

Oi, Luiz,

Terminei hoje a leitura do seu conto Paraíso líquido. Muito bom. No início, fiquei pensando: será que ele vai enveredar pela alegoria, com esses nomes: Sólido, Paisagem, Gasoso, Vida? Mas felizmente não, você faz uma coisa muito interessante — que vejo, por exemplo, em Murilo Rubião, embora o seu (de Luiz) conto seja bem pessoal, sem dúvida, e em vários sentidos diferente dos contos do Murilo —, essa estratégia de jogar no limite, bem no risco mesmo que divide a alegoria (com status de verdade) e a não-alegoria (com a abertura para as diversas possibilidades de interpretação). O leitor (chato) que quiser buscar no seu texto uma mensagem, uma verdade escondida pela fantasia, ou seja, uma alegoria, vai cair do cavalo.

Quando estão em cena Vida e os novatos (os re-renascidos, como diz Gasoso), me lembrei do Cortázar de Histórias de cronópios e de famas. Pelo menos na primeira parte da aparição deles, antes do contato com a Nuvem.

E também, na trama em si do conto e na relação entre Líquido e Zeus, pensei no Neuromancer. O diálogo entre Líquido e Zeus me lembrou aqui e ali algo do diálogo entre Case e o construto (Dixie). Mas aqui eu devo te dizer que não sou um especialista em FC e só agora, pouco antes de pegar seu livro, li o Neuromancer (por incrível que pareça, não tinha lido ainda). E perdoe se estou dizendo o óbvio sobre essa relação entre o romance e o seu conto, e se não vi outras.

Mas esse eco da escrita fantástica (de Murilo e, claro, Kafka, também nos limites da alegoria e não-alegoria, e de Cortázar) e da FC de Neuromancer aparece muito bem encaixado no seu texto. Pode ser que esse comentário (a seguir) faça parte da minha obsessão pelo jogo da leitura e da escrita (ou do que chamo de reescritura), mas o que me pareceu é que você manteve, no conto todo, um belíssimo diálogo com a tradição ou com a história, antiga e recente, de gêneros da fantasia. E se saiu muito bem nessa empreitada, a meu ver, evitando, por um lado, a tola louvação, e, por outro, certa rebeldia anacrônica no desejo de estrangular o pai. Você dialoga com essa tradição fazendo o exercício do leitor-escritor, que lê e relê a origem e segue adiante, com voz nova, com imaginação. E que deixa, no seu texto, as marcas (mais ou menos visíveis) desse exercício.

Boas também as pitadas de humor e as referências ao presente (adorei as logomarcas nefelibatas). E também esse clima de suspense, que começa talvez com a partida de Gasoso (que expedição é essa, pra onde, com que propósito?) e vai se renovando durante o conto (o que Agreste teria gravado na memória de Líquido?, e depois: o que as três frases estavam querendo dizer?). Gostei também do final, como se fosse uma cena congelada de um filme, os três ali, olhando um pro outro, sob o olhar suspenso do espectador.

Desculpe a longuidão da mensagem e os comentários meio atabalhoados. Fui anotando umas coisas enquanto lia e resolvi te mandar. Me deu vontade de ler logo os outros contos do livro, mas preciso voltar ao meu romance, que não acaba nunca.

Recebi aqui a antologia que você me mandou pelo correio: Cyberpunk (Tarja Editorial). Obrigadíssimo.

Abraço, Flávio

 

17 de dezembro

Olá, Flávio!

Rapaz, você está me fazendo tomar consciência de alguns detalhes totalmente intuitivos, e isso vai me ajudar muito nos trabalhos futuros. O principal deles é a diferença entre alegoria e não-alegoria. Confesso que eu não havia percebido que estava trabalhando perigosamente na fronteira, quase descambando para a alegoria. Ainda bem que em momento algum a danada deu as caras, pois isso iria me aborrecer bastante. A ideia é que tudo seja interpretado como seres e objetos concretos: as logomarcas são apenas logomarcas, a Nuvem é mesmo uma nuvem e assim por diante, sem qualquer mensagem oculta (mística ou política).

Outro ponto importante que você apontou, que pelo menos pra mim passara despercebido, é o da tradição. Tempos atrás, conversando com um jovem autor, notei como, pra ele, os autores do passado não têm nenhuma importância. Isso me assustou. Até então eu não podia imaginar essa possibilidade: um escritor ou um artista que desprezasse os grandes nomes do passado. Mas ela é real.

No meu caso, como no teu, o diálogo frutífero e problemático com as obras que nos marcaram, de autores do modernismo, do realismo etc., representa um grande desafio criativo. É fonte de dor, mas também de prazer. Que graça teria escrever, pensar e viver sem o constante embate intelectual com Kafka, Cortázar, Gibson?

Agradeço-lhe muito, meu caro, por reforçar essas ideias. Eu precisava disso, para me manter fiel a essa poética, e não descambar para algo mais fácil e palatável.

Um pedido: você me autoriza a reproduzir tua mensagem no meu blogue? Gostaria de compartilhá-la principalmente com os leitores da literatura mainstream. A maioria, presa a valores do passado, ainda tem muito o que aprender…

Bem, esperarei com certa impaciência pelo teu novo romance. Estou sentindo falta de literatura brasileira que fuja dos temas mais batidos: favela, bandidagem, dramas domésticos, briga de casal, infância idílica… Ontem um jornalista me perguntou o que eu achava do bafafá do Jabuti, do racismo do Lobato, da demissão da Maria Rita Kehl… Eu respondi que estava mais interessado na enigmática matéria escura, rs. E é verdade! A última Scientific American Brasil publicou um ótimo artigo a respeito.

Um abraço,

Luiz