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Flávio Carneiro: apontamentos

19/02/2011

16 de fevereiro

Caro Luiz,

Terminei agora há pouco a leitura do seu livro. De início, digo logo que gostei muito. Como você sabe, não sou lá um grande leitor de FC. Conheço uma ou outra coisa e fiz a resenha de uma antologia organizada pelo Causo. Tentei ler com um duplo olhar (fico imaginando como ficaria isso em termos concretos num conto do gênero, esse duplo olhar, sem ser, claro, a saída fácil de um monstrinho com quatro olhos), o de que estava lendo um livro de contos, pura e simplesmente, e ao mesmo tempo um livro de contos de FC. Claro, isso não foi difícil. Primeiro, porque costumo ler tudo assim mesmo, sem forçar demais o olhar do gênero em si, mas também sem me esquecer dele, pelo menos quando se trata, por exemplo, do policial, do fantástico ou, no caso, da FC. Segundo, porque seus contos pedem uma leitura assim. Quem ler o livro pensando apenas nos clichês do gênero pode até gostar dos contos, mas sem dúvida vai perder muito da riqueza que há neles.

Sobre os dois de que gostei mais já havia comentado com você: Paraíso líquido e Primeiro contato. Este segundo continua sendo meu favorito, mas não fique zangado com isso (rs). É que este me interessa mais enquanto forma de colocar em diálogo a simplicidade e a sofisticação, como te disse em outra mensagem.

Sobre os outros contos, fui anotando num caderno e no meu exemplar uma coisa ou outra, que transcrevo aqui:

Memórias
– gostei da ideia em si, mas achei que o final destoa um pouco, não só do restante do conto como também dos outros finais de outros contos, que são muito bons (anotei alguns e vou te dizer adiante).
– achei que está mais pro fantástico do que pra FC. Essa distinção é delicada, eu sei.

Daimons
– bem-sucedida a estratégia da repetição, como se fosse um refrão marcando o ritmo do texto.
– muito boa (um dos fortes do livro como um todo) a relação entre infância e crueldade, fugindo ao estereótipo da criança-anjo etc.
– recorrentes no livro, sempre tratadas de forma eficiente: a metalinguagem e a fantasia.
– ótimo o final. O narrador seria um brinquedo? Na verdade, não é isso mesmo que os narradores são? Brinquedos do escritor e, quando bem fabricados, também do leitor?

Aço contra osso
– ótimo final.
– gostei muito desse conto. E acho que ele se prestaria a um ensaio que venho adiando há séculos, e acho, francamente, com todos os projetos de ficção que tenho pela frente, que nunca vou escrevê-lo. Fico, porém, incentivando os orientandos a fazer isso, um ensaio sobre o duplo na ficção brasileira contemporânea. Cheguei a esboçar isso num artigo já publicado (agora não me lembro onde, numa revista), falando de algumas obras, como Budapeste, Barco a seco (Rubens Figueiredo) e outros. Este seu conto cairia como uma luva neste ensaio que não vou escrever (rs).

Nostalgia
– novamente aqui a imagem do duplo, que percorre todo o livro. Me agrada bastante essa ideia do duplo (que é na verdade a base do romance que estou terminando), a ambiguidade realidade/imaginação etc.
– surpreendente o final. Gostei.
– este conto, se desdobrado, não daria talvez um belo romance?

Déjà-vu
– destaque para os nomes: Pró-Labore, Urbi et Orbi etc. Humor. Sobre essa questão do humor teria muito a falar. Seria outro tema interessante pra mais um artigo que não vou escrever (daqui a pouco tenho um belo livro inexistente): o humor no fantástico e na FC. Acho interessante pensar nisso, em como o humor desestrutura aquilo que, me parece, é de algum modo estruturador dos gêneros fantástico e FC: certa dose de catarse, de envolvimento (mais pro afetivo, menos pro intelectual) do leitor com o texto. O sujeito passa a acreditar naquilo que está lendo, no sobrenatural ou no mundo futuro, com suas próprias regras. Por isso, aliás, penso que a FC se resolva melhor, enquanto gênero, no romance do que no conto — acho que vou repetir isso no comentário sobre a antologia que ainda vou ler (Cyberpunk, da Tarja Editorial) —, porque o leitor tem mais tempo pra se envolver com a história. O que, inclusive, torna o conto um exercício mais ousado da parte do escritor. Quer dizer, o conto de um modo geral é um exercício mais ousado do que o romance, eu acho (e Borges dizia isso, noutras palavras), mas na FC talvez isso seja mais flagrante. Aí um dos méritos do seu livro, o de ter enfrentado e vencido o desafio de um livro de contos de FC.

Voltando ao humor: ele de algum modo dá um nó na catarse, lembrando o leitor de que não está noutro mundo mas neste mesmo, do presente (o que fica mais evidente num conto do final do livro, em que você fala da Stella Maris Turismo, por exemplo), e que, ao mesmo tempo em que está com o pé na fantasia, está também com um pé no artifício (arte-artifício).

SP, 2013.
– adorei.
– aqui também o humor atravessando a catarse.
– meu próximo projeto de romance, depois de A ilha, é algo em torno de uma máquina do tempo. Tudo a ver com esse conto.

Cruzada
– um pouco diferente dos outros, pela linguagem. Lírico, quase fábula.
– anotei ao final, no meu exemplar: muito bonito.

Futuro presente
– é este o da Stella Maris. Grande sacada.
– humor.
– novamente o jogo, bem conduzido, da repetição, desta vez pela matemática.
– bom: o jogo matemático com as senhas (164).
– adorei a Terra dos Planos. Dá vontade de recortar essa parte e escrever outro conto, quem sabe um romance.
– formigueiros. Você conhece um conto do Rubem Fonseca, chamado O campeonato? Acho que é a única incursão dele na FC. A história se refere também a formigueiro e, aliás, acaba terminando com essa referência. Se não conhece, talvez você goste de ler. Não é um conto de que eu goste muito, embora tenha partido deste conto, num diálogo explícito de metalinguagem, para escrever meu romance policial, com o mesmo título: O campeonato.

Singularidade nua
– humor: manual do escoteiro-mirim, frase sobre pop star (182).
– personagens crianças: muito bem construídas. Como disse já, esse é um dos fortes do livro, o modo como você constrói personagens crianças e narra as cenas deles, com seu mundo particular. Gosto muito.
– referência à mãe de Huno (p. 190): excelente. Tocante.
– bom final: a linguagem se desfazendo, ou se refazendo.

Protagonistas e figurantes
– p. 222: frase sobre o acaso. O livro como um todo toca num tema que também me interessa bastante: o acaso. Há uma espécie de jogo (poderia dizer dialético?) entre acaso e não-acaso. Em gêneros como o policial e a FC, o acaso é um grande filão ficcional. Em qualquer ficção, aliás, não apenas nesses gêneros.
— neste conto, achei o enredo um pouco confuso. Acho que a metalinguagem não se realiza tão bem quanto noutros momentos do livro.

No geral, o que quero dizer (ou dizer de novo) é que gostei muito do seu livro. O meu exemplar, com marcações, fica guardado aqui. Os outros que você me mandou em breve vão circular entre os meus alunos.

Abração,

Flávio

 

17 de fevereiro

Flávio, meu caro, obrigado pela carta rica em detalhes da leitura. Na verdade, você fez uma análise-mapa da coletânea, então estou planejando imprimir e afixar na frente do meu computador, pra reler de tempos em tempos, sempre que estiver em dúvida sobre qual caminho seguir. Nessa troca, creio que eu saí ganhando: você ficou com o exemplar do livro, anotado, mas eu fiquei com uma ótima e atenta leitura crítica.

Sobre os artigos que você já idealizou mentalmente (o duplo, humor na FC etc.), porém jamais escreverá, digo o mesmo que eu disse ao Braulio Tavares, sobre os rascunhos de romance que talvez ele jamais venha a escrever. Faça como Borges, que, preguiçoso para a narrativa longa, quando tinha uma boa ideia escrevia em forma de metaficção a resenha do romance inexistente, como se este já tivesse sido escrito e publicado. Estratégia genial. Mas a alternativa também é muito boa: obrigar seus orientandos a realizar a tarefa, rs.

Desde que li teu O campeonato venho me cobrando reler o do Rubem Fonseca. Confesso que li esse conto e muitos outros numa de minhas vidas passadas, e não lembro nada deles, exceto as linhas gerais. A ideia do formigueiro surgiu de um interessante livro de não ficção intitulado Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. O livro, de um jornalista norte-americano, fala das vantagens dos sistemas bottom-up em relação aos conservadores sistemas top-down.

Nos últimos e-mails que trocamos percebi em você o vivo interesse pelo estudo da ficção científica e do policial em diálogo com outros gêneros. Só lhe peço isso: jamais deixe esse interesse esfriar. Na minha opinião, hoje, na universidade, esse diálogo está sendo muito mais importante e frutífero do que o bom e velho apartheid: alta literatura versus literatura de gênero. A vantagem é que, além de se dedicar à teoria literária, você também está produzindo uma obra ficcional que sempre procurou o diálogo.

Posso reproduzir tua carta em meu blogue? Gosto da ideia de dividir com os eventuais interessados (há alguns pós-graduandos ente eles) os apontamentos recebidos por e-mail.

Um abraço!

Luiz

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Metades

16/02/2011

Um livro lido é metade do autor, metade do leitor. Depois de escrever essa máxima, fiquei pensando, será mesmo? Vamos aos fatos: mesmo o autor mais possessivo raramente consegue ser o dono supremo de sua obra. No momento em que um livro é publicado e lido, parecem agir sobre ele forças alheias ao controle absoluto de seu autor. A sensibilidade e o imaginário do leitor entram em ação, completando as lacunas, mudando um pouco o ângulo de visada, alterando seu sabor. O livro não muda radicalmente, isso seria impossível, mas se torna outro de modo sutil. Se for uma obra de ficção, certas cenas e certas ações secundárias podem ser realçadas, revelando ao autor detalhes cuja importância ele não havia percebido. Foi mais ou menos isso o que aconteceu ao ler a resenha do Paraíso líquido publicada no blogue O Leitor Comum, do Arthur Tertuliano. Foi mais ou menos isso o que aconteceu ao ler o comentário abaixo, do Guilherme Sândi, enviado por e-mail. O Arthur e o Guilherme me sensibilizaram fortemente, principalmente ao falarem de si mesmos, das lembranças e das inquietações provocadas pela leitura.

 

12 de fevereiro

Pô, Luiz.

Que delicioso primeiro contato com Primeiro contato e com sua obra.

Estive pensando por todo o conto que a narrativa levaria a um fim trágico, de morte, sanguinolento. Bem, não deixou de ser trágico, a magia que nem se sabia ser mágica minguando um tanto.

Que boa sensação a de ler seu conto. Não sou crítico literário, nem gostaria de sê-lo, então acabo por parabenizá-lo pela brutal sensibilidade com o alvoroço de um leitor que descobriu um novo autor a quem muito aprecia.

Também eu viajei em perfumadas caudas de cometa e vi se formar anéis de Saturno defronte a meus olhos. Obrigado, é tudo o que um leitor precisa agradecer quando se depara com uma história bastante intensa.

Na parte em que você descreve as bicicletas se chocando e as peles se esfolando, acabei por me lembrar de minha infância e de minhas visões particulares de mundo. Permita-me uma reminiscência: quando criança, durante a pré-escola, contava eu seis anos, estudei numa escola três ruas pra baixo da rua da minha casa. Um dia, ao término das atividades daquele período, esperava meu pai me buscar quando uma coleguinha veio até mim, disse que meu pai havia aparecido no portão da escola, perguntado de mim, mas havia desistido de me levar para casa. Imagine uma informação dessas na cabeça de um moleque. Não sei como — se me enveredei entre as canelas do porteiro ou se pulei o muro da escola —, fui correndo direto para minha casa com o desespero de um menino que recebe a notícia de que seus pais morreram tragicamente.

No meio do caminho, cada reentrância das vielas guardava em si um monstro, dentro de arbustos criaturas horripilantes se preparavam para me devorar vivo, cães raivosos estavam em meu encalço, meus pais, muito longe, acreditava eu, se animavam por não mais ter a mim como filho. No meio do caminho, tropecei, caí de joelhos, esfolei-os, ávido por chegar em casa. À porta da minha casa, meu pai saía para me buscar — naquela época ainda fazia frio em Bauru, meu pai usava uma boina de lã e um colete por sobre a camiseta branca — e se espantou ao ver-me chegar em casa sangrando e banhado por lágrimas sinceras. Querendo ou não, meu pai, vestido de colete e com a boina preta sobre o cocuruto, acabava por se tornar meu porto seguro.

Seu conto me reavivou a infância, me fez também ver destroços de naves espaciais, marcianos arquitetando primeiros contatos.

Agradeço pelos bons momentos, Luiz.

Muitas peles

01/02/2011

Esse vibrante flagrante de camadas sobrepostas, desenhado por Teo Adorno, em breve vibrará na capa de meu primeiro livro de não ficção, a coletânea Muitas peles. Com o apoio do ProAC 2010, meus melhores artigos publicados no jornal Rascunho foram convocados para compor esse livrinho quase de bolso: 12 x 17 cm. Abaixo, o breve texto de apresentação.

Literatura e afins

Este pequeno volume reúne um bom número de provocações, delírios, reflexões, insights e anseios divulgados com fervor na coluna Ruído Branco do jornal Rascunho. O assunto da maioria dos textos aqui reunidos é a literatura contemporânea.

O tempo das escolas literárias muito bem definidas – romantismo, realismo, simbolismo, modernismo etc. – parece ser mesmo coisa do passado.

A literatura contemporânea é composta de muitas vozes, muitos olhares, muitas peles, que não se deixam reunir pacificamente em certas doutrinas ou em certos grupos muito bem definidos. Essa multiplicidade pode ser conferida facilmente nas livrarias, nas bibliotecas, nos eventos literários espalhados pelo país.

E a crítica contemporânea? O tempo das escolas analíticas muito bem definidas – de expressão estruturalista, sociológica, psicanalítica, pós-modernista etc. – também é coisa do passado? Tudo indica que sim. Hoje, a multiplicidade de enfoques e ferramentas analíticas indica que também a crítica é composta de muitas vozes, muitos olhares, muitas peles.

É preciso refletir sobre o presente, usando as ferramentas do presente. A crítica literária de agora evita basear-se no modelo clássico, aristotélico, de enquadramento em normas rígidas. Para dar chance a interpretações inauditas, ela prefere ir em busca da geometria não euclidiana, da física não newtoniana, da razão não kantiana, da epistemologia não cartesiana.

As provocações, os delírios, as reflexões, os insights e os anseios deste nanolivro reafirmam essa convicção.