Metades

Um livro lido é metade do autor, metade do leitor. Depois de escrever essa máxima, fiquei pensando, será mesmo? Vamos aos fatos: mesmo o autor mais possessivo raramente consegue ser o dono supremo de sua obra. No momento em que um livro é publicado e lido, parecem agir sobre ele forças alheias ao controle absoluto de seu autor. A sensibilidade e o imaginário do leitor entram em ação, completando as lacunas, mudando um pouco o ângulo de visada, alterando seu sabor. O livro não muda radicalmente, isso seria impossível, mas se torna outro de modo sutil. Se for uma obra de ficção, certas cenas e certas ações secundárias podem ser realçadas, revelando ao autor detalhes cuja importância ele não havia percebido. Foi mais ou menos isso o que aconteceu ao ler a resenha do Paraíso líquido publicada no blogue O Leitor Comum, do Arthur Tertuliano. Foi mais ou menos isso o que aconteceu ao ler o comentário abaixo, do Guilherme Sândi, enviado por e-mail. O Arthur e o Guilherme me sensibilizaram fortemente, principalmente ao falarem de si mesmos, das lembranças e das inquietações provocadas pela leitura.

 

12 de fevereiro

Pô, Luiz.

Que delicioso primeiro contato com Primeiro contato e com sua obra.

Estive pensando por todo o conto que a narrativa levaria a um fim trágico, de morte, sanguinolento. Bem, não deixou de ser trágico, a magia que nem se sabia ser mágica minguando um tanto.

Que boa sensação a de ler seu conto. Não sou crítico literário, nem gostaria de sê-lo, então acabo por parabenizá-lo pela brutal sensibilidade com o alvoroço de um leitor que descobriu um novo autor a quem muito aprecia.

Também eu viajei em perfumadas caudas de cometa e vi se formar anéis de Saturno defronte a meus olhos. Obrigado, é tudo o que um leitor precisa agradecer quando se depara com uma história bastante intensa.

Na parte em que você descreve as bicicletas se chocando e as peles se esfolando, acabei por me lembrar de minha infância e de minhas visões particulares de mundo. Permita-me uma reminiscência: quando criança, durante a pré-escola, contava eu seis anos, estudei numa escola três ruas pra baixo da rua da minha casa. Um dia, ao término das atividades daquele período, esperava meu pai me buscar quando uma coleguinha veio até mim, disse que meu pai havia aparecido no portão da escola, perguntado de mim, mas havia desistido de me levar para casa. Imagine uma informação dessas na cabeça de um moleque. Não sei como — se me enveredei entre as canelas do porteiro ou se pulei o muro da escola —, fui correndo direto para minha casa com o desespero de um menino que recebe a notícia de que seus pais morreram tragicamente.

No meio do caminho, cada reentrância das vielas guardava em si um monstro, dentro de arbustos criaturas horripilantes se preparavam para me devorar vivo, cães raivosos estavam em meu encalço, meus pais, muito longe, acreditava eu, se animavam por não mais ter a mim como filho. No meio do caminho, tropecei, caí de joelhos, esfolei-os, ávido por chegar em casa. À porta da minha casa, meu pai saía para me buscar — naquela época ainda fazia frio em Bauru, meu pai usava uma boina de lã e um colete por sobre a camiseta branca — e se espantou ao ver-me chegar em casa sangrando e banhado por lágrimas sinceras. Querendo ou não, meu pai, vestido de colete e com a boina preta sobre o cocuruto, acabava por se tornar meu porto seguro.

Seu conto me reavivou a infância, me fez também ver destroços de naves espaciais, marcianos arquitetando primeiros contatos.

Agradeço pelos bons momentos, Luiz.

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