Archive for março \24\UTC 2011

Contra a corrente

24/03/2011

Cobra Norato é uma cidade diferente das outras cidades do mundo. Ela não tem muitas ruas e esquinas, nem qualquer tipo de cruzamento ou bifurcação. A cidade foi construída em torno de um morro e tem uma só avenida: a avenida Oroboro.

Primeiro, no topo do morro, foi erguida a Torre de Babel, o ponto turístico mais conhecido da cidade. Depois, a partir da Torre, descendo e contornando o morro, foram surgindo espontaneamente os primeiros casarões e os primeiros estabelecimentos comerciais.

A única avenida da cidade é uma espiral perfeita, como se tivesse sido desenhada com régua, esquadro e compasso. Mas não foi. Trata-se, de fato, de uma única e longa espiral perfeita, porém ninguém sabe dizer como foi que isso aconteceu.

A hq acima foi desenhada em 2008 pelo ilustrador e artista gráfico Lucas Rocha, a partir de um roteiro meu. Urra! Pela primeira vez foi possível ver minha querida Cobra Norato, apresentada aqui de perfil.

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A grande ousadia

21/03/2011

Roberto de Sousa Causo acaba de publicar na revista on-line Terra Magazine um artigo com esse título: A grande ousadia. Qual teria sido ela, a grande ousadia? Segundo o articulista, a de denunciar na ficção mainstream das últimas décadas o cansaço fabulativo, a repetição de assuntos, e propor, como antídoto ou estimulante, uma visita exploratória a outro manancial narrativo: a ficção científica.

Causo é um dos poucos ficcionistas-teóricos preocupados em historiar o ramo criativo de sua predileção. A ojeriza à classificação histórica, que eu noto na maioria dos escritores contemporâneos, acaba promovendo o esquecimento a curto prazo. Mas talvez o objetivo inconsciente seja esse mesmo: o esquecimento, o fim da História, proposto por Hegel e Fukuyama. É sempre mais fácil e proveitoso repetir as velhas fórmulas quando ninguém está disposto a registrar, catalogar e fiscalizar.

Tendo em vista a questão literária proposta no Convite ao mainstream, Causo apresenta em sua reflexão, com muita propriedade, o contexto das questões anteriores envolvendo a FC. Questões que movimentaram na imprensa críticos do gabarito de Mário da Silva Brito, Antonio Olinto, Otto Maria Carpeaux e Wilson Martins, entre outros. Só por isso já vale a leitura.

De quebra, na seção Drops da mesma coluna, uma notícia que diz respeito ao minidebate realizado aqui, dias atrás:

FC e o Cânone Literário: O jornal inglês The Guardian discute, em artigo de Damian G. Walter, a possibilidade da ficção especulativa vir a integrar o cânone da ficção literária no futuro. O foco se concentra na atual produção inglesa de FC e fantasia, e de como ela deveria ser representada no maior prêmio literário inglês, o Booker Prize: http://www.guardian.co.uk/books/2011/feb/02/science-fiction-literary-canon

Na web

17/03/2011

Muitas peles, minha primeira coletânea de reflexões, recebeu a generosa atenção de Daniel Lopes e Tibor Moricz, o que me alegrou bastante. A resenha do Daniel pode ser lida aqui:

Um tempo de muitos espíritos

E o comentário do Tibor, aqui:

Livro é livro. Nada é tão permanente.

Em seu blogue há também uma excelente entrevista com o escritor Ivan Carlos Regina, que “em junho de 1988 lançou o Manifesto antropofágico da ficção cientifica brasileira, iniciando um movimento pela revalorização de nossa temática dentro de um universo de FC com características brasileiras”.

Thanks, people!

16/03/2011

Agradeço novamente aos amigos que participaram do minidebate, opinando sobre a ficção científica brasileira, a partir da antologia Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário, lançada em 2010 pela Tarja Editorial. O principal objetivo do convite foi tornar a FCB e a antologia um pouco mais visíveis fora do círculo de aficionados. Apesar de não concordar com certos pontos defendidos nos artigos, tenho certeza de que o debate foi muito proveitoso. Convidei justamente Flávio Carneiro, Guilherme Scalzilli, Luís Henrique Pellanda, Maurício Melo Júnior, Ronaldo Cagiano e Zé Pedro Antunes porque sabia que — apesar de nossa amizade — de sua leitura surgiriam comentários sinceros, e não obrigatoriamente o que eu gostaria de ouvir: elogios, avaliações hiperpositivas, afagos e carinhos. Em situações como esta, é preferível ser salvo pela crítica do que condenado pelo elogio.

Minidebate – 6

14/03/2011

Encerrando o debate, a opinião do jornalista e crítico literário Maurício Melo Júnior.

O futuro foi ontem

Era um mundo estranho, onde máquinas dominavam todas as formas de vida. Havia uma dependência profunda daquelas parafernálias imensas e funcionais. E podia-se ir à lua com relativa facilidade. Apesar de todo o progresso, o homem era triste, macambúzio, com poucas esperanças de felicidade. E nadava-se contra a corrente literária ao se trabalhar uma linguagem mais despojada. Mesmo assim os leitores sonhavam e se surpreendiam quando apresentados às possibilidades do futuro.

Julio Verne, no romance Paris no século XX, fala de uma máquina que envia documentos para qualquer parte do mundo, uma antecipação do fax, hoje tão obsoleto. Monteiro Lobato, em O presidente negro, fala de um sistema de comunicação, via rádio, que permite trocar mensagens de texto com rapidez e segurança, como fazemos com a internet.

Depois veio a robótica. O estranho mundo tornou-se claro, límpido, mas ainda assim depressivo, com as criaturas oprimindo os criadores. Outra vez a dependência e a falência do sentido humano. E as corporações, as grandes empresas a substituir governos e ignorar fronteiras geográficas, coisa que o velho e bom Jack London descrevia com tanta precisão e certeza.

Esse era o futuro que a ficção científica antecipava. E em Palmares, no interior de Pernambuco, em meados da década de 70, um músico local, Marcos de Olinda, cantava: “Vivo vindo de um mundo onde tudo é diferente, onde gente vira máquina porque máquina é mais que gente. Vale mais quem tem motores do que quem tem coração. Vivo vindo de um mundo onde não há ilusão.”

Nos últimos trinta anos o mundo e o desenvolvimento científico correram de maneira tão desembestada que a imaginação dos escritores está ficando cada vez mais lenta. Os contos da antologia Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário, em princípio, apontam para isso. As recorrências são muitas: corporações, clones, “ciborgues e robôs, nanotecnologia e implantes, carros aéreos e espaçonaves, supercomputadores e inteligências artificiais, avatares e periféricos”, como diz o texto da contracapa. E ainda há o diálogo com a moda literária contemporânea onde a violência e as performances sexuais são também recorrentes. Aliás, a capa, de predominância escurecida, dá o primeiro alerta para o chavão.

Com criatividade e algum humor, os autores tentam fugir do caminho comum, mas nem sempre conseguem. Mesmo tentando escapar do senso comum, fazem um trabalho de experimentação que aponta soluções para o déjà-vu. Ronaldo Luiz Souza, sobre a terra exaurida, coloca o sentimento da paixão. Luiz Bras expõe o artificialismo doentio do ciberespaço. Gianpaolo Celli diz da movimentação de uma espiã num difícil e novo conceito geopolítico. Débora Vieira Ramires e seus ecoterroristas tentam sobreviver no cruel jogo dos novos poderosos. Ramon Giraldi nos dá a violência gratuita e excessiva dos filmes de Tarantino. Ubiratan Peleteiro opta pelos extremos da artificialidade. Maria Helena Bandeira conta um divertido jogo de futebol futurista onde a previsibilidade pode levar à surpresa. Pedro Vieira dá à tecnologia componentes de religião. Richard Diegues retoma velhas práticas políticas para dizer que nem tudo é novo no mundo novo.

Um mosaico, enfim, onde se juntam sentimentos antigos num ambiente futurista. Só que, repito, diante dos avanços irreversíveis da tecnologia, esse mosaico nos coloca quase em frente a uma literatura histórica. É como se o passado tivesse sido ontem. A esperança é que a experimentação abra caminho para a renovação. Talvez uma escrita com menos escuridão e violência e mais humor e humanismo seja o passo ideal para se olhar o porvir, para reviver a ficção científica.

Assim caminham as evoluções literárias, na busca perene das armas para vencer os desafios. Vivesse um momento fértil, onde a tecnologia vence a imaginação. Cyberpunk insinua, mas ainda não confirma, que este jogo pode mudar, mas seus autores trabalham nesse sentido, enfim.

Minidebate – 5

13/03/2011

O debate vai caminhando para o final. Passo agora a palavra ao escritor e jornalista Guilherme Scalzilli.

Somos todos punks

Fiz alguns rabiscos sobre os contos de Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário, com o intuito de abordá-los separadamente, mas a leitura ganhou novas dimensões à luz do artigo de Luiz Bras, Convite ao mainstream, publicado no Rascunho. A análise fugiu então dos méritos e defeitos pontuais da coletânea e ampliou-se para o papel do gênero no contexto atual da literatura brasileira. Dadas as limitações do meu arsenal crítico e a natureza da militância que empreendo como autor, penso que seria mais construtivo e honesto se participasse com tais reflexões.

Tenho dificuldade em pensar a criação literária sob uma ótica de grupo (independente dos critérios distintivos), pois vivencio há duas décadas o isolamento pessoal e profissional que prejudica a maioria dos autores contemporâneos, principalmente os novatos. A literatura brasileira reconhecida pelos veículos especializados ou de grande circulação já está restrita a uma seita de iniciados, que, aliás, é bastante desunida e competitiva. Temo que a inserção de novas confrarias nesse ambiente ajude a alimentar preconceitos, falsas polêmicas e disputas vazias. Quanto menos imaginarmos fronteiras seletivas, mais próximos estaremos de superá-las.

O ofício literário é batalha permanente por legitimações. O escritor brasileiro gasta boa parte do tempo útil debatendo-se contra o desinteresse da crítica, a indiferença dos colegas e as confrarias que dominam a imprensa, as casas editoriais e os convescotes variados — tudo isso evitando rótulos limitadores. O autor anônimo precisaria ser um super-herói da obstinação para também superar os avais seletivos do grupo ao qual pretende se unir, sabendo que depois precisará defender a legitimação do próprio gênero enquanto literatura dita alta ou de qualidade.

Quando louvamos a riqueza da literatura de gênero precisamos considerar que sua identidade afirma-se através de um repertório básico de referenciais. Isso acarreta problemas quando os modelos estabelecidos sufocam a liberdade do impulso criativo. Um risco ameno do condicionamento (tomando o exemplo da FC) é permitir que a especulação científica suplante o apuro estético, repetindo o que a digressão filosófica faz com a linguagem na obra de muitos poetas.

Há, no entanto, um perigo mais sério dessa atitude: a (in)voluntária absorção de clichês. Não importa se os lugares-comuns vêm do fetichismo da cultura de massas ou dos padrões narrativos da indústria do entretenimento; aceitá-los como suportes para enredos inusitados gera certa autocomplacência formal, baseada apenas no conforto da evasão, que no limite nada possui de autêntico ou inovador.

Por outro lado, parece-me que a falta de novidade temática não explica a monotonia da produção atual. Repetindo o Convite ao mainstream, um bom romance ou conto nasce do tratamento conferido a “narrador, personagens, tempo, espaço, ação e linguagem”. A literatura nacional soa medíocre ou repetitiva simplesmente porque é incapaz de atingir resultados satisfatórios no equilíbrio desses elementos. As obras que possuem qualidades básicas de elaboração estilística sempre terão uma força original, mesmo que não explorem fronteiras imaginativas ou que não desafiem os cânones.

Uma distorção típica do tal mainstream é pretender sintetizar ou personificar toda a literatura contemporânea. Pois o inegável esgotamento do mainstream não reflete a imensa produção literária que se multiplica à margem do microcosmo consagrado. Esse cansaço reproduz os vícios, as acomodações e os favoritismos vigentes nas esferas legitimadoras que habitam e circundam o mercado editorial. Trazer a FC para o centro do debate será bastante positivo, mas o cenário mudará pouco se os critérios hegemônicos de reconhecimento continuarem intactos.

Minidebate – 4

12/03/2011

Dando continuidade ao debate, o artigo a seguir foi enviado pelo professor e tradutor Zé Pedro Antunes.

À leitura de Histórias de um futuro extraordinário

Habituado, pelos acasos que determinaram a minha formação, a buscar na literatura, preferencialmente, o que escape à repetição e à mesmice, cevado na leitura de obras vanguardistas e esquisitices em geral, eu não me suspeitava um leitor mainstream. E o minidebate que se inicia tem como pressuposto um embate entre o mainstream — ao qual, agora reconheço, até por dever de ofício, me vejo atrelado — e a assim chamada literatura de gênero, da qual, pelas mesmas razões, sempre andei ao largo. Hesitei muito em aceitar o convite ao debate, mas me vi tentado pelo desafio: ler a coletânea Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário (Tarja Editorial, 2010) e tecer um comentário.

Pra já, foi uma viagem. Bem entendido: primeira viagem. E ainda bem que não me deixei levar pelas promessas futuristas da capa ou do texto da contracapa: “O futuro não se encontra mais adiante. Ele está nessas páginas.” Agora, não é nada otimista, convenhamos — e, na pressa, alguém poderia julgá-lo pretensioso —, o parágrafo final do texto impresso nas orelhas do volume: “Podemos dizer sem risco de errar que esta, além de ser a primeira obra brasileira do gênero com essa proposta, será durante muitas décadas a mais representativa e também a mais ampla apresentação do cyberpunk no país.”

Anotem: foi a primeira vez que me deparei com essa denominação de gênero: cyberpunk.

Lida a coletânea, o acaso me levou a Rebelde entre os rebeldes, de Arnaldo Baptista, uma “viagem pelo universo da ficção científica”, narrada “em plena década de 1980” por Arnaldo Baptista (duas vezes ex-Mutantes), mas lançada pela Rocco apenas em 2008. Linguagem saborosamente juvenil, o livro mereceu primorosa edição por parte da Rocco. Na capa, uma pintura do autor. Um detalhe, ao longo da prazerosa leitura, me ofereceu outros olhos para a coletânea em debate. Em dado momento, num outro planeta, um pós-humano invade as instalações do inimigo e, ao clandestinamente fazer uso de um computador para desativar mecanismos de destruição, teme “ser pego com a boca na botija”. Passei a recapitular, então, a leitura que fizera dos contos da coletânea, da qual me ficara a impressão de que a nossa babel linguística e os problemas de revisão — e destes tampouco o mainstream está livre — estão fadados a resistir por décadas, séculos talvez, uma vez que “o futuro está nessas páginas”.

Eu não diria que essas histórias têm como preocupação maior o conteúdo, mesmo ante a evidência de que, na maioria delas, pouca atenção se percebe em relação à forma, talvez por desconhecimento, sei lá. Pergunta que não quer calar: mas vamos seguir separando, assim, forma e conteúdo? Saussure nos espera nesse futuro extraordinário?

Uma coisa é certa: humor não vai faltar. Ainda bem.

Registre-se que, em certos momentos, por tudo o que já foi dito, o humor é claramente involuntário, fazendo supor insuficiente consciência de linguagem por parte dos respectivos autores. Sem conhecer as regras e as convenções do gênero, tenho dificuldade em imaginar como se estabelece esse cânone, vamos chamá-lo assim, que os textos de apresentação fazem supor.

Impressão geral: em todo caso, fica-me a inesperada constatação de ser o cyberpunk um gênero muito bem-humorado, com o frequente recurso ao escracho e a uma curiosa mistura, hilária, de ambiente tecno-futurista e o nosso coloquial bem aqui e agora, com direito a gírias, palavrões e expressões regionais, ao que se supõe, altamente resistentes à passagem do tempo. E, não muito frequente, até mesmo alguma erudição literária mainstream.

No que se segue, uma amostragem.

Em Instinto materno, de Pedro Vieira, temos: “Se vocês pretendem fazer um clone de Jesus Cristo, devem pelo menos fazer um bagulho bem feito.” Se em Protagonistas e figurantes, Luiz Bras, entre outras referências explícitas, dá a um personagem o nome de Raduan, num aceno hilário ao leitor mainstream (entre nós, ninguém se chama Raduan impunemente!), em Memórias de um runner, um personagem atende pelo sobrenome do criador: Giraldi. Em É por isso que eu odeio política, a gíria atualíssima (“Fala sério!”) convive com um regionalismo da gota serena (“Maldito filho de uma égua.”).

No quesito humor, no entanto, Uma questão de estilo é imbatível, desde o título, que pode ser lido como auto-referente, a tiradas como “pernas de pau” para falar de uma seleção italiana inteira composta por jogadores robôs e à engenhosa recriação do jargão futebolístico, a vaticinar vida talvez eterna aos chavões surrados de que ele quase inteiramente se compõe. Com personagens que têm nomes de figurões manjados do nosso cenário futebolístico, o conto se apoia num achado impagável: “Que coisa, gente, um robô macumbeiro! Só no Brasil mesmo!” O massagista-robô, no caso, o XPV-17, como não poderia deixar de ser, ganhou um apelido carinhoso: Xispe. Posto que a Copa se dá no ano de 2070, um Dicionário de gírias e expressões do século 20 — claro, de autoria de “Aurélio Buarque de Holanda Neto” [sic], terá sido de grande serventia para o narrador.

Ao final, o jeitinho brasileiro — ao garantir para a seleção brasileira a grande conquista nos 100 anos da Copa do México — triunfa nesse curiosíssimo futebol tecno-futurista praticado, preponderantemente, por jogadores robôs. Detalhe: só a seleção canarinho é quase só de humanos. De robô, só o goleiro.

Para Pedro Vieira: “Os conglomerados tecnológicos privatizaram os orixás há séculos.”  Em seu Instinto materno é o candomblé da Bahia que se mostra plenamente ambientado no futuro. Ele se vale, inteligentemente, do jogo entre o download da informática e o baixar um santo das religiões afroamericanas.

O humor debochado comparece em Salvem os marsupiais, de Débora Vieira Ramires, muito propício ao descrever o ambiente sociolinguístico em que um humano se aproxima de uma prostituta-robô “com uma personalidade cibernética a zelar”, com direito a “andróides de quinta categoria” e baixarias do tipo “ — Espero que o trabalho que fizeram aí embaixo não tenha sido porco […].” Ou sutilezas como: “— É um crime uma máquina como você ter que se prostituir […].” Ou grosserias hilariamente autodepreciativas: “[…] e uma que era gostosa demais pra ser humana.” Em Longa vida: a República, de Richard Diegues, que fecha a coletânea, um achado engraçadíssimo: é “a bytes pequenos” que corre uma certa notícia.

Concluindo: o humor, em seus vários registros, tão presente e tão especial num gênero que eu até aqui desconhecia, é o que me parece salvar as histórias das promessas da capa e do texto de apresentação. É o humor que lhes imprime alguma consciência de linguagem, algum vislumbre da distância (e das impossibilidades) que os separam de desdobramentos plausíveis, no futuro que projetam, da linguagem que hoje praticamos. E é esse sábio recurso ao humor, penso, que pode aproximar essa literatura de gênero das melhores conquistas do mainstream no século passado, dos procedimentos que poderiam injetar nela consciência de linguagem, a permitir voos mais arriscados e mais amplos. Seja o já detectado, e felizmente não-canonizado amor/humor de Oswald, para falar do nosso modernismo, seja o humor tão peculiar de autores como Kafka, Joyce ou Brecht, entre outros, mais difícil de ser detectado, posto que o mainstream, tantas vezes, costuma impor rédeas curtas à fruição de seus eleitos. Arrisquemos: não será o humor um outro nome para a tal consciência de linguagem?

Resta saber se os autores do gênero estão mesmo interessados no Convite ao mainstream, que, no texto de Luiz Bras, também a eles se dirige. Se gostariam de chegar a um humor mais sutil, mais refinado, talvez mais adulto. Se estão mesmo interessados em virar biscoito fino, quando o risco é perder a massa que supostamente os consome.

Minidebate – 3

11/03/2011

Agora com a palavra, o escritor, ensaísta e professor Flávio Carneiro.

Para quem escreve o escritor cyberpunk?

Antes de falar propriamente da antologia Cyberpunk, lançada pela Tarja Editorial em 2010, gostaria de retomar o texto de Luiz Bras publicado no Rascunho ano passado, Duas elites.

Como estratégia de incitação ao debate, o artigo funciona perfeitamente. Tanto é que suscitou comentários riquíssimos, trazendo à cena uma questão que vem desde o início da ficção brasileira, em meados do século 19: a distinção, com juízo de valor, entre alta e baixa literaturas. A esse respeito, lembro apenas dois casos emblemáticos: Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e Mattos, Malta ou Maltta?, de Aluísio Azevedo. O primeiro tornou-se um livro canônico, estudado pela elite acadêmica, embora tenha sido publicado como um produto voltado para a elite da literatura de gênero (usando os termos formulados por Luiz Bras). O segundo pode ser considerado, na opinião de alguns, dentre os quais me incluo, como nosso primeiro romance policial, escrito por um escritor canônico, embora pertencendo a um gênero e publicado num formato voltados para a outra elite.

Nem Manuel Antônio de Almeida nem Aluísio Azevedo assinaram o  próprio nome na capa dos livros, usando pseudônimos. A razão disso, me parece, tem a ver com o fato de os gêneros de entretenimento, como a sátira e o policial no caso, não serem considerados literatura séria e sim romances ao correr da pena (como seus próprios autores definiram os romances citados), escrita apressada e sem valor literário. Quer dizer, os próprios autores de uma literatura de entretenimento não levavam a sério a literatura de entretenimento (Aluísio só viria a reivindicar para si, como obras de valor, os romances naturalistas, no que foi acompanhado pela crítica e pela história da literatura).

Por estranho que possa parecer, essa distinção ganha mais força ainda nas primeiras décadas do século 20, com o movimento modernista. Oswald dizia: a massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico. Não comeu, sabemos. Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, os dois romances do autor, ainda hoje não são de fácil leitura, assim como Macunaíma, de Mário, o que, obviamente, não lhes tira o valor literário, servindo apenas, aqui, para mostrar como a questão pode ser mais complexa do que parece.

No entanto, se esta cisão entre alta e baixa literaturas vem dos primórdios de nossa ficção e é reforçada no século 20, nos últimos 30 anos algo tem se modificado. O que vejo de mais interessante na ficção brasileira pós-ditadura, ou seja, dos anos 80 até hoje, é a capacidade de muitos de nossos autores de conciliar as duas partes aparentemente incociliáveis.

Ao colocar a questão apenas como um embate entre duas forças antagônicas, Luiz Bras sem dúvida presta um grande serviço ao debate sobre o tema. Por outro lado, para que o debate ganhe força, é importante que essa divisão esquemática se desfaça no correr da discussão, como me parece ter acontecido, por exemplo, nos comentários de Amilcar Bettega e José Castello, no artigo do Rascunho. Sem querer me aprofundar muito nesse ponto, para que isso não se transforme num artigo longo demais para o que se propõe, lembro apenas que boa parte dos ficcionistas brasileiros em atividade atua ou atuou de algum modo nas duas elites. Seja como professores universitários, seja como mestrandos ou doutorandos, são autores que, na academia e na sua produção literária, conseguiram driblar o embate entre as duas elites, achando uma terceira via que, na minha opinião, é de uma riqueza que raras vezes encontramos em nossa história.

Só de passagem, lembro alguns nomes que serviriam para exemplificar o que digo: Silviano Santiago, Cristovão Tezza, Gustavo Bernardo Krause, Antonio Carlos Viana, Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Alberto Mussa, João Gilberto Noll, Sérgio Sant’Anna, Luiz Alfredo Garcia-Roza. Também faço parte desse time, como o próprio Luiz Bras (ou pelo menos seu duplo Nelson de Oliveira). Nenhum de nós, creio, pode ser catalogado numa ou noutra elite apenas. Dependendo do ponto de vista, podemos tender mais para uma do que para outra, mas não creio que nenhum dos nomes citados aceite qualquer dos dois rótulos. No meu caso, se me permitem esse breve surto confessional, estaria numa tremenda enrascada se precisasse me colocar apenas numa ou noutra banda da questão. Como professor universitário e com alguns livros de crítica literária publicados, estaria na primeira. Mas como autor de novelas infanto-juvenis, ficção policial, ficção fantástica e prestes a lançar um romance de ficção científica, estaria por certo do outro lado.

Noutras palavras, se for levar ao pé da letra o texto do caro amigo Luiz Bras, posso me considerar vítima de um raio desintegrador qualquer e simplesmente sumir do mapa! Se o mapa, claro, tiver apenas dois territórios. Eu e todos esses citados aí em cima, inclusive ele mesmo, Luiz Bras, que, aliás, é um dos autores brasileiros contemporâneos que consegue aliar sofisticação e simplicidade na sua obra — como no conto Protagonistas e figurantes, da antologia Cyberpunk —, dando uma banana para a questão que ele próprio levantou.

Sem dúvida que a antologia tem seus méritos. A criatividade corre solta nesses contos que criam maravilhas como Innerself, Centro Mendel de Configuração Genética, conexão neural, eco-terroristas, runners com medicard, Cybermind, jogo de futebol cyberpunk, clone de Jesus Cristo, Comitê de Inteligências Programadas etc.

Há no entanto algo que me incomoda e que certa vez chamei, me referindo a outro tipo de ficção, de voz intrusa — a voz do autor atravessando a do narrador. Na antologia, vez ou outra a voz intrusa se manifesta, geralmente ao final da história mas também aqui e ali durante a trama. A voz intrusa atende também por outro nome: mensagem. Na minha visão, como leitor e escritor, mensagem é o maior estrupício que pode haver num texto literário. Autor não tem que dizer nada, ou melhor, ele sempre diz mas deve o tempo inteiro cuidar para parecer que não. Quem tem que ser ouvida é a voz do narrador, criada pelo autor para conduzir o relato.

Concordo com Ronaldo Cagiano, quando diz, em relação à antologia, que “o que parece inusitado, insólito, incomum, absurdo, inverossímil, suprarreal nesse futuro a laser, nada mais é do que um reciclado papel-carbono de um passado trágico.” De fato, como afirma Nelson Brissac Peixoto e Maria Celeste Olalquiaga no artigo O futuro do passado (numa coletânea de ensaios de autores diversos, publicada pela Unicamp com o título de Pós-modernidade), a ficção científica, ao projetar um futuro ficcional, leva para o papel as marcas do presente e, em grande parte, do passado — basta comparar, afirmam os autores, os filmes sci-fi dos anos 50 com os dos anos 80.

Agora, acho que na antologia isso fica um pouco explícito demais em alguns contos. Curiosamente, o que a princípio deveria ser um belo livro de fantasias acaba soando como algo excessivamente realista e com uma carga ideológica um pouco pesada demais.

Há também problemas de revisão do texto, com erros de português que não poderiam ter passado. E antes que alguém diga que isso não é importante, digo que é sim. Como também é importante uma boa diagramação (falta mais espaço em branco nas páginas da antologia) e uma boa capa.

Não sou um especialista em ficção científica, nem brasileira nem de outros países. Em relação ao gênero, sou um leitor amador. O que tenho reparado, porém, considerada essa minha limitação de leitura, é que as capas de obras de ficção científica publicadas no Brasil são muito parecidas. Parece que é sempre o mesmo sujeito que faz todas. E, para o meu gosto, não são boas, com signos previsíveis e esse tom brilhoso que marcou época e felizmente já quase não se usa.

Talvez isso faça parte de um projeto: o de criar uma marca. E aí trago para o debate uma questão para a qual ainda não tenho resposta. É interessante, para os autores brasileiros de ficção científica, criar uma marca? E, ligada a esta, viria também outra questão: como esses escritores gostariam de ser lidos? E por quem?

No ensaio O conto policial, Borges comenta que Poe, ao criar o gênero (com Os crimes da rua Morgue) cria também um tipo de leitor: o leitor de ficção policial. Borges dá um exemplo. Digamos que esse leitor, o leitor de romances policiais, leia pela primeira vez o Quixote. Como o leria então? Transcrevo um pequeno trecho do ensaio:

Num lugar da Mancha de cujo nome não quero recordar-me não há muito tempo vivia um fidalgo… e já o nosso leitor está cheio de suspeitas, porque o leitor de novelas policiais é um leitor que lê com incredulidade, com desconfianças, com uma suspicácia especial. Se lê, por exemplo: Num lugar da Mancha…, logo supõe que aquilo não aconteceu na Mancha. E logo a seguir: … de cujo nome não quero recordar-me… por que não quis Cervantes lembrar-se? Sem dúvida porque Cervantes era o assassino, o culpado. Continuando a leitura: … não há muito tempo... possivelmente o que sucedeu não será tão aterrador como o que reserva o futuro.”

Como lê um conto cyberpunk um leitor de ficção cyberpunk? E o escritor desse tipo de conto, para quem ele escreve? É interessante, para os autores do gênero, continuar tendo sempre os mesmos leitores do gênero? Se Poe, como afirma Borges, cria o gênero e ao mesmo tempo o leitor do gênero, é certo também que nem todos os leitores de Poe são amantes da ficção policial e o leem porque tiram dali algum prazer que não é exatamente aquele que os aficcionados do gênero provavelmente tiram.

Nesse sentido, me identifico com um leitor como Luís Henrique Pellanda, que, pelo que pude compreender do seu texto, não é o típico leitor de ficção cyberpunk porque não reconhece nos contos, talvez, as marcas que o tornariam um dos integrantes da tribo. Posso estar enganado, mas me parece que, ao insistirem numa marca — como as que Luiz Bras lista no seu artigo, por exemplo —, que vai se construindo desde a capa dos livros até preocupações com certo vocabulário e com uma temática específica, os escritores de ficção cyberpunk estariam, de certo modo, menosprezando os não-iniciados. Quem sabe seja esse mesmo o propósito, o que seria, na minha opinião, um equívoco.

De todo modo, repito, não sou um especialista no gênero. Mesmo com alguns problemas, como os apontados, li com prazer a antologia e confesso que me diverti com as sacadas bem-humoradas que perpassam boa parte das histórias. Talvez não tenha entendido nada, pode ser, e por isso quem sabe tenha gostado do que não era para gostar e tenha passado batido pelo que de fato importa para os leitores do gênero.

Gostei da leitura dos contos e também de um detalhe: a reescritura, na ficha técnica, daquela frase conhecida: qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência etc. É um detalhe apenas mas mostra que os organizadores da antologia sabiam o que estavam fazendo, ao sugerir, sob a forma do humor, a complexidade da relação entre realidade e fantasia.     

Achei, no entanto, que faltou um pouco mais de cuidado em alguns contos, que me pareceram optar pelas soluções literárias mais fáceis e por isso, para este leitor, menos atraentes. Não acho que seja o caso de citar este ou aquele porque o mérito maior da antologia está no projeto em si e não na performance particular dos autores selecionados: o mérito de trazer a público autores promissores, na companhia de outros mais experientes, e de provocar o debate sobre questões que nos ajudam a pensar um pouco sobre como funciona isso que nos encanta e que chamamos, cada qual a seu modo, de literatura.

Minidebate – 2

10/03/2011

O artigo a seguir, recebido no primeiro minuto de hoje, foi enviado pelo escritor e tradutor Ronaldo Cagiano.

O futuro de um passado imutável

Reunindo nove contos que mesclam tecnologia e vida humana, a antologia Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário (Tarja Editorial, 2010), traz um instigante mergulho num universo que coloca frente a frente a realidade virtual e o homem de carne e osso. Aliás, o termo cyberpunk, recém-incorporado como uma nova vertente da criação literária, passa ao largo das tradicionais histórias de ficção científica a que estamos acostumados, para instaurar um novo olhar sobre o mundo moderno, carregado de recursos, mas vazio de sentimentos e valores.

O que os nove autores propuseram nesse esforço narrativo e ficcional foi espelhar uma nova realidade, cujos parâmetros ou estereótipos dizem respeito não a um cenário futurista ou tecnologicamente megalomaníaco, algo tão peculiar à literatura do gênero. Transcendendo a mera perspectiva dos cenários lunares, das atmosferas marcianas ou dos insondáveis territórios das estrelas, aqui as histórias desnudam o ser a partir do uso (ou abuso) que se faz da própria tecnologia, em proveito (ou em prejuízo) de situações que se desenrolam no ritmo de conexões que culminam tão somente na manutenção do status quo de um velho conhecido de todas as civilizações: o poder, e os recursos e as alternativas reais ou virtuais para mantê-lo ou perenizá-lo.

Os circuitos, a eficiência das máquinas e dos robôs que agem e pensam no lugar do trabalho manual e rotineiro, o minimalismo ultraeficiente da nanotecnologia, a velocidade dos microcomputadores, a condensação de informações em microchips, os espaços insondáveis da memória e da inteligência artificial, enfim todo o aparato desenvolvido pela mente para substituir as etapas materiais, físicas e intelectuais, nada mais representam senão a necessidade mórbida de substituir a ação individual para potencializar o seu domínio sobre o mundo, sobre o próximo e sobre as instituições. A fim de dotar o espaço vital cada vez mais de um sentido de propriedade, em que o poder é exercido em sua plenitude, colocando cada um de nós como meras engrenagens (virtualíssimas, é claro) de um imenso sistema de colonização cibernética.

Quando líamos, nos primórdios não muito longínquos, na prosa de Julio Verne, Ray Bradbury ou George Orwell, histórias que nos lançavam em viagens extraordinárias a mundos perdidos ou inauditos, ou mostravam a tragédia da censura ou a implacabilidade do controle da vida humana, não imaginávamos que pouco tempo depois iríamos nos defrontar com uma realidade mais perniciosa e invasiva: a virtualidade disseminada pela alta tecnologia. De modo que aqueles autores logo se converteriam em românticos arquitetos de mundos inofensivos. Hoje, não há sombra de dúvida de que o tempo e o lugar em que estamos vivendo, este mundo afetado por tantos futuros imediatos ou potenciais, transporta uma carga danosa que ainda não foi possível aquilatar ou aferir. Uma carga que pode ser sentida em toda sua dimensão, palpável nos recursos que aí estão à nossa disposição ou na exponencial capacidade de armazenamento de seus efeitos.

Não é do mundo de andróides que falam esses contos contemporâneos. Muito menos nos catapultam, esses nove autores, à latitude de fantasias e espaçonaves, ou nos apresentam seres metálicos e planetas distantes, numa melancólica luta maniqueísta entre o bem e o mal. O buraco (de ozônio ou de consciência, de valores ou de sentimentos) é mais embaixo. Escritores e suas histórias foram arregimentados nessa obra para narrar, em diversas instâncias (geográficas, políticas, sociais, culturais, intelectuais, psicológicas, mas acima de tudo humanas), o artificialismo da vida moderna, monitorada, manipulada, seduzida e dirigida pelos fetiches narcisoides da tecnologia, como se todas as alternativas, ou atalhos, por ela proporcionada se constituíssem no único e verdadeiro maná, no único e indissociável recurso para se alcançar a felicidade, o bem-estar ou o elixir da longa vida. Essa panaceia ainda não foi conquistada pelo desenvolvimento científico-tecnológico. Prova-nos essa ficção, que reverbera o mesmo desassossego e o mesmo caos que vêm desde os remotos tempos das cavernas. Hoje, encavernados ou entrincheirados em currais de vidro que hospedam máquinas e circuitos potentíssimos, sofremos a mesma pane de quanto ainda nem tínhamos a fogueira para nos iluminar.

Esses contos revelam nada mais que o desaparecimento do sentido de humanidade nas ações individuais. Apesar da realidade virtual, que substituiu o suor e a lágrima pela inteligência artificial, deflagrando o mundo novo num ritmo alucinado e devastador, nada mudou. Pior: instalou-se o reinado de um novo absolutismo. É o que nos denunciam esses contos, que mapeiam situações encontradiças no dia-a-dia, seja na vida de um povo ou de um Estado (Instinto materno), seja na disputa de uma Copa do Mundo (Uma questão de estilo), nos desdobramentos de um processo eleitoral (Longa vida à República) ou na repetição de lesivos desejos imperialistas (É por isso que eu odeio política).

O que parece inusitado, insólito, incomum, absurdo, inverossímil, suprarreal nesse futuro a laser, nada mais é do que um reciclado papel-carbono de um passado trágico. Velhos conflitos, antigos dramas e dilemas ancestrais se repetem, ou se reproduzem, com requintes de perversidade tecnológica, colocando a nu os confrontos ideológicos e materiais que nos acompanham desde o princípio do mundo, confrontos que a arte e a literatura vêm mapeando. Desde o teatro grego, passando pelos Evangelhos, por Aristóteles e Platão, por Shakespeare, Cervantes, Dante, Machado de Assis, Tolstoi, Jean Genet, Guimarães Rosa ou Campos de Carvalho, tudo já estava lá, tudo está agora, e tudo continua como dantes nesse futuro tão distante e ao mesmo tempo tão presente, em que as mesmas questões são espelhadas, intransponíveis e deletérias. O fundo político sempre esteve presente — e sempre estará — na vida ou na literatura, no ontem ou no hoje, no futuro palpável ou no virtual, porque na raiz de tudo está o homem, esse bicho inquestionavelmente inacabado, essa fraude de Deus perpetrada pelos séculos e séculos amém.

Seria despiciendo analisar conto a conto, propor uma leitura técnica, ou um enquadramento sistemático dentro dos cânones de uma pretensa crítica literária, com seus desdobramentos hermético-acadêmicos. Isso seria um desserviço ao leitor. Nem pretendo analisar os méritos narrativos de um ou outro autor da coletânea, nem apontar as deficiências, escorregões, impropriedades, clichês ou lugares-comuns, que podem ser encontrados em alguns trabalhos. Claro está que numa obra coletiva heterogênea há altos e baixos, há textos excelentes e medianos, há estilo e falta de, há histórias interessantes e outras sofríveis, há linguagem depurada e há lixo (cibernético ou literário). O que importa nessa tentativa de mapear esse novo imaginário não é premiar a melhor fantasia ou o melhor enredo, mas reconhecer que cada autor procurou, embora uns com mais talento que outros, questionar a realidade e criar, a seu modo e dentro de suas facilidades ou limitações em relação a tema tão novo, uma literatura a partir do espaço cibernético, capaz de protagonizar a preocupação individual (e coletiva) em relação a um futuro que não sabemos a que galáxia nos levará. Seremos salvos pelo sentimento? Ou seremos engolidos pela onipresença e pela onipotência do mundo pós-moderno?

Eis uma coletânea que nos propõe questionamentos e não respostas. Ao leitor, portanto, a palavra.

Minidebate – 1

09/03/2011

A Tarja Editorial lançou recentemente uma antologia de contos cyberpunks brasileiros, intitulada justamente Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário. Uma narrativa minha foi incluída no livro, ao lado de outras oito histórias. Para promover a reflexão, pedi a alguns escritores-leitores do mainstream que escrevessem um comentário sobre o livro e o gênero por ele contemplado. Dando início ao minidebate, o jornalista e escritor Luís Henrique Pellanda enviou o artigo abaixo.

O futuro da linguagem literária

Quando Luiz Bras publicou no Rascunho — jornal do qual sou subeditor e colunista — o seu artigo Duas elites, texto-debate em que se debruçava sobre o conflito entre a dita alta literatura, representada pela crítica acadêmica, e a literatura de gênero, defendida, naquele caso, pelos autores da ficção científica nacional, me dei conta de que nunca havia pensado no problema. Quer dizer, percebi que, além de não ser um escritor de gênero, nunca fui um leitor de gênero. Jamais achei que, ao ler Cormac McCarthy, estaria lendo uma obra de faroeste; ao folhear um Montalbán, pouco me importava se a crítica o considerava um romancista policial; e mesmo os contos de Poe não ocupam, em minha biblioteca, uma estante dedicada ao terror. Isso sequer me passa pela cabeça. Assim, quando li Ray Bradbury (impulsionado pelo filme do Truffaut), nada me sugeria estar diante de um expoente da FC. Asimov e William Gibson, por exemplo — autores que nunca me fisgaram —, escaparam de qualquer rotulação de minha parte. Aliás, também não sei definir com precisão o que seria o cyberpunk, não naturalmente, sem antes recorrer a uma lista auxiliadora de características técnicas, formais ou não, provavelmente forjadas por críticos literários, acadêmicos ou não.

Não sou crítico, deixo claro, e muito menos acadêmico. Minha formação é de jornalista — o que, no Brasil, equivale a dizer que não estudei muito, ou quase nada. Não tenho pós, mestrado ou doutorado, mas tenho, sim, algumas perguntas na ponta dos dedos, destinadas principalmente aos profissionais das tantas áreas que não conheço a fundo, ou que não compreendo ou contemplo tanto quanto deveria. Portanto, não me cabe redigir aqui uma avaliação crítica da coletânea Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário, da Tarja Editorial, ou apontar seus altos e/ou baixos. Pelo contrário, gostaria simplesmente de largar no ciberespaço duas ou três perguntas de leitor leigo (ou curioso). Para enunciá-las, contudo, preciso partir de minha experiência como leitor de literatura — e de qualquer literatura.

Para começar, confesso buscar nos livros que leio algo bem diferente de investigações acerca do futuro real do homem, ou de nosso futuro tecnológico — mera questão de gosto ou idiossincrasia, algo que, por si só, não nego, já me desqualifica como árbitro da qualidade deste ou daquele conto da compilação. Mas busco, entre muitas outras coisas — como a produção de significados e de identificação, o deleite estético e intelectual, a análise indireta e aprofundada de questões humanas fundamentais, alguma iluminação momentânea, mesmo que precária, e também um lugar meu, à sombra do mundo —, também detectar, nos autores/artistas a que me dedico, certa dose de preocupação no que diz respeito à estrutura narrativa de suas histórias e à linguagem escolhida para contá-las. Falo não apenas de originalidade e inovação (clichês e fórmulas são sempre abomináveis, isso é ponto pacífico), mas de aprimoramento artístico pessoal no manejo de nossa maior ferramenta de trabalho.

Às vezes, ao ler o que certas normas chamam de FC, sinto que essa preocupação, em grande parte dos casos, quase não existe, ou que talvez não interesse ao vasto público do gênero. Procede? Portanto, me pergunto — e repasso a pergunta —: se é o caso de imaginarmos um futuro, quase sempre infeliz, para o homem e a sua tecnologia, não seria também essencial imaginarmos um futuro para a sua língua, para as formas de expressão verbal de nossos personagens? De que maneira nos comunicaremos, ou escreveremos, nesse futuro extraordinário? Me parece que, se recorrermos apenas às regras gramaticais da norma culta, ou às convenções coloquiais de nossa época, estaremos desperdiçando munição preciosa, deixando de usar aquilo que a literatura nos oferece de mais poderoso, a sua arma mais eficiente: a linguagem. O tal pacto com o leitor — e isso não é papo de crítico — só se fortaleceria com isso. Para mim, como leitor e escritor, a linguagem é primordial.

Quando li Santa Clara Poltergeist, há cerca de 20 anos, lembro de ter apreciado o modo como Fausto Fawcett transpôs a lírica robótica de sua música para as necessidades da sua literatura. Sua máquina de versejar — e empresto aqui a expressão que Sérgio Sant’Anna criou para a sua Junk-box —, repetidora, matadora, maníaca, foi transformada, com sucesso, numa máquina de narrar. Mas não quero simplesmente exemplificar o que digo, longe de mim. Quero perguntar e, perguntando (cacoete tanto do bom repórter quanto do bom leitor), compreender melhor a velha questão dos gêneros. É claro que encontraremos linguagem trabalhada na coletânea Cyberpunk. Luiz Bras, todos sabemos, transita sem dificuldade entre as duas elites que identificou naquele artigo do Rascunho — republicado agora no seu livro de ensaios Muitas peles, pela Terracota; e outros autores, como Pedro Vieira, explorando outros registros, importados do noir, do policial, do thriller ou do humor, também demonstram isso. E por aí seguiríamos muito bem, extraindo de cada escritor a sua particularidade. Mas minhas perguntas, como já disse, precisam ser gerais, dirigidas a quem entende do tema discutido e dedica sua vida a ele: o que caracteriza a linguagem literária cyberpunk? Como leitor não afeito aos gêneros, estou errado em procurar, neste em especial, maiores inquirições ou exercícios de imaginação sobre o futuro, real ou irreal, de nossa língua e de nossa linguagem, ou mesmo da arte de escrever, contar histórias e publicá-las? Ou esta seria uma questão menor para o cyberpunk?