Minidebate – 1

A Tarja Editorial lançou recentemente uma antologia de contos cyberpunks brasileiros, intitulada justamente Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário. Uma narrativa minha foi incluída no livro, ao lado de outras oito histórias. Para promover a reflexão, pedi a alguns escritores-leitores do mainstream que escrevessem um comentário sobre o livro e o gênero por ele contemplado. Dando início ao minidebate, o jornalista e escritor Luís Henrique Pellanda enviou o artigo abaixo.

O futuro da linguagem literária

Quando Luiz Bras publicou no Rascunho — jornal do qual sou subeditor e colunista — o seu artigo Duas elites, texto-debate em que se debruçava sobre o conflito entre a dita alta literatura, representada pela crítica acadêmica, e a literatura de gênero, defendida, naquele caso, pelos autores da ficção científica nacional, me dei conta de que nunca havia pensado no problema. Quer dizer, percebi que, além de não ser um escritor de gênero, nunca fui um leitor de gênero. Jamais achei que, ao ler Cormac McCarthy, estaria lendo uma obra de faroeste; ao folhear um Montalbán, pouco me importava se a crítica o considerava um romancista policial; e mesmo os contos de Poe não ocupam, em minha biblioteca, uma estante dedicada ao terror. Isso sequer me passa pela cabeça. Assim, quando li Ray Bradbury (impulsionado pelo filme do Truffaut), nada me sugeria estar diante de um expoente da FC. Asimov e William Gibson, por exemplo — autores que nunca me fisgaram —, escaparam de qualquer rotulação de minha parte. Aliás, também não sei definir com precisão o que seria o cyberpunk, não naturalmente, sem antes recorrer a uma lista auxiliadora de características técnicas, formais ou não, provavelmente forjadas por críticos literários, acadêmicos ou não.

Não sou crítico, deixo claro, e muito menos acadêmico. Minha formação é de jornalista — o que, no Brasil, equivale a dizer que não estudei muito, ou quase nada. Não tenho pós, mestrado ou doutorado, mas tenho, sim, algumas perguntas na ponta dos dedos, destinadas principalmente aos profissionais das tantas áreas que não conheço a fundo, ou que não compreendo ou contemplo tanto quanto deveria. Portanto, não me cabe redigir aqui uma avaliação crítica da coletânea Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário, da Tarja Editorial, ou apontar seus altos e/ou baixos. Pelo contrário, gostaria simplesmente de largar no ciberespaço duas ou três perguntas de leitor leigo (ou curioso). Para enunciá-las, contudo, preciso partir de minha experiência como leitor de literatura — e de qualquer literatura.

Para começar, confesso buscar nos livros que leio algo bem diferente de investigações acerca do futuro real do homem, ou de nosso futuro tecnológico — mera questão de gosto ou idiossincrasia, algo que, por si só, não nego, já me desqualifica como árbitro da qualidade deste ou daquele conto da compilação. Mas busco, entre muitas outras coisas — como a produção de significados e de identificação, o deleite estético e intelectual, a análise indireta e aprofundada de questões humanas fundamentais, alguma iluminação momentânea, mesmo que precária, e também um lugar meu, à sombra do mundo —, também detectar, nos autores/artistas a que me dedico, certa dose de preocupação no que diz respeito à estrutura narrativa de suas histórias e à linguagem escolhida para contá-las. Falo não apenas de originalidade e inovação (clichês e fórmulas são sempre abomináveis, isso é ponto pacífico), mas de aprimoramento artístico pessoal no manejo de nossa maior ferramenta de trabalho.

Às vezes, ao ler o que certas normas chamam de FC, sinto que essa preocupação, em grande parte dos casos, quase não existe, ou que talvez não interesse ao vasto público do gênero. Procede? Portanto, me pergunto — e repasso a pergunta —: se é o caso de imaginarmos um futuro, quase sempre infeliz, para o homem e a sua tecnologia, não seria também essencial imaginarmos um futuro para a sua língua, para as formas de expressão verbal de nossos personagens? De que maneira nos comunicaremos, ou escreveremos, nesse futuro extraordinário? Me parece que, se recorrermos apenas às regras gramaticais da norma culta, ou às convenções coloquiais de nossa época, estaremos desperdiçando munição preciosa, deixando de usar aquilo que a literatura nos oferece de mais poderoso, a sua arma mais eficiente: a linguagem. O tal pacto com o leitor — e isso não é papo de crítico — só se fortaleceria com isso. Para mim, como leitor e escritor, a linguagem é primordial.

Quando li Santa Clara Poltergeist, há cerca de 20 anos, lembro de ter apreciado o modo como Fausto Fawcett transpôs a lírica robótica de sua música para as necessidades da sua literatura. Sua máquina de versejar — e empresto aqui a expressão que Sérgio Sant’Anna criou para a sua Junk-box —, repetidora, matadora, maníaca, foi transformada, com sucesso, numa máquina de narrar. Mas não quero simplesmente exemplificar o que digo, longe de mim. Quero perguntar e, perguntando (cacoete tanto do bom repórter quanto do bom leitor), compreender melhor a velha questão dos gêneros. É claro que encontraremos linguagem trabalhada na coletânea Cyberpunk. Luiz Bras, todos sabemos, transita sem dificuldade entre as duas elites que identificou naquele artigo do Rascunho — republicado agora no seu livro de ensaios Muitas peles, pela Terracota; e outros autores, como Pedro Vieira, explorando outros registros, importados do noir, do policial, do thriller ou do humor, também demonstram isso. E por aí seguiríamos muito bem, extraindo de cada escritor a sua particularidade. Mas minhas perguntas, como já disse, precisam ser gerais, dirigidas a quem entende do tema discutido e dedica sua vida a ele: o que caracteriza a linguagem literária cyberpunk? Como leitor não afeito aos gêneros, estou errado em procurar, neste em especial, maiores inquirições ou exercícios de imaginação sobre o futuro, real ou irreal, de nossa língua e de nossa linguagem, ou mesmo da arte de escrever, contar histórias e publicá-las? Ou esta seria uma questão menor para o cyberpunk?

Anúncios

Tags:


%d blogueiros gostam disto: