Minidebate – 2

O artigo a seguir, recebido no primeiro minuto de hoje, foi enviado pelo escritor e tradutor Ronaldo Cagiano.

O futuro de um passado imutável

Reunindo nove contos que mesclam tecnologia e vida humana, a antologia Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário (Tarja Editorial, 2010), traz um instigante mergulho num universo que coloca frente a frente a realidade virtual e o homem de carne e osso. Aliás, o termo cyberpunk, recém-incorporado como uma nova vertente da criação literária, passa ao largo das tradicionais histórias de ficção científica a que estamos acostumados, para instaurar um novo olhar sobre o mundo moderno, carregado de recursos, mas vazio de sentimentos e valores.

O que os nove autores propuseram nesse esforço narrativo e ficcional foi espelhar uma nova realidade, cujos parâmetros ou estereótipos dizem respeito não a um cenário futurista ou tecnologicamente megalomaníaco, algo tão peculiar à literatura do gênero. Transcendendo a mera perspectiva dos cenários lunares, das atmosferas marcianas ou dos insondáveis territórios das estrelas, aqui as histórias desnudam o ser a partir do uso (ou abuso) que se faz da própria tecnologia, em proveito (ou em prejuízo) de situações que se desenrolam no ritmo de conexões que culminam tão somente na manutenção do status quo de um velho conhecido de todas as civilizações: o poder, e os recursos e as alternativas reais ou virtuais para mantê-lo ou perenizá-lo.

Os circuitos, a eficiência das máquinas e dos robôs que agem e pensam no lugar do trabalho manual e rotineiro, o minimalismo ultraeficiente da nanotecnologia, a velocidade dos microcomputadores, a condensação de informações em microchips, os espaços insondáveis da memória e da inteligência artificial, enfim todo o aparato desenvolvido pela mente para substituir as etapas materiais, físicas e intelectuais, nada mais representam senão a necessidade mórbida de substituir a ação individual para potencializar o seu domínio sobre o mundo, sobre o próximo e sobre as instituições. A fim de dotar o espaço vital cada vez mais de um sentido de propriedade, em que o poder é exercido em sua plenitude, colocando cada um de nós como meras engrenagens (virtualíssimas, é claro) de um imenso sistema de colonização cibernética.

Quando líamos, nos primórdios não muito longínquos, na prosa de Julio Verne, Ray Bradbury ou George Orwell, histórias que nos lançavam em viagens extraordinárias a mundos perdidos ou inauditos, ou mostravam a tragédia da censura ou a implacabilidade do controle da vida humana, não imaginávamos que pouco tempo depois iríamos nos defrontar com uma realidade mais perniciosa e invasiva: a virtualidade disseminada pela alta tecnologia. De modo que aqueles autores logo se converteriam em românticos arquitetos de mundos inofensivos. Hoje, não há sombra de dúvida de que o tempo e o lugar em que estamos vivendo, este mundo afetado por tantos futuros imediatos ou potenciais, transporta uma carga danosa que ainda não foi possível aquilatar ou aferir. Uma carga que pode ser sentida em toda sua dimensão, palpável nos recursos que aí estão à nossa disposição ou na exponencial capacidade de armazenamento de seus efeitos.

Não é do mundo de andróides que falam esses contos contemporâneos. Muito menos nos catapultam, esses nove autores, à latitude de fantasias e espaçonaves, ou nos apresentam seres metálicos e planetas distantes, numa melancólica luta maniqueísta entre o bem e o mal. O buraco (de ozônio ou de consciência, de valores ou de sentimentos) é mais embaixo. Escritores e suas histórias foram arregimentados nessa obra para narrar, em diversas instâncias (geográficas, políticas, sociais, culturais, intelectuais, psicológicas, mas acima de tudo humanas), o artificialismo da vida moderna, monitorada, manipulada, seduzida e dirigida pelos fetiches narcisoides da tecnologia, como se todas as alternativas, ou atalhos, por ela proporcionada se constituíssem no único e verdadeiro maná, no único e indissociável recurso para se alcançar a felicidade, o bem-estar ou o elixir da longa vida. Essa panaceia ainda não foi conquistada pelo desenvolvimento científico-tecnológico. Prova-nos essa ficção, que reverbera o mesmo desassossego e o mesmo caos que vêm desde os remotos tempos das cavernas. Hoje, encavernados ou entrincheirados em currais de vidro que hospedam máquinas e circuitos potentíssimos, sofremos a mesma pane de quanto ainda nem tínhamos a fogueira para nos iluminar.

Esses contos revelam nada mais que o desaparecimento do sentido de humanidade nas ações individuais. Apesar da realidade virtual, que substituiu o suor e a lágrima pela inteligência artificial, deflagrando o mundo novo num ritmo alucinado e devastador, nada mudou. Pior: instalou-se o reinado de um novo absolutismo. É o que nos denunciam esses contos, que mapeiam situações encontradiças no dia-a-dia, seja na vida de um povo ou de um Estado (Instinto materno), seja na disputa de uma Copa do Mundo (Uma questão de estilo), nos desdobramentos de um processo eleitoral (Longa vida à República) ou na repetição de lesivos desejos imperialistas (É por isso que eu odeio política).

O que parece inusitado, insólito, incomum, absurdo, inverossímil, suprarreal nesse futuro a laser, nada mais é do que um reciclado papel-carbono de um passado trágico. Velhos conflitos, antigos dramas e dilemas ancestrais se repetem, ou se reproduzem, com requintes de perversidade tecnológica, colocando a nu os confrontos ideológicos e materiais que nos acompanham desde o princípio do mundo, confrontos que a arte e a literatura vêm mapeando. Desde o teatro grego, passando pelos Evangelhos, por Aristóteles e Platão, por Shakespeare, Cervantes, Dante, Machado de Assis, Tolstoi, Jean Genet, Guimarães Rosa ou Campos de Carvalho, tudo já estava lá, tudo está agora, e tudo continua como dantes nesse futuro tão distante e ao mesmo tempo tão presente, em que as mesmas questões são espelhadas, intransponíveis e deletérias. O fundo político sempre esteve presente — e sempre estará — na vida ou na literatura, no ontem ou no hoje, no futuro palpável ou no virtual, porque na raiz de tudo está o homem, esse bicho inquestionavelmente inacabado, essa fraude de Deus perpetrada pelos séculos e séculos amém.

Seria despiciendo analisar conto a conto, propor uma leitura técnica, ou um enquadramento sistemático dentro dos cânones de uma pretensa crítica literária, com seus desdobramentos hermético-acadêmicos. Isso seria um desserviço ao leitor. Nem pretendo analisar os méritos narrativos de um ou outro autor da coletânea, nem apontar as deficiências, escorregões, impropriedades, clichês ou lugares-comuns, que podem ser encontrados em alguns trabalhos. Claro está que numa obra coletiva heterogênea há altos e baixos, há textos excelentes e medianos, há estilo e falta de, há histórias interessantes e outras sofríveis, há linguagem depurada e há lixo (cibernético ou literário). O que importa nessa tentativa de mapear esse novo imaginário não é premiar a melhor fantasia ou o melhor enredo, mas reconhecer que cada autor procurou, embora uns com mais talento que outros, questionar a realidade e criar, a seu modo e dentro de suas facilidades ou limitações em relação a tema tão novo, uma literatura a partir do espaço cibernético, capaz de protagonizar a preocupação individual (e coletiva) em relação a um futuro que não sabemos a que galáxia nos levará. Seremos salvos pelo sentimento? Ou seremos engolidos pela onipresença e pela onipotência do mundo pós-moderno?

Eis uma coletânea que nos propõe questionamentos e não respostas. Ao leitor, portanto, a palavra.

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