Minidebate – 3

Agora com a palavra, o escritor, ensaísta e professor Flávio Carneiro.

Para quem escreve o escritor cyberpunk?

Antes de falar propriamente da antologia Cyberpunk, lançada pela Tarja Editorial em 2010, gostaria de retomar o texto de Luiz Bras publicado no Rascunho ano passado, Duas elites.

Como estratégia de incitação ao debate, o artigo funciona perfeitamente. Tanto é que suscitou comentários riquíssimos, trazendo à cena uma questão que vem desde o início da ficção brasileira, em meados do século 19: a distinção, com juízo de valor, entre alta e baixa literaturas. A esse respeito, lembro apenas dois casos emblemáticos: Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e Mattos, Malta ou Maltta?, de Aluísio Azevedo. O primeiro tornou-se um livro canônico, estudado pela elite acadêmica, embora tenha sido publicado como um produto voltado para a elite da literatura de gênero (usando os termos formulados por Luiz Bras). O segundo pode ser considerado, na opinião de alguns, dentre os quais me incluo, como nosso primeiro romance policial, escrito por um escritor canônico, embora pertencendo a um gênero e publicado num formato voltados para a outra elite.

Nem Manuel Antônio de Almeida nem Aluísio Azevedo assinaram o  próprio nome na capa dos livros, usando pseudônimos. A razão disso, me parece, tem a ver com o fato de os gêneros de entretenimento, como a sátira e o policial no caso, não serem considerados literatura séria e sim romances ao correr da pena (como seus próprios autores definiram os romances citados), escrita apressada e sem valor literário. Quer dizer, os próprios autores de uma literatura de entretenimento não levavam a sério a literatura de entretenimento (Aluísio só viria a reivindicar para si, como obras de valor, os romances naturalistas, no que foi acompanhado pela crítica e pela história da literatura).

Por estranho que possa parecer, essa distinção ganha mais força ainda nas primeiras décadas do século 20, com o movimento modernista. Oswald dizia: a massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico. Não comeu, sabemos. Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, os dois romances do autor, ainda hoje não são de fácil leitura, assim como Macunaíma, de Mário, o que, obviamente, não lhes tira o valor literário, servindo apenas, aqui, para mostrar como a questão pode ser mais complexa do que parece.

No entanto, se esta cisão entre alta e baixa literaturas vem dos primórdios de nossa ficção e é reforçada no século 20, nos últimos 30 anos algo tem se modificado. O que vejo de mais interessante na ficção brasileira pós-ditadura, ou seja, dos anos 80 até hoje, é a capacidade de muitos de nossos autores de conciliar as duas partes aparentemente incociliáveis.

Ao colocar a questão apenas como um embate entre duas forças antagônicas, Luiz Bras sem dúvida presta um grande serviço ao debate sobre o tema. Por outro lado, para que o debate ganhe força, é importante que essa divisão esquemática se desfaça no correr da discussão, como me parece ter acontecido, por exemplo, nos comentários de Amilcar Bettega e José Castello, no artigo do Rascunho. Sem querer me aprofundar muito nesse ponto, para que isso não se transforme num artigo longo demais para o que se propõe, lembro apenas que boa parte dos ficcionistas brasileiros em atividade atua ou atuou de algum modo nas duas elites. Seja como professores universitários, seja como mestrandos ou doutorandos, são autores que, na academia e na sua produção literária, conseguiram driblar o embate entre as duas elites, achando uma terceira via que, na minha opinião, é de uma riqueza que raras vezes encontramos em nossa história.

Só de passagem, lembro alguns nomes que serviriam para exemplificar o que digo: Silviano Santiago, Cristovão Tezza, Gustavo Bernardo Krause, Antonio Carlos Viana, Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Alberto Mussa, João Gilberto Noll, Sérgio Sant’Anna, Luiz Alfredo Garcia-Roza. Também faço parte desse time, como o próprio Luiz Bras (ou pelo menos seu duplo Nelson de Oliveira). Nenhum de nós, creio, pode ser catalogado numa ou noutra elite apenas. Dependendo do ponto de vista, podemos tender mais para uma do que para outra, mas não creio que nenhum dos nomes citados aceite qualquer dos dois rótulos. No meu caso, se me permitem esse breve surto confessional, estaria numa tremenda enrascada se precisasse me colocar apenas numa ou noutra banda da questão. Como professor universitário e com alguns livros de crítica literária publicados, estaria na primeira. Mas como autor de novelas infanto-juvenis, ficção policial, ficção fantástica e prestes a lançar um romance de ficção científica, estaria por certo do outro lado.

Noutras palavras, se for levar ao pé da letra o texto do caro amigo Luiz Bras, posso me considerar vítima de um raio desintegrador qualquer e simplesmente sumir do mapa! Se o mapa, claro, tiver apenas dois territórios. Eu e todos esses citados aí em cima, inclusive ele mesmo, Luiz Bras, que, aliás, é um dos autores brasileiros contemporâneos que consegue aliar sofisticação e simplicidade na sua obra — como no conto Protagonistas e figurantes, da antologia Cyberpunk —, dando uma banana para a questão que ele próprio levantou.

Sem dúvida que a antologia tem seus méritos. A criatividade corre solta nesses contos que criam maravilhas como Innerself, Centro Mendel de Configuração Genética, conexão neural, eco-terroristas, runners com medicard, Cybermind, jogo de futebol cyberpunk, clone de Jesus Cristo, Comitê de Inteligências Programadas etc.

Há no entanto algo que me incomoda e que certa vez chamei, me referindo a outro tipo de ficção, de voz intrusa — a voz do autor atravessando a do narrador. Na antologia, vez ou outra a voz intrusa se manifesta, geralmente ao final da história mas também aqui e ali durante a trama. A voz intrusa atende também por outro nome: mensagem. Na minha visão, como leitor e escritor, mensagem é o maior estrupício que pode haver num texto literário. Autor não tem que dizer nada, ou melhor, ele sempre diz mas deve o tempo inteiro cuidar para parecer que não. Quem tem que ser ouvida é a voz do narrador, criada pelo autor para conduzir o relato.

Concordo com Ronaldo Cagiano, quando diz, em relação à antologia, que “o que parece inusitado, insólito, incomum, absurdo, inverossímil, suprarreal nesse futuro a laser, nada mais é do que um reciclado papel-carbono de um passado trágico.” De fato, como afirma Nelson Brissac Peixoto e Maria Celeste Olalquiaga no artigo O futuro do passado (numa coletânea de ensaios de autores diversos, publicada pela Unicamp com o título de Pós-modernidade), a ficção científica, ao projetar um futuro ficcional, leva para o papel as marcas do presente e, em grande parte, do passado — basta comparar, afirmam os autores, os filmes sci-fi dos anos 50 com os dos anos 80.

Agora, acho que na antologia isso fica um pouco explícito demais em alguns contos. Curiosamente, o que a princípio deveria ser um belo livro de fantasias acaba soando como algo excessivamente realista e com uma carga ideológica um pouco pesada demais.

Há também problemas de revisão do texto, com erros de português que não poderiam ter passado. E antes que alguém diga que isso não é importante, digo que é sim. Como também é importante uma boa diagramação (falta mais espaço em branco nas páginas da antologia) e uma boa capa.

Não sou um especialista em ficção científica, nem brasileira nem de outros países. Em relação ao gênero, sou um leitor amador. O que tenho reparado, porém, considerada essa minha limitação de leitura, é que as capas de obras de ficção científica publicadas no Brasil são muito parecidas. Parece que é sempre o mesmo sujeito que faz todas. E, para o meu gosto, não são boas, com signos previsíveis e esse tom brilhoso que marcou época e felizmente já quase não se usa.

Talvez isso faça parte de um projeto: o de criar uma marca. E aí trago para o debate uma questão para a qual ainda não tenho resposta. É interessante, para os autores brasileiros de ficção científica, criar uma marca? E, ligada a esta, viria também outra questão: como esses escritores gostariam de ser lidos? E por quem?

No ensaio O conto policial, Borges comenta que Poe, ao criar o gênero (com Os crimes da rua Morgue) cria também um tipo de leitor: o leitor de ficção policial. Borges dá um exemplo. Digamos que esse leitor, o leitor de romances policiais, leia pela primeira vez o Quixote. Como o leria então? Transcrevo um pequeno trecho do ensaio:

Num lugar da Mancha de cujo nome não quero recordar-me não há muito tempo vivia um fidalgo… e já o nosso leitor está cheio de suspeitas, porque o leitor de novelas policiais é um leitor que lê com incredulidade, com desconfianças, com uma suspicácia especial. Se lê, por exemplo: Num lugar da Mancha…, logo supõe que aquilo não aconteceu na Mancha. E logo a seguir: … de cujo nome não quero recordar-me… por que não quis Cervantes lembrar-se? Sem dúvida porque Cervantes era o assassino, o culpado. Continuando a leitura: … não há muito tempo... possivelmente o que sucedeu não será tão aterrador como o que reserva o futuro.”

Como lê um conto cyberpunk um leitor de ficção cyberpunk? E o escritor desse tipo de conto, para quem ele escreve? É interessante, para os autores do gênero, continuar tendo sempre os mesmos leitores do gênero? Se Poe, como afirma Borges, cria o gênero e ao mesmo tempo o leitor do gênero, é certo também que nem todos os leitores de Poe são amantes da ficção policial e o leem porque tiram dali algum prazer que não é exatamente aquele que os aficcionados do gênero provavelmente tiram.

Nesse sentido, me identifico com um leitor como Luís Henrique Pellanda, que, pelo que pude compreender do seu texto, não é o típico leitor de ficção cyberpunk porque não reconhece nos contos, talvez, as marcas que o tornariam um dos integrantes da tribo. Posso estar enganado, mas me parece que, ao insistirem numa marca — como as que Luiz Bras lista no seu artigo, por exemplo —, que vai se construindo desde a capa dos livros até preocupações com certo vocabulário e com uma temática específica, os escritores de ficção cyberpunk estariam, de certo modo, menosprezando os não-iniciados. Quem sabe seja esse mesmo o propósito, o que seria, na minha opinião, um equívoco.

De todo modo, repito, não sou um especialista no gênero. Mesmo com alguns problemas, como os apontados, li com prazer a antologia e confesso que me diverti com as sacadas bem-humoradas que perpassam boa parte das histórias. Talvez não tenha entendido nada, pode ser, e por isso quem sabe tenha gostado do que não era para gostar e tenha passado batido pelo que de fato importa para os leitores do gênero.

Gostei da leitura dos contos e também de um detalhe: a reescritura, na ficha técnica, daquela frase conhecida: qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência etc. É um detalhe apenas mas mostra que os organizadores da antologia sabiam o que estavam fazendo, ao sugerir, sob a forma do humor, a complexidade da relação entre realidade e fantasia.     

Achei, no entanto, que faltou um pouco mais de cuidado em alguns contos, que me pareceram optar pelas soluções literárias mais fáceis e por isso, para este leitor, menos atraentes. Não acho que seja o caso de citar este ou aquele porque o mérito maior da antologia está no projeto em si e não na performance particular dos autores selecionados: o mérito de trazer a público autores promissores, na companhia de outros mais experientes, e de provocar o debate sobre questões que nos ajudam a pensar um pouco sobre como funciona isso que nos encanta e que chamamos, cada qual a seu modo, de literatura.

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