Minidebate – 4

Dando continuidade ao debate, o artigo a seguir foi enviado pelo professor e tradutor Zé Pedro Antunes.

À leitura de Histórias de um futuro extraordinário

Habituado, pelos acasos que determinaram a minha formação, a buscar na literatura, preferencialmente, o que escape à repetição e à mesmice, cevado na leitura de obras vanguardistas e esquisitices em geral, eu não me suspeitava um leitor mainstream. E o minidebate que se inicia tem como pressuposto um embate entre o mainstream — ao qual, agora reconheço, até por dever de ofício, me vejo atrelado — e a assim chamada literatura de gênero, da qual, pelas mesmas razões, sempre andei ao largo. Hesitei muito em aceitar o convite ao debate, mas me vi tentado pelo desafio: ler a coletânea Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário (Tarja Editorial, 2010) e tecer um comentário.

Pra já, foi uma viagem. Bem entendido: primeira viagem. E ainda bem que não me deixei levar pelas promessas futuristas da capa ou do texto da contracapa: “O futuro não se encontra mais adiante. Ele está nessas páginas.” Agora, não é nada otimista, convenhamos — e, na pressa, alguém poderia julgá-lo pretensioso —, o parágrafo final do texto impresso nas orelhas do volume: “Podemos dizer sem risco de errar que esta, além de ser a primeira obra brasileira do gênero com essa proposta, será durante muitas décadas a mais representativa e também a mais ampla apresentação do cyberpunk no país.”

Anotem: foi a primeira vez que me deparei com essa denominação de gênero: cyberpunk.

Lida a coletânea, o acaso me levou a Rebelde entre os rebeldes, de Arnaldo Baptista, uma “viagem pelo universo da ficção científica”, narrada “em plena década de 1980” por Arnaldo Baptista (duas vezes ex-Mutantes), mas lançada pela Rocco apenas em 2008. Linguagem saborosamente juvenil, o livro mereceu primorosa edição por parte da Rocco. Na capa, uma pintura do autor. Um detalhe, ao longo da prazerosa leitura, me ofereceu outros olhos para a coletânea em debate. Em dado momento, num outro planeta, um pós-humano invade as instalações do inimigo e, ao clandestinamente fazer uso de um computador para desativar mecanismos de destruição, teme “ser pego com a boca na botija”. Passei a recapitular, então, a leitura que fizera dos contos da coletânea, da qual me ficara a impressão de que a nossa babel linguística e os problemas de revisão — e destes tampouco o mainstream está livre — estão fadados a resistir por décadas, séculos talvez, uma vez que “o futuro está nessas páginas”.

Eu não diria que essas histórias têm como preocupação maior o conteúdo, mesmo ante a evidência de que, na maioria delas, pouca atenção se percebe em relação à forma, talvez por desconhecimento, sei lá. Pergunta que não quer calar: mas vamos seguir separando, assim, forma e conteúdo? Saussure nos espera nesse futuro extraordinário?

Uma coisa é certa: humor não vai faltar. Ainda bem.

Registre-se que, em certos momentos, por tudo o que já foi dito, o humor é claramente involuntário, fazendo supor insuficiente consciência de linguagem por parte dos respectivos autores. Sem conhecer as regras e as convenções do gênero, tenho dificuldade em imaginar como se estabelece esse cânone, vamos chamá-lo assim, que os textos de apresentação fazem supor.

Impressão geral: em todo caso, fica-me a inesperada constatação de ser o cyberpunk um gênero muito bem-humorado, com o frequente recurso ao escracho e a uma curiosa mistura, hilária, de ambiente tecno-futurista e o nosso coloquial bem aqui e agora, com direito a gírias, palavrões e expressões regionais, ao que se supõe, altamente resistentes à passagem do tempo. E, não muito frequente, até mesmo alguma erudição literária mainstream.

No que se segue, uma amostragem.

Em Instinto materno, de Pedro Vieira, temos: “Se vocês pretendem fazer um clone de Jesus Cristo, devem pelo menos fazer um bagulho bem feito.” Se em Protagonistas e figurantes, Luiz Bras, entre outras referências explícitas, dá a um personagem o nome de Raduan, num aceno hilário ao leitor mainstream (entre nós, ninguém se chama Raduan impunemente!), em Memórias de um runner, um personagem atende pelo sobrenome do criador: Giraldi. Em É por isso que eu odeio política, a gíria atualíssima (“Fala sério!”) convive com um regionalismo da gota serena (“Maldito filho de uma égua.”).

No quesito humor, no entanto, Uma questão de estilo é imbatível, desde o título, que pode ser lido como auto-referente, a tiradas como “pernas de pau” para falar de uma seleção italiana inteira composta por jogadores robôs e à engenhosa recriação do jargão futebolístico, a vaticinar vida talvez eterna aos chavões surrados de que ele quase inteiramente se compõe. Com personagens que têm nomes de figurões manjados do nosso cenário futebolístico, o conto se apoia num achado impagável: “Que coisa, gente, um robô macumbeiro! Só no Brasil mesmo!” O massagista-robô, no caso, o XPV-17, como não poderia deixar de ser, ganhou um apelido carinhoso: Xispe. Posto que a Copa se dá no ano de 2070, um Dicionário de gírias e expressões do século 20 — claro, de autoria de “Aurélio Buarque de Holanda Neto” [sic], terá sido de grande serventia para o narrador.

Ao final, o jeitinho brasileiro — ao garantir para a seleção brasileira a grande conquista nos 100 anos da Copa do México — triunfa nesse curiosíssimo futebol tecno-futurista praticado, preponderantemente, por jogadores robôs. Detalhe: só a seleção canarinho é quase só de humanos. De robô, só o goleiro.

Para Pedro Vieira: “Os conglomerados tecnológicos privatizaram os orixás há séculos.”  Em seu Instinto materno é o candomblé da Bahia que se mostra plenamente ambientado no futuro. Ele se vale, inteligentemente, do jogo entre o download da informática e o baixar um santo das religiões afroamericanas.

O humor debochado comparece em Salvem os marsupiais, de Débora Vieira Ramires, muito propício ao descrever o ambiente sociolinguístico em que um humano se aproxima de uma prostituta-robô “com uma personalidade cibernética a zelar”, com direito a “andróides de quinta categoria” e baixarias do tipo “ — Espero que o trabalho que fizeram aí embaixo não tenha sido porco […].” Ou sutilezas como: “— É um crime uma máquina como você ter que se prostituir […].” Ou grosserias hilariamente autodepreciativas: “[…] e uma que era gostosa demais pra ser humana.” Em Longa vida: a República, de Richard Diegues, que fecha a coletânea, um achado engraçadíssimo: é “a bytes pequenos” que corre uma certa notícia.

Concluindo: o humor, em seus vários registros, tão presente e tão especial num gênero que eu até aqui desconhecia, é o que me parece salvar as histórias das promessas da capa e do texto de apresentação. É o humor que lhes imprime alguma consciência de linguagem, algum vislumbre da distância (e das impossibilidades) que os separam de desdobramentos plausíveis, no futuro que projetam, da linguagem que hoje praticamos. E é esse sábio recurso ao humor, penso, que pode aproximar essa literatura de gênero das melhores conquistas do mainstream no século passado, dos procedimentos que poderiam injetar nela consciência de linguagem, a permitir voos mais arriscados e mais amplos. Seja o já detectado, e felizmente não-canonizado amor/humor de Oswald, para falar do nosso modernismo, seja o humor tão peculiar de autores como Kafka, Joyce ou Brecht, entre outros, mais difícil de ser detectado, posto que o mainstream, tantas vezes, costuma impor rédeas curtas à fruição de seus eleitos. Arrisquemos: não será o humor um outro nome para a tal consciência de linguagem?

Resta saber se os autores do gênero estão mesmo interessados no Convite ao mainstream, que, no texto de Luiz Bras, também a eles se dirige. Se gostariam de chegar a um humor mais sutil, mais refinado, talvez mais adulto. Se estão mesmo interessados em virar biscoito fino, quando o risco é perder a massa que supostamente os consome.

Anúncios

Tags:


%d blogueiros gostam disto: