Minidebate – 6

Encerrando o debate, a opinião do jornalista e crítico literário Maurício Melo Júnior.

O futuro foi ontem

Era um mundo estranho, onde máquinas dominavam todas as formas de vida. Havia uma dependência profunda daquelas parafernálias imensas e funcionais. E podia-se ir à lua com relativa facilidade. Apesar de todo o progresso, o homem era triste, macambúzio, com poucas esperanças de felicidade. E nadava-se contra a corrente literária ao se trabalhar uma linguagem mais despojada. Mesmo assim os leitores sonhavam e se surpreendiam quando apresentados às possibilidades do futuro.

Julio Verne, no romance Paris no século XX, fala de uma máquina que envia documentos para qualquer parte do mundo, uma antecipação do fax, hoje tão obsoleto. Monteiro Lobato, em O presidente negro, fala de um sistema de comunicação, via rádio, que permite trocar mensagens de texto com rapidez e segurança, como fazemos com a internet.

Depois veio a robótica. O estranho mundo tornou-se claro, límpido, mas ainda assim depressivo, com as criaturas oprimindo os criadores. Outra vez a dependência e a falência do sentido humano. E as corporações, as grandes empresas a substituir governos e ignorar fronteiras geográficas, coisa que o velho e bom Jack London descrevia com tanta precisão e certeza.

Esse era o futuro que a ficção científica antecipava. E em Palmares, no interior de Pernambuco, em meados da década de 70, um músico local, Marcos de Olinda, cantava: “Vivo vindo de um mundo onde tudo é diferente, onde gente vira máquina porque máquina é mais que gente. Vale mais quem tem motores do que quem tem coração. Vivo vindo de um mundo onde não há ilusão.”

Nos últimos trinta anos o mundo e o desenvolvimento científico correram de maneira tão desembestada que a imaginação dos escritores está ficando cada vez mais lenta. Os contos da antologia Cyberpunk — Histórias de um futuro extraordinário, em princípio, apontam para isso. As recorrências são muitas: corporações, clones, “ciborgues e robôs, nanotecnologia e implantes, carros aéreos e espaçonaves, supercomputadores e inteligências artificiais, avatares e periféricos”, como diz o texto da contracapa. E ainda há o diálogo com a moda literária contemporânea onde a violência e as performances sexuais são também recorrentes. Aliás, a capa, de predominância escurecida, dá o primeiro alerta para o chavão.

Com criatividade e algum humor, os autores tentam fugir do caminho comum, mas nem sempre conseguem. Mesmo tentando escapar do senso comum, fazem um trabalho de experimentação que aponta soluções para o déjà-vu. Ronaldo Luiz Souza, sobre a terra exaurida, coloca o sentimento da paixão. Luiz Bras expõe o artificialismo doentio do ciberespaço. Gianpaolo Celli diz da movimentação de uma espiã num difícil e novo conceito geopolítico. Débora Vieira Ramires e seus ecoterroristas tentam sobreviver no cruel jogo dos novos poderosos. Ramon Giraldi nos dá a violência gratuita e excessiva dos filmes de Tarantino. Ubiratan Peleteiro opta pelos extremos da artificialidade. Maria Helena Bandeira conta um divertido jogo de futebol futurista onde a previsibilidade pode levar à surpresa. Pedro Vieira dá à tecnologia componentes de religião. Richard Diegues retoma velhas práticas políticas para dizer que nem tudo é novo no mundo novo.

Um mosaico, enfim, onde se juntam sentimentos antigos num ambiente futurista. Só que, repito, diante dos avanços irreversíveis da tecnologia, esse mosaico nos coloca quase em frente a uma literatura histórica. É como se o passado tivesse sido ontem. A esperança é que a experimentação abra caminho para a renovação. Talvez uma escrita com menos escuridão e violência e mais humor e humanismo seja o passo ideal para se olhar o porvir, para reviver a ficção científica.

Assim caminham as evoluções literárias, na busca perene das armas para vencer os desafios. Vivesse um momento fértil, onde a tecnologia vence a imaginação. Cyberpunk insinua, mas ainda não confirma, que este jogo pode mudar, mas seus autores trabalham nesse sentido, enfim.

Anúncios

Tags:


%d blogueiros gostam disto: