A única profissão honesta

De que fala a boa ficção, qual é o seu assunto predileto? Depois de assistir a essa apresentação do mágico Marco Tempest, eu concluí que os bons romances e os bons contos, igual à mágica, falam principalmente do engano, da decepção. No começo de uma história para jovens ou adultos, de qualquer história, algo terrível acontece. Os personagens são lançados no abismo do engano, da decepção, e a grande aventura, para os heróis literários e também para o leitor, será escapar desse abismo. Uns morrerão tentando. Outros conseguirão escapar, mas somente depois das piores provações, dos piores horrores. Aí está a beleza da boa ficção. O leitor acompanha essa aventura perplexo, comovido. Ele torce pelo herói, sente sua dor, seu cansaço, como se a aventura estivesse ocorrendo diante de seus olhos. Durante a leitura, a fantasia vira realidade. É o triunfo do ilusionismo ficcional. Nesse ponto, o escritor e o mágico são iguais. O mágico Karl Germain (está no vídeo) dizia que a mágica é a única profissão honesta. “A promessa de um mágico é enganar você, e é o que ele faz.” Mas… A única profissão honesta? De jeito nenhum. Podemos afirmar o mesmo da literatura, não?

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