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Os melhores contos brasileiros de ficção científica

28/12/2011

Se perguntarem a escritores, professores, críticos e jornalistas do mainstream quais são os melhores contos brasileiros já publicados, nessa seleção certamente aparecerão Missa do Galo de Machado de Assis, Negrinha de Monteiro Lobato, O homem que sabia javanês de Lima Barreto, O pirotécnico Zacarias de Murilo Rubião, Feliz aniversário de Clarice Lispector, A terceira margem do rio de Guimarães Rosa, A caçada de Lygia Fagundes Telles, Uma vela para Dario de Dalton Trevisan, Feliz ano-novo de Rubem Fonseca… Os especialistas do mainstream, mesmo lidando com uma produção tão vasta, quando convidados a votar sempre chegam muito perto da unanimidade.

Então me questionei se na ficção científica brasileira também existiria algo parecido com essa unanimidade. Um cânone já consolidado. Essa dúvida me motivou a perguntar aos escritores, professores, críticos e jornalistas apaixonados pelo gênero quais são os melhores contos brasileiros de FC já publicados.

A eleição foi bastante informal. Muitos eleitores usaram exclusivamente o critério afetivo na hora da escolha: votaram nos contos que marcaram fundo sua razão emocional. Outros preferiram o critério histórico e literário, elegendo as narrativas fundadoras, que estabeleceram as balizas do gênero no Brasil. Outros escolheram o contemporâneo, privilegiando a ficção curta produzida já no século 21. Três critérios bastante legítimos, em minha opinião.

Não havia uma lista prévia preparada por mim. Pedi a cada especialista que votasse em três contos, de tudo o que ele já conhecia. O primeiro conto votado recebeu três pontos, o segundo dois pontos e o terceiro um ponto. Amigos gentilmente me avisaram que a unanimidade dificilmente apareceria. Foi o que aconteceu. Mas devagar foi surgindo na retina um desenho mais ou menos fixo, querendo permanecer. Os dez contos e os dez autores mais votados representam, talvez, o princípio da consolidação de um cânone. O resultado da eleição foi:

Os dez contos mais votados:

A escuridão, de André Carneiro (25 pontos)
A ética da traição, de Gerson Lodi-Ribeiro (20 pontos)
Eu matei Paolo Rossi, de Octavio Aragão (13 pontos)
Mestre-de-armas, de Braulio Tavares (13 pontos)
O homem que hipnotizava, de André Carneiro (6 pontos)
Pendão da esperança, de Flávio Medeiros Jr. (6 pontos)
Água de Nagasáqui, de Domingos Carvalho da Silva (5 pontos)
Assassinando o tempo, de Cristina Lasaitis (5 pontos)
Cão de lata ao rabo, de Braulio Tavares (5 pontos)
Um braço na quarta dimensão, de Jerônymo Monteiro (5 pontos)

Os autores mais votados:

André Carneiro (42 pontos)
Braulio Tavares (33 pontos)
Gerson Lodi-Ribeiro (25 pontos)
Octavio Aragão (14 pontos)
Fábio Fernandes (12 pontos)
Jerônymo Monteiro (10 pontos)
Ivanir Calado (10 pontos)
Cristina Lasaitis (10 pontos)
Fausto Cunha (8 pontos)
Carlos Orsi Martinho (7 pontos)

Votaram: Ademir Pascale, Alfredo Suppia, Álvaro Domingues, Ana Cristina Rodrigues, Arnaldo Pinheiro Mont’Alvão Júnior, Ataíde Tartari, Bruno Cobbi, Carlos Angelo, Cesar Silva, Clinton Davisson, Cristina Lasaitis, Daniel Borba, Edgar Indalecio Smaniotto, Edgard Refinetti, Fábio Fernandes, Fausto Fawcett, Fernando Moretti, Flávio Medeiros, Francisco Skorupa, Gerson Lodi-Ribeiro, Gian Danton, Guilherme Kroll, Hugo Vera, Ivo Heinz, Jorge Luiz Calife, José Carlos Neves, Lucio Manfredi, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marcello Simão Branco, Marco Bourguignon, Marcos Vilela, Mary Elizabeth Ginway, Matias Perazoli, Miguel Carqueija, Mustafá Ali Kanso, Octavio Aragão, Rachel Haywood Ferreira, Ramiro Giroldo, Ramon Bacelar, Richard Diegues, Roberto de Sousa Causo, Rodolfo Londero, Rynaldo Papoy, Saint-Clair Stockler, Silvio Alexandre, Simone Saueressig, Sylvio Gonçalves e Tibor Moricz.

Déjà-vu

18/12/2011

A caprichada Coleção Contos Fantásticos, coordenada por Braulio Tavares para a editora Casa da Palavra, chega ao quinto e glorioso volume. Depois de Páginas de sombra, Contos fantásticos no labirinto de Borges, Freud e O estranho e Contos obscuros de Edgar Allan Poe, é a vez de Páginas do futuro tocaiar o leitor tupiniquim com seu canto de sereia tecnológica e visionária.

A nova antologia reflete em pequena escala a grande diversidade inventiva desse gênero de mil faces que é a ficção científica. São doze narrativas diferentes na linguagem e na temática: doze visões particulares do que o futuro nos reserva, antecedidas por uma apresentação concisa e eficiente do gênero e dos contos.

Eu participo com Déjà-vu, escrito originalmente para a coletânea Contos imediatos, organizada por Roberto de Sousa Causo, e depois incluído em meu artefato de estreia, Paraíso líquido. A companhia não podia ser melhor: Ademir Assunção, André Carneiro, Ataíde Tartari, Fábio Fernandes, Fausto Fawcett, Finisia Fideli… Cercando os autores e suas páginas do futuro extraordinário há oito divertidas colagens de Romero Cavalcanti, em que máquinas, pessoas, edifícios, pequenas e grandes criaturas dançam o rondó do delírio.

Abdução?

09/12/2011

Esse é o título de meu conto publicado na edição O (ó) da revista Arte e Letra: Estórias, uma das melhores em circulação no Brasil. A revista chega de Curitiba, capital pródiga em publicações literárias de qualidade, de onde vêm também os ótimos Rascunho e Cândido.

Pra mim, a Arte e Letra: Estórias é bem mais do que uma revista trimestral de arte e literatura. Editada pelo Thiago Tizzot, ela é uma confraria sofisticada, que reúne ilustrações, artigos e ficções muito acima da média, de brasileiros e estrangeiros.

Gosto principalmente da decisão editorial de garimpar, na obra de autores estrangeiros consagrados, aqueles textos ainda inéditos ou há muito tempo fora de catálogo. Pra você ter uma ideia, nas edições anteriores (letras M e N) foram retraduzidos com o maior cuidado dois clássicos imperdíveis: O homem da areia, de E. T. A. Hoffman, e O cair da noite, de Isaac Asimov.

Abdução? é a história meio delirante, meio fantástica, meio apocalíptica, de um cinqüentão e uma menina num mundo sem mais ninguém, em que coisas estranhas acontecem o tempo todo, mas tudo pode não passar de loucura…