Daniel Lopes: um e-mail

30.11.2011

Fala, maestro. Estou terminando a leitura do teu Sonho, sombras e super-heróis. Demorei um pouco porque fim de ano é uma correria danada pra mim. Tenho doze salas com quarenta e cinco alunos cada, imagina como não está sendo agora pra corrigir trabalhos e provas, fechar as médias, fechar o quinto conceito, que é o que decide quem vai e quem fica, enfim uma loucura.

Também tenho evitado ler às pressas para não perder as minúcias. A grande questão do livro, a meu ver, é uma questão filosófica: é preferível se aprofundar na existência e encarar a verdade e o desespero, ou é melhor ficar flutuando confortavelmente na superfície, perdido em drogas ou gases da felicidade? Paralelamente ao teu livro, maestro, estou lendo O desespero humano, do Kierkegaard, para quem só o desespero nos dá a possibilidade de uma existência autêntica.

Todos as pessoas, mesmo as mais fúteis e as mais blindadas, estão cercadas pelo desespero, pois, por mais que neguemos, ele cresce entre as fendas, provoca rachaduras em todas as armaduras. Cioran pergunta num de seus aforismos: “Todos os homens são miseráveis, mas quantos o sabem?”

Mais que um romance infanto-juvenil, é um romance filosófico esse teu Sonho, sombras e super-heróis. Nele é colocada a mesma questão que já havia sido posta por Platão no mito da caverna, e mais recentemente no universo pop pelo filme Matrix, no momento em que Neo tem de escolher entre tomar a pílula azul e continuar no sonho, ou tomar a pílula vermelha e ser arremessado pra fora da realidade virtual, onde tudo é mais dolorido, mais cinza, mais desesperador.

Não há escapatória. Kierkegaard diz que “sofrer um mal destes (o desespero) coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue muito mais que o caminhar de pé, pois é sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime”. Se quisermos viver uma experiência plena da nossa espécie, temos de encarar o diabo de frente.

O bom é que em meio a todas essas questões profundas, você coloca muita ação, muita fantasia, reviravoltas e senso de humor, não fica chato, nem pode ser, uma vez que o livro busca o leitor jovem. É imprescindível o foco no enredo, essa categoria tão menosprezada pelos “grandes literatos”. Acertou mais uma vez, chefe. Só posso dizer que formaríamos adultos mas inteligentes, sensíveis e agradáveis, se teu livro fosse mais amplamente difundido, estudado e lido pelos adolescentes de nosso país.

Abração,

Daniel

Amigo, você sabe, não fossem as grandes distâncias e o trânsito infernal desta megalomaníaca megalópole, que sempre inviabilizam até as melhores conversas presenciais, nossa interlocução seria muito mais constante. Já começo a acreditar que São Paulo e seus engarrafamentos-monstro são o melhor estímulo para a difusão do skype entre os escritores. Em breve, conversar sobre Schopenhauer, Kierkegaard, Matrix e outros temas relacionados só será possível nos cafés virtuais.

Luiz

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