Traições e falsificações

O novo best-seller de Umberto Eco, publicado trinta anos depois de O nome da rosa, emula os folhetins de Alexandre Dumas e Eugène Sue.

Feito de páginas de diários íntimos, O cemitério de Praga (tradução de Joana Angélica d’Avila Melo, editora Record) pede leitores com senso de humor, de preferência com senso de humor negro. Nessa narrativa suntuosa e detalhista como um espetáculo do Cirque du Soleil, o grotesco está em toda parte.

A trama se passa principalmente na segunda metade do século 19, entre Turim, Palermo e Paris, e é cheia de conspirações envolvendo garibaldinos, bonapartistas, maçons e judeus.

O protagonista é um falsário italiano, depois francês, chamado Simone Simonini. “O único personagem inventado”, segundo o autor. Todos os outros, saídos dos livros de História, “existiram realmente, e fizeram e disseram o que fazem e dizem no romance”.

Simonini é um glutão calhorda, mas divertido e sedutor, que odeia os judeus, as mulheres, os maçons, os jesuítas, os comunistas, os próprios pais e a vida em geral. Para complicar mais as coisas, ele parece sofrer de dupla personalidade.

O eixo principal da trama é o antissemitismo e as falsificações históricas, entre elas os documentos do Caso Dreyfus e Os protocolos dos sábios de Sião. Cada nova trapaça de Simonini e seus comparsas revela um pouco dos artifícios mais usados por estadistas e propagandistas famintos de poder. De ontem e de hoje.

Gravuras retiradas de publicações da época do enredo povoam o romance, reforçando o simulacro de folhetim. São ilustrações em traço ordinário, às vezes caricatural, acompanhadas de vinhetas explicativas, obedecendo ao (mau) gosto popular.

A ficção de Umberto Eco, teórico importante da moderna cultura de massa, sempre esteve mais do lado dos integrados (literatura de entretenimento) do que dos apocalípticos (alta literatura).

Em Apocalípticos e integrados (1964), Eco já defendia a “relação dialética, ativa e consciente, com os condicionamentos da industrial cultural”. No tribunal da alta cultura, seus divertimentos eruditos jamais aceitaram sentar no banco dos réus.

No ranking dos romances de Umberto Eco, o melhor ainda é O nome da rosa, imbatível. Porém O cemitério de Praga certamente divide o segundo lugar com o não menos interessante O pêndulo de Foucault, de 1988.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de outubro de 2011 ]

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