Caosvisão policromática

Ele foi descrito por Will Self como “um polímata criativo com uma integrada visão político-filosófica” e como “um grande escritor, talvez o maior vivendo hoje neste arquipélago”, e por si mesmo como “um gordo, míope, careca e cada vez mais velho andarilho de Glasgow”. Escritor e artista gráfico pouco conhecido entre nós, o escocês Alasdair Gray é o autor de um dos romances mais interessantes da década de 80, justamente seu livro de estreia. Publicado no Brasil em 2001, a exatos vinte anos de seu lançamento, Lanark: uma vida em quatro livros (tradução de Renato Aguiar, editora Record) pertence à família das narrativas de grande alcance, totais, que entrelaçam harmoniosamente as mais variadas disciplinas: artes plásticas, filosofia, literatura, história, matemática, física, política, mitologia, religião, psicanálise etc.

Não podia ser diferente: Lanark é um épico pós-moderno, vale também dizer, um antiépico, se o leitor quiser compará-lo com os clássicos do gênero, como A divina comédia, de Dante, ou Guerra e paz, de Tolstoi. Enquanto o épico clássico, em verso ou em prosa, nos oferece uma cosmovisão positiva, a visão abrangente de um cosmo sociopolítico, o épico pós-moderno nos oferece o contrário disso: uma cosmovisão negativa, a visão abrangente de um caos sociopolítico. Ou seja, uma antiépica, a caosvisão de um universo insólito administrado pelo nonsense.

Lanark está dividido, como promete o subtítulo, em quatro livros e, de quebra, um prólogo, um interlúdio e um epílogo. Porém, recusando a ordenação convencional, o romance não começa no Prólogo, tampouco no Livro um. Ele começa no Livro três. “Quero que Lanark seja lido numa ordem mas finalmente pensado em outra”, afirma o autor ficcional (um dos personagens de Gray), perto do final do romance. Sendo assim, a seqüência determinada pelo autor empírico (Gray) é: Livro três, Prólogo, Livro um, Interlúdio, Livro dois, Livro quatro e Epílogo. Porém ainda não é tudo. Uma nota na página 588 confirma algo que o leitor já desconfiava: o Epílogo desempenha ironicamente o papel de Prólogo e o Prólogo é na verdade uma ficção autônoma, um conto destacado do corpo maior do romance.

Alasdair Gray realiza essas abruptas torções narrativas sem jamais confundir o leitor. Melhor dizendo, sem jamais confundir o leitor acostumado a longos mergulhos no oceano da ficção científica, da literatura fantástica e do realismo mágico. Ter convivido durante anos com a obra de Kafka, Borges, Ray Bradbury, Campos de Carvalho, Beckett, Ionesco, Philip K. Dick, Cortázar e García Márquez me preparou plenamente para o universo bizarro de Alasdair Gray. Universo que dialoga direta ou indiretamente com o dos autores citados, trocando matéria e energia, porém sem jamais pôr em risco sua própria originalidade.

A aventura começa in medias res, como foi dito. Estamos numa cidade pobre, fria e sombria chamada Unthank, que nunca recebe plenamente a luz do sol. Lanark (nome que me lembra l’anarchie, em francês, do grego anarkhia) é um outsider sensível e íntegro, com ambições literárias. Ele está na cidade há pouco tempo, mas não sabe como chegou aí. No Café Elite ele conhece um grupo de jovens desocupados liderados por Sludden e se envolve amorosamente com uma garota chamada Rima. Porém Lanark é acometido por uma doença grotesca, que transforma as pessoas em dragão. Em suas perambulações, ele chega ao cemitério da cidade e encontra uma grande boca no cimo de um morro. A boca lhe diz: “Eu sou a saída.” Lanark mergulha nela e desaparece de Unthank. Depois de atravessar um canal apertado e úmido, semelhante ao canal vaginal, ele renasce em outro lugar do universo criado por Gray: no instituto.

Distante da pobreza proletária de Unthank, o instituto é uma organização muito bem aparelhada, freqüentada por cientistas e políticos, muitas vezes por cientistas-políticos, gente pertencente aos círculos mais altos do poder. Lanark chega em frangalhos, chega envelhecido quase dez anos, e é cuidado pelos médicos do instituto. Mas logo entra em conflito com um dos figurões locais, professor Ozenfant. A desavença acontece quando Lanark reencontra Rima, agora transformada em dragão, e a salva da morte, devolvendo-lhe a forma humana. Os dois começam a namorar. Desejoso de conhecer seu passado, Lanark é atendido por um oráculo: uma entidade incorpórea, que é pura voz. Depois de contar a própria história (o Prólogo), o oráculo conta a história de Lanark, que anteriormente se chamava Duncan Thaw.

Mudam o nome, o cenário e o enredo, mas o protagonista continua exatamente o mesmo: Duncan é um outsider sensível e íntegro, de origem modesta, massacrado pela asma, pelo desejo sexual mal sublimado e por forças sociais e políticas avassaladoras. Sua paixão também é outra: o desenho e a pintura. Estamos agora em Glasgow. O Livro um e o Livro dois são um romance de natureza realista, psicológica, confessional, dentro do romance maior, de natureza fantástica. Duncan é o alter ego de Gray, e sua história de angústia e queda, carregada de reflexões estéticas e metafísicas, tem muito da biografia do próprio autor. Por que Gray resolveu juntar na mesma obra dois romances aparentemente desconectados? Ele mesmo brinca sobre isso, numa nota de rodapé, dizendo que “um livro pesado chama mais a atenção do que dois leves”. Gracejo à parte, é óbvio que a história de Lanark e a de Duncan não estão desconectadas. Os dois romances são diferentes apenas na superfície. No Livro um e no Livro dois o mundo objetivo, a Glasgow real, é manchado o tempo todo pelo mundo subjetivo, pela fantasia delirante de Duncan. As duas cidades, Glasgow e Unthank, não são tão diferentes assim.

Finalizada a história de Duncan, contada pelo oráculo, a narrativa volta a Lanark, Rima e o instituto. No Livro quatro os acontecimentos se precipitam, as situações incomuns vão se acumulando cada vez mais rápido. Enojado com os burocratas e a politicagem, Lanark pede autorização pra abandonar o instituto. Rima decide ir com ele, mas a contragosto. Num dos melhores capítulos do romance, intitulado A zona, só a muito custo o casal consegue atravessar a pé uma zona intercalendárica, onde o tempo e o espaço funcionam de modo imprevisto. Vejo nesse capítulo uma excelente paródia do célebre romance dos irmãos Strugatski: Stalker. O desejo de Lanark era ir a uma cidade onde houvesse sol, mas o pessoal do instituto encaminhou-os primeiro a Unthank, onde acabam chegando mais uma vez em frangalhos.

Lanark e Rima têm um filho. Encontram os antigos amigos, agora bem mais velhos, Sludden entre eles. Também encontram Unthank à beira de uma catástrofe ecológica causada pela cobiça de certos empresários e governantes. A fim de salvar a cidade da devastação iminente, Lanark aceita representar Unthank numa importante assembléia dos Estados do conselho. Nada dá certo, tudo fracassa: amor, política, existência. É nesse ponto que o herói do romance — um herói trágico — leva um papo bastante franco e esclarecedor com o autor ficcional. Lanark termina seus dias cercado pela guerra fratricida. Coerente com a vida pouco convencional que levou, sua morte não é nada convencional. É a faísca que faltava pra incendiar o leitor, provocando a inevitável catarse.

Esse foi apenas o resumo do enredo, da grande estrutura narrativa. Eu ainda poderia dizer muita coisa sobre os outros aspectos literários, mas as resenhas muito longas costumam ser chatas. Nada foi dito — nem será — sobre o estilo de Alasdair Gray, a doçura de certas descrições, o lirismo demoníaco de outras, os diálogos pontiagudos, o humor negro, a ironia, os intertextos. É verdade, os intertextos… Se algumas passagens do romance parecem familiares, não é preciso forçar a memória nem recorrer ao google. O próprio Gray tratou de fornecer um Índice de plágios, que podem ser de três tipos: plágios em bloco (bloplag), embutidos (emplag) ou difusos (diplag). O romance termina no capítulo quarenta e quatro, mas há notas referentes aos capítulos seguintes, do quarenta e cinco ao cinqüenta, inexistentes. Essas notas sugerem, apenas sugerem, um conflito cósmico contínuo, sem conclusão visível.

Pra finalizar a resenha, direi apenas que está esfericamente enganado quem pensa que esse escocês é talentoso somente na criação de grandes estruturas insólitas repletas de simbolismo esotérico. Essa não é toda a verdade. Gray é especialmente hábil em perceber no cotidiano os detalhes luminosos que a maioria das pessoas não percebe. Os fatos mais corriqueiros não resistem ao seu olhar. Em tudo o que as pessoas consideram sem importância, sua argúcia detecta com extrema facilidade os lampejos mais interessantes.

Se fosse dar início a uma série de resenhas intitulada Livros de que (aparentemente) quase ninguém gostou, a primeira resenha seria esta. Apesar de bastante conhecido e amado no mundo anglófono, Lanark: uma vida em quatro livros parece não ter despertado muito interesse nos brasileiros. Procurando por aí, não encontrei nenhuma resenha da edição tupiniquim, nenhuma citação em artigos jornalísticos ou acadêmicos. Tampouco em debates ou colóquios ouvi alguém citar Lanark com o entusiasmo que o romance merece. Se não tivesse ganhado um exemplar de presente de Roberto de Sousa Causo, que conheceu pessoalmente Alasdair Gray numa convenção de ficção científica — aproveito pra deixar meu mais sincero agradecimento —, suspeito que eu continuaria ignorando até hoje a existência desse romance fabuloso.

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