Épico entrópico

Personagens ficcionais interagindo com pessoas de carne e osso. Uma viagem ao interior da Terra Oca, depois ao reino mítico de Shambhala. Uma ordem secreta intitulada Pacto dos Adoradores do Tetractis Autêntico de Chunxton. Uma fragata subdesertina, capaz de submergir nas areias de um deserto. Emboscadas no Velho Oeste. Universos alternativos. Viagens no tempo. Fantasmas, telepatia, duplos.

Estamos falando exatamente do quê? De uma ficção de Edgar Allan Poe, talvez? Ou de E.T.A. Hoffmann? De Francis Stevens, quem sabe?

Errado. Thomas Pynchon é a melhor resposta.

Lançado originalmente em 2006, Contra o dia (tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das Letras) não é apenas um romance extravagante de um autor excêntrico, é também uma maratona. Mas uma maratona que não aceita espectadores passivos, sentados comendo pipoca. O leitor precisa correr junto, engajar-se num exercício de close reading.

São mais de cinqüenta personagens envolvidos em dezenas de tramas e subtramas, em dezenas de cenários diferentes. Contra o dia é a versão romanesca do que seria uma pintura de Hieronymus Bosch no estilo de Onde está Wally?. Para não se perder, o leitor precisa queimar calorias, enchendo páginas e páginas de um bloquinho de anotações.

Além disso, ainda não há uma versão no formato eletrônico. O calhamaço pesa um quilo e meio — com o tempo, parecerão quinze — e é difícil de manusear. Os músculos dos olhos também são exigidos pelas grandes massas de texto em corpo dez.

Resumir em meia lauda as 1.088 páginas do romance é impossível. Não tropeçar no emaranhado de episódios também. Até o crítico do Sunday Times e o do New York Times confessaram ter perdido o fio da meada durante a leitura.

A narrativa tem início durante a Exposição Internacional de Chicago, em 1893, e termina um pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial. A era da ciência e da tecnologia avança a todo vapor. Inventores como Thomas Edson e Nikola Tesla, mestres da eletricidade, são os novos mágicos da era industrial.

Dos muitos núcleos de personagens, o mais interessante é o dos Amigos do Acaso. Esse grupo de rapazes protagoniza, a bordo do dirigível Inconveniência, uma série de livros de aventuras. Uma de suas várias atribuições é impedir que gente do futuro invada o tempo presente da narrativa, fugindo do apocalipse. Porém, apesar de sua constituição literária, os Amigos do Acaso estão sempre atravessando a ponte que liga os dois mundos e se relacionando com as pessoas reais.

Outros três núcleos importantes são o da família Traverse, o da família Vibe e o do espião bissexual Cyprian Latewood. Os filhos do anarquista Webb Traverse, assassinado a mando do industrial Scarsdale Vibe, passam o romance tentando vingar a morte do pai. Enquanto isso Latewood segue com suas travessuras secretas, frequentemente sexuais. Cada núcleo recebeu um tratamento específico: dos velhos romances de aventura ou de ficção científica (Amigos do Acaso), de faroeste (Traverse e Vibe) e de espionagem (Latewood).

Pynchon trabalha sempre por acumulação, empilhando protagonistas e peripécias, descrições e diálogos sobre tudo: matemática, física, filosofia, música, engenharia, história, mitologia, ocultismo etc. Esse esforço universalista mira a concretização de uma épica em prosa, uma Odisséia do século 21.

A imprensa e os fãs não pouparam espaço. Contra o dia foi exaustivamente resenhado, comentado e anotado nos jornais e nos blogues. De tudo o que se escreveu a favor ou contra, é bom ficar atento ao que disse o escritor Michael Moorcock: “Contra o dia é um belo exemplo de casamento bem-sucedido entre o popular e o intelectual, entre a ficção e a ciência.”

Thomas Pynchon fundiu com sucesso duas tradições hoje absolutamente isoladas: a literatura de entretenimento e a literatura de reflexão, correndo o risco de desagradar a gregos e baianos.

Diferente do pastiche modernista, sempre ácido e cínico, o pastiche pós-moderno é uma declaração de amor. Pynchon abraça com carinho o faroeste, a ficção científica, o horror gótico e os velhos romances de aventura e de espionagem. O alvo de sua ironia peculiar não são os gêneros menoresmenores apenas na cabeça dos scholars —, é a sociedade pós-Segunda Guerra Mundial, que perdeu totalmente a inocência, a fantasia e a capacidade de aventurar-se.

Romance pós-moderno sim, narrativo sim, mas estruturalmente entrópico, por isso avesso à facilitação audiovisual. Impossível de ser adaptado para o cinema, a tevê, o teatro ou qualquer outra forma de expressão artística. Não dá para resumir o caos. Contra o dia pertence à literatura que só se realiza plenamente na forma original, na sutileza literária.

Recluso convicto e invicto, Pynchon evita os jornalistas e as aparições públicas. Detesta ser fotografado e dar entrevistas. Prefere se revelar ao mundo por meio de uma infinidade de personagens-facetas. Sejam os tipos da contracultura norte-americana dos anos 1960, presentes nos romances O leilão do lote 49 (1966) e Vineland (1990). Sejam os tipos cosmopolitas dos romances O arco-íris da gravidade (1973) e Mason & Dixon (1997), parentes muito próximos dos heróis de Contra o dia.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de abril de 2012 ]

Anúncios

Tags:


%d blogueiros gostam disto: