Archive for junho \26\UTC 2012

Resenha de um conto

26/06/2012

Chegou ao fim o laboratório de ficção científica que eu coordenava no Sesc Belenzinho. Já estou com saudade. Dezenas de contos curtos foram produzidos pelos meus queridos alquimistas da palavra, que exercitaram os mais diferentes subgêneros: cyberpunk, distopia, invasão alienígena, new weird, pós-apocalipse, steampunk, viagem no tempo etc. No final do laboratório, um dos participantes presenteou-me com o que ele mesmo chamou de “tentativa de crítica de um conto de Luiz Bras, que será apresentada para outro grupo”, sendo o outro grupo um grupo formado durante uma oficina de crítica literária. Obrigado pela resenha, Sebastião.

Sob a nuvem de cães-cavalos

Sebastião Paz

O conto cyberpunk Nuvem de cães-cavalos é parte do livro Paraíso líquido, de Luiz Bras.

Nesse conto é narrado o encontro, em público, entre um homem e uma mulher. Mulher-menina de pele meio azulada, cabelo não muito curto, muito negro e muito liso, olhos tristes.

O personagem-narrador não é onisciente e nos faz lembrar do angustiado Bentinho, do Dom Casmurro, de Machado de Assis.

No conto, o fantástico e o psicológico se juntam à ficção científica, e também ao poético: “As meias listradas — amarelo e lilás balançando, se misturando — ressaltam outros sentimentos menos juvenis.” Ou: “Tempo, vida. Vida, tempo. Não conseguia largar essas palavras. Até que uma se impôs. Tempo, tempo, tempo.”

Às vezes, o científico se mescla a esse psicológico-poético-fantástico: “Prazer, medo, excitação: tudo. Neuroquímica. O córtex pré-frontal e o hipotálamo em brasa.”

As seguintes impressões do protagonista em relação à mulher da trama, “Seu olhar maravilhoso me intimidava. Havia intensa inteligência nele e eu sempre tive medo — pavor — de mulheres bonitas e inteligentes”, podem até justificar a solidão de certas celebridades, vistas como que em pedestais, quando na verdade são meros seres humanos carentes. Ou haveria um complexo de inferioridade no personagem-narrador?

Também se pode dizer que existe no conto a questão do duplo. Seriam Bruno e Samuel a mesma pessoa? Seriam nomes de pessoas diferentes? A incerteza é uma tônica nessa narrativa: “Será possível que o louco sou eu?” Ou: “Nádia era um desses pacientes?”

Junte-se a isso o embate entre os dois personagens principais, na tentativa de convencimento ou autoconvencimento. Quando um pretende tentar abrir os olhos do outro para a realidade, recebe a seguinte resposta: “Não seja ridículo. A realidade? Conheço bem a realidade. Quem há muito tempo está cego pra ela é você.”

Segundo Cleusa Rios Pinheiro Passos, titular de teoria literária e literatura comparada da USP, o conto de ficção científica pode também ser fantástico. Tudo depende do tratamento. Para tal mestra, o conto fantástico tem o poder de explodir para além, transbordar dos limites das poucas páginas.

Isso nos leva a dizer que outras abordagens para além deste trabalho dedicado a um dos muitos contos de Luiz Bras são possíveis e até bem-vindas.

Anúncios

Pedras e flores

20/06/2012

Texto escrito pelo organizador, Felipe Pena, para as orelhas do livro:

As coletâneas costumam ser pretensiosas e elitistas. A revista Granta, por exemplo, teve a pretensão de apresentar os vinte melhores autores brasileiros com menos de quarenta anos. Mas que critérios definem os melhores? E quem define esses critérios? Figurinhas carimbadas pela mídia especializada e referendadas pelas panelas literárias levam vantagem nessa escolha?

Talvez a atitude mais honesta seja assumir que a escolha é pessoal, como fez o crítico Nelson de Oliveira, organizador da antologia Geração Zero Zero, que, ainda assim, manteve o caminho da pretensão, ao tentar reunir os melhores autores de uma década.

Esses autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual, baseando suas narrativas em jogos de linguagem que têm como objetivo demonstrar uma suposta genialidade. É estranho que boa parte deles manifeste preocupações sociais e tendências políticas progressistas em suas entrevistas, enquanto suas práticas profissionais os levam a uma torre de marfim representada por feiras e festivais que os mitificam como ícones da literatura para aqueles que também se enxergam como elite.

Felizmente, há uma massa de leitores no país que ignora essa tentativa de forjar novos cânones para a literatura. É um público que se preocupa apenas com o prazer da leitura, com a relação afetiva com o livro, com as reflexões que uma história bem contada pode provocar e com a socialização dessas histórias e dessas reflexões. Sim, a socialização, pois aquele que tem prazer na leitura sempre recomenda o livro ao amigo mais próximo.

É para esse leitor que a coletânea Geração Subzero foi organizada. Aqui estão vinte autores congelados pela crítica especializada, mas adorados pelo público. Este livro não é uma antologia. Os contos e autores não têm a pretensão de figurar entre os melhores de sua geração ou estilo. Tampouco foram escolhidos exclusivamente pelo organizador da obra, que apenas observou os nomes comentados em redes sociais, blogs, salas de aula e grupos de discussão cujo objeto era simplesmente o prazer da leitura, além de ouvir os signatários do Manifesto Silvestre, um documento que defende o entretenimento como conceito de valor na literatura.

Todos os autores aqui reunidos cederam seus direitos autorais para a ONG “Ler é dez, leia favela”, que forma leitores no Complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. Como Silvestre da Silva, personagem de Camilo Castelo Branco no livro Coração, cabeça e estômago, os escritores da Geração Subzero colocam a cara na vidraça e esperam pelas pedras e flores. Mais pedras do que flores. Os trocadilhos vão causar indigestão e os intelectualismos, cefaleia. Mas o coração não será atingido.

Ray Bradbury (1920-2012)

13/06/2012

O primeiro livro que li, de Ray Bradbury, não foi seu romance mais célebre, Fahrenheit 451, publicado em 1953, de que gosto bastante, apesar de não ser meu livro predileto. Sempre que se fala em Fahrenheit 451 é lembrada a adaptação de François Truffaut para o cinema, de 1966. Mas não recomendo a ninguém que assista ao longa-metragem, nem antes nem depois de ler o livro. O filme envelheceu muito mal — a maioria dos filmes envelhece muito mal, é de sua natureza a cristalização no tempo —, certas cenas tornaram-se constrangedoras e até risíveis. Salvam-se apenas a música de Bernard Herrmann e a cena final, em que aparecem os homens-livro declamando na floresta as obras-primas queimadas, cena que não está no romance.

O primeiro livro que li, de Ray Bradbury, foi a coletânea de contos F de foguete (1962). Devorei em uma tarde e uma noite, e na manhã do dia seguinte, afortunadamente um sábado, corri à papelaria — poucas cidades do interior tinham livraria, na década de 80 — pra comprar o outro, E de espaço (1966), que também li em seis ou sete horas. De imediato, o que mais me encantou nos contos de Bradbury foi seu talento para o enredo, a trama, o entrecho, a urdidura. Sem saber, eu estava começando a tomar contato com a tradição dos grandes contadores de histórias. Bradbury foi apenas o primeiro de muitos, o mestre que convidou os outros. Desconfio que até mesmo Borges, seu vizinho de prateleira em minha estante, não teria entrado em casa se não fosse por ele.

Se me pedissem uma lista com os cem melhores contos que já li na vida, mais de um terço seriam de Ray Bradbury, que demonstrou como ninguém que, no frigir dos ovos, ficção é personagem e enredo. A linguagem é o que sustenta tudo, é o que dá forma ao universo narrativo, mas sem um personagem marcante e um enredo surpreendente não há epopéia, drama, romance, novela ou conto que sobreviva. Essa é a razão de figuras como Ulisses, Dante, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Raskolnikov, madame Bovary, Moby Dick, Capitu, Riobaldo e Diadorim continuarem até hoje em nosso imaginário. Lá estava eu, suportando estoicamente o tédio tão comum nas cidades do interior paulista, quando Ray Bradbury me apresentou um bom número de pessoas incomuns vivendo situações incomuns e, por isso, inesquecíveis.

Ray Bradbury passou a vida toda convencendo a si mesmo e a seus leitores de que o mundo pode ser muito mais fascinante do que realmente é. Porém fascinante do modo mais simples, sem recorrer à complexidade discursiva de um Faulkner ou de um Nabokov. Seus contos são janelas suaves e descomplicadas pra todo tipo de país das maravilhas, do mais bizarro ao mais sublime. Que tal viver num mundo que acelera o metabolismo das pessoas, comprimindo setenta anos em sete dias (Gelo e fogo)? Ou num mundo senciente, ávido por agradar seus visitantes (Aqui há tigres)? Ou num mundo fustigado por uma chuva perpétua e enlouquecedora (A longa chuva)? Que tal viajar até o sol apenas pra retirar dele um pedacinho fumegante (Os pomos dourados do sol)? Ou participar de um safári pré-histórico e acidentalmente mudar nosso futuro (Um som de trovão)? Essas situações pertencem a F de foguete.

O livro seguinte, E de espaço, não fica atrás. Sua coleção de situações espantosas e inquietantes é igualmente muito boa. Que tal conhecer um homem cujo corpo está sofrendo uma admirável metamorfose (Crisálida)? Ou um menino que está constantemente trocando de família adotiva, porque simplesmente não consegue envelhecer (Saudações e adeus)? Ou as crianças que estão brincando de invasão, sem saber que estão realmente colaborando com uma grande invasão (Hora zero)? Que tal tentar manter a calma quando uma inofensiva plantação de cogumelos começar a parecer tudo menos inofensiva (Venha ao meu porão)? Ou quando ninguém quiser acreditar em você quando disser que está ouvindo o pedido de socorro de uma mulher enterrada viva (A mulher gritando)?

O deflorador de sonhos

06/06/2012

Ele chegou a Paris sem falar francês, sem conhecer ninguém, sem um tostão no bolso. A primeira coisa que fez foi ligar para André Breton, que atendeu com uma voz pastosa: “Oui?” “¿Habla usted español?” “Si.” “¿Es André Breton?” “Si. ¿Quién es usted?” “Soy Alejandro Jodorowsky y vengo de Chile a salvar al surrealismo.” Mas isso foi depois, muito depois. Antes houve a dor profunda, a primeira dor.

Avó sem sorrisos, pai despótico, mãe neurótica, irmã indiferente. “Todos os nossos problemas sempre começam em nossa árvore genealógica”, escreveria mais tarde. Sua infância não foi fácil, mas ele conseguiu fazer da aflição doméstica uma sólida plataforma para a maturidade volátil e sobrenatural. Desde pequeno ele fala com espíritos, que respondem: “Tudo o que você será, já está sendo. O que você saberá, já sabe. O que você busca, está a sua procura, pois está em você.” Desde muito cedo ele sabe, como o fantasma que escreveu o Eclesiastes, que quem acumula conhecimento acumula dor.

Aos oitenta e um anos, o chileno Alejandro Jodorowsky ainda acredita que a maior conquista do gênero humano não é a faculdade de racionalizar, mas a de fantasiar. “A história de minha vida é um esforço constante para expandir a imaginação e ampliar seus limites”, costuma dizer. Desse esforço reafirmado em cada trabalho participam tradições sagradas e profanas: a alquimia, a teosofia, o simbolismo, o surrealismo e tantas outras.

Difícil é enquadrar o sujeito, etiquetá-lo. Ficcionista, dramaturgo, roteirista, cineasta, vidente, curandeiro, psicoterapeuta, santo: Jodorowsky é simplesmente inclassificável. Não há como domesticar sua pulsão criativa. Na infância, ainda vivendo na província, ele já havia percebido que era um cidadão do mundo. A percepção veio como um raio, ao subir no palco mambembe de um mágico visitante. “Ali, senti que tinha encontrado o meu lugar. Entendi que eu era um cidadão do mundo dos milagres.”

Os fãs de histórias em quadrinhos o reverenciam pelas parcerias bem-sucedidas com Moebius, Manara e Juan Gimenez. Os estudiosos do teatro certamente se lembram dos eventos pânicos (em homenagem ao deus Pã), exercícios iconoclastas de puro anti-teatro. Fernando Arrabal e Roland Topor também faziam parte do grupo. Já os cinéfilos cultuam seus filmes escandalosos, entre os quais A toupeira e A montanha sagrada, este produzido por John Lennon e Yoko Ono. Duas ou três vezes, para não ser linchado pelo público, Jodorowsky teve de fugir da sala de projeção.

No Brasil começam a sair suas obras mais importantes. O romance Quando Teresa brigou com Deus foi publicado pela Planeta. O incal, saga em quadrinhos desenhada por Moebius, e A casta dos metabarões, desenhada por Gimenez, sucessos imediatos na Europa, saíram aqui pela Devir. E o volume três da série Bórgia, desenhada por Manara, acaba de ser lançado pela Conrad. Procurem nas livrarias.

O terceiro capítulo da saga da família Bórgia é puro incesto, sodomia e violência, sob a proteção da Igreja Católica. As chamas da fogueira dá continuidade às aventuras depravadas de Rodrigo Bórgia — o papa Alexandre VI — e sua família, no século 15. Presa mais à História do que à alegoria, essa HQ não tem a mesma potência mítica das outras duas. Mas não deixa de encantar principalmente pelo traço renascentista de Manara.

De Jodorowsky, a Devir também publicou o tratado Psicomagia, sobre a arriscada prática que mistura teatro, esoterismo e psicanálise. Mas raras vezes um gênero literário e uma sensibilidade prolífera combinaram tão bem, como na autobiografia A dança da realidade (tradução de Suely Farah). Esse relato composto de mil histórias saborosas é o triunfo da beleza simples, sem afetação, carregada de imaginação poética.

Aqui o autor faz de si mesmo seu melhor personagem. “Este livro é um exercício de autobiografia imaginária”, avisa Jodorowsky, reafirmando sua crença em nosso poder de recriar a realidade. No poder do olho de ouro de seu nome: alejandr OJO D ORO wsky. Capaz de devassar os arquétipos, as pulsões, a cabala e os arcanos do tarô.

Mas Jodorowsky chegou tarde à festa das vanguardas. Nascido em 1929, num povoado inexpressivo do norte do Chile, quando finalmente foi a Paris, em 1953, o último movimento transgressor, o surrealismo, já não significava muito. A força que no entre-guerras contestara o estatuto da arte tinha enfraquecido. “Breton já era um sumo pontífice velho e cansado, rodeado de acólitos sem talento”, escreveu. A indústria absorvia tudo e começava a produzir transgressores em série. Isso o obrigou a se reinventar dentro da própria indústria. A jogar a indústria contra a indústria.

Porém, uma ressalva. Se toda vida tem um lado B — seu lado mais bizarro e perigoso —, o de Jodorowsky chama-se psicomagia e psicoxamanismo. São práticas criadas por ele para curar os males do corpo e da alma. Ambas buscam diluir a fronteira entre a arte e a vida. Apesar de fazerem muito sentido no universo simbólico do autor, o aconselhamento psicomágico e as cirurgias psicoxamânicas são o tipo de charlatanismo (substantivo usado pelo próprio Jodorowsky, com sentido positivo) que, desconfio, traz mais confusão do que benefícios.

Mas o parágrafo acima me incomoda um pouco, ele parece expor o lado mais careta e convencional do próprio resenhista. É um buraco na resenha, um túnel de toupeira em direção a um cenário muito, muito estranho. Mais esquisito do que meus próprios sonhos deflorados. Talvez eu o elimine, pra me preservar um pouco (só um pouquinho). Talvez não.

[ Publicado originalmente, com uns poucos cortes, no Guia da Folha de agosto de 2010 ]