O deflorador de sonhos

Ele chegou a Paris sem falar francês, sem conhecer ninguém, sem um tostão no bolso. A primeira coisa que fez foi ligar para André Breton, que atendeu com uma voz pastosa: “Oui?” “¿Habla usted español?” “Si.” “¿Es André Breton?” “Si. ¿Quién es usted?” “Soy Alejandro Jodorowsky y vengo de Chile a salvar al surrealismo.” Mas isso foi depois, muito depois. Antes houve a dor profunda, a primeira dor.

Avó sem sorrisos, pai despótico, mãe neurótica, irmã indiferente. “Todos os nossos problemas sempre começam em nossa árvore genealógica”, escreveria mais tarde. Sua infância não foi fácil, mas ele conseguiu fazer da aflição doméstica uma sólida plataforma para a maturidade volátil e sobrenatural. Desde pequeno ele fala com espíritos, que respondem: “Tudo o que você será, já está sendo. O que você saberá, já sabe. O que você busca, está a sua procura, pois está em você.” Desde muito cedo ele sabe, como o fantasma que escreveu o Eclesiastes, que quem acumula conhecimento acumula dor.

Aos oitenta e um anos, o chileno Alejandro Jodorowsky ainda acredita que a maior conquista do gênero humano não é a faculdade de racionalizar, mas a de fantasiar. “A história de minha vida é um esforço constante para expandir a imaginação e ampliar seus limites”, costuma dizer. Desse esforço reafirmado em cada trabalho participam tradições sagradas e profanas: a alquimia, a teosofia, o simbolismo, o surrealismo e tantas outras.

Difícil é enquadrar o sujeito, etiquetá-lo. Ficcionista, dramaturgo, roteirista, cineasta, vidente, curandeiro, psicoterapeuta, santo: Jodorowsky é simplesmente inclassificável. Não há como domesticar sua pulsão criativa. Na infância, ainda vivendo na província, ele já havia percebido que era um cidadão do mundo. A percepção veio como um raio, ao subir no palco mambembe de um mágico visitante. “Ali, senti que tinha encontrado o meu lugar. Entendi que eu era um cidadão do mundo dos milagres.”

Os fãs de histórias em quadrinhos o reverenciam pelas parcerias bem-sucedidas com Moebius, Manara e Juan Gimenez. Os estudiosos do teatro certamente se lembram dos eventos pânicos (em homenagem ao deus Pã), exercícios iconoclastas de puro anti-teatro. Fernando Arrabal e Roland Topor também faziam parte do grupo. Já os cinéfilos cultuam seus filmes escandalosos, entre os quais A toupeira e A montanha sagrada, este produzido por John Lennon e Yoko Ono. Duas ou três vezes, para não ser linchado pelo público, Jodorowsky teve de fugir da sala de projeção.

No Brasil começam a sair suas obras mais importantes. O romance Quando Teresa brigou com Deus foi publicado pela Planeta. O incal, saga em quadrinhos desenhada por Moebius, e A casta dos metabarões, desenhada por Gimenez, sucessos imediatos na Europa, saíram aqui pela Devir. E o volume três da série Bórgia, desenhada por Manara, acaba de ser lançado pela Conrad. Procurem nas livrarias.

O terceiro capítulo da saga da família Bórgia é puro incesto, sodomia e violência, sob a proteção da Igreja Católica. As chamas da fogueira dá continuidade às aventuras depravadas de Rodrigo Bórgia — o papa Alexandre VI — e sua família, no século 15. Presa mais à História do que à alegoria, essa HQ não tem a mesma potência mítica das outras duas. Mas não deixa de encantar principalmente pelo traço renascentista de Manara.

De Jodorowsky, a Devir também publicou o tratado Psicomagia, sobre a arriscada prática que mistura teatro, esoterismo e psicanálise. Mas raras vezes um gênero literário e uma sensibilidade prolífera combinaram tão bem, como na autobiografia A dança da realidade (tradução de Suely Farah). Esse relato composto de mil histórias saborosas é o triunfo da beleza simples, sem afetação, carregada de imaginação poética.

Aqui o autor faz de si mesmo seu melhor personagem. “Este livro é um exercício de autobiografia imaginária”, avisa Jodorowsky, reafirmando sua crença em nosso poder de recriar a realidade. No poder do olho de ouro de seu nome: alejandr OJO D ORO wsky. Capaz de devassar os arquétipos, as pulsões, a cabala e os arcanos do tarô.

Mas Jodorowsky chegou tarde à festa das vanguardas. Nascido em 1929, num povoado inexpressivo do norte do Chile, quando finalmente foi a Paris, em 1953, o último movimento transgressor, o surrealismo, já não significava muito. A força que no entre-guerras contestara o estatuto da arte tinha enfraquecido. “Breton já era um sumo pontífice velho e cansado, rodeado de acólitos sem talento”, escreveu. A indústria absorvia tudo e começava a produzir transgressores em série. Isso o obrigou a se reinventar dentro da própria indústria. A jogar a indústria contra a indústria.

Porém, uma ressalva. Se toda vida tem um lado B — seu lado mais bizarro e perigoso —, o de Jodorowsky chama-se psicomagia e psicoxamanismo. São práticas criadas por ele para curar os males do corpo e da alma. Ambas buscam diluir a fronteira entre a arte e a vida. Apesar de fazerem muito sentido no universo simbólico do autor, o aconselhamento psicomágico e as cirurgias psicoxamânicas são o tipo de charlatanismo (substantivo usado pelo próprio Jodorowsky, com sentido positivo) que, desconfio, traz mais confusão do que benefícios.

Mas o parágrafo acima me incomoda um pouco, ele parece expor o lado mais careta e convencional do próprio resenhista. É um buraco na resenha, um túnel de toupeira em direção a um cenário muito, muito estranho. Mais esquisito do que meus próprios sonhos deflorados. Talvez eu o elimine, pra me preservar um pouco (só um pouquinho). Talvez não.

[ Publicado originalmente, com uns poucos cortes, no Guia da Folha de agosto de 2010 ]

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