Ray Bradbury (1920-2012)

O primeiro livro que li, de Ray Bradbury, não foi seu romance mais célebre, Fahrenheit 451, publicado em 1953, de que gosto bastante, apesar de não ser meu livro predileto. Sempre que se fala em Fahrenheit 451 é lembrada a adaptação de François Truffaut para o cinema, de 1966. Mas não recomendo a ninguém que assista ao longa-metragem, nem antes nem depois de ler o livro. O filme envelheceu muito mal — a maioria dos filmes envelhece muito mal, é de sua natureza a cristalização no tempo —, certas cenas tornaram-se constrangedoras e até risíveis. Salvam-se apenas a música de Bernard Herrmann e a cena final, em que aparecem os homens-livro declamando na floresta as obras-primas queimadas, cena que não está no romance.

O primeiro livro que li, de Ray Bradbury, foi a coletânea de contos F de foguete (1962). Devorei em uma tarde e uma noite, e na manhã do dia seguinte, afortunadamente um sábado, corri à papelaria — poucas cidades do interior tinham livraria, na década de 80 — pra comprar o outro, E de espaço (1966), que também li em seis ou sete horas. De imediato, o que mais me encantou nos contos de Bradbury foi seu talento para o enredo, a trama, o entrecho, a urdidura. Sem saber, eu estava começando a tomar contato com a tradição dos grandes contadores de histórias. Bradbury foi apenas o primeiro de muitos, o mestre que convidou os outros. Desconfio que até mesmo Borges, seu vizinho de prateleira em minha estante, não teria entrado em casa se não fosse por ele.

Se me pedissem uma lista com os cem melhores contos que já li na vida, mais de um terço seriam de Ray Bradbury, que demonstrou como ninguém que, no frigir dos ovos, ficção é personagem e enredo. A linguagem é o que sustenta tudo, é o que dá forma ao universo narrativo, mas sem um personagem marcante e um enredo surpreendente não há epopéia, drama, romance, novela ou conto que sobreviva. Essa é a razão de figuras como Ulisses, Dante, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Raskolnikov, madame Bovary, Moby Dick, Capitu, Riobaldo e Diadorim continuarem até hoje em nosso imaginário. Lá estava eu, suportando estoicamente o tédio tão comum nas cidades do interior paulista, quando Ray Bradbury me apresentou um bom número de pessoas incomuns vivendo situações incomuns e, por isso, inesquecíveis.

Ray Bradbury passou a vida toda convencendo a si mesmo e a seus leitores de que o mundo pode ser muito mais fascinante do que realmente é. Porém fascinante do modo mais simples, sem recorrer à complexidade discursiva de um Faulkner ou de um Nabokov. Seus contos são janelas suaves e descomplicadas pra todo tipo de país das maravilhas, do mais bizarro ao mais sublime. Que tal viver num mundo que acelera o metabolismo das pessoas, comprimindo setenta anos em sete dias (Gelo e fogo)? Ou num mundo senciente, ávido por agradar seus visitantes (Aqui há tigres)? Ou num mundo fustigado por uma chuva perpétua e enlouquecedora (A longa chuva)? Que tal viajar até o sol apenas pra retirar dele um pedacinho fumegante (Os pomos dourados do sol)? Ou participar de um safári pré-histórico e acidentalmente mudar nosso futuro (Um som de trovão)? Essas situações pertencem a F de foguete.

O livro seguinte, E de espaço, não fica atrás. Sua coleção de situações espantosas e inquietantes é igualmente muito boa. Que tal conhecer um homem cujo corpo está sofrendo uma admirável metamorfose (Crisálida)? Ou um menino que está constantemente trocando de família adotiva, porque simplesmente não consegue envelhecer (Saudações e adeus)? Ou as crianças que estão brincando de invasão, sem saber que estão realmente colaborando com uma grande invasão (Hora zero)? Que tal tentar manter a calma quando uma inofensiva plantação de cogumelos começar a parecer tudo menos inofensiva (Venha ao meu porão)? Ou quando ninguém quiser acreditar em você quando disser que está ouvindo o pedido de socorro de uma mulher enterrada viva (A mulher gritando)?

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