Resenha de um conto

Chegou ao fim o laboratório de ficção científica que eu coordenava no Sesc Belenzinho. Já estou com saudade. Dezenas de contos curtos foram produzidos pelos meus queridos alquimistas da palavra, que exercitaram os mais diferentes subgêneros: cyberpunk, distopia, invasão alienígena, new weird, pós-apocalipse, steampunk, viagem no tempo etc. No final do laboratório, um dos participantes presenteou-me com o que ele mesmo chamou de “tentativa de crítica de um conto de Luiz Bras, que será apresentada para outro grupo”, sendo o outro grupo um grupo formado durante uma oficina de crítica literária. Obrigado pela resenha, Sebastião.

Sob a nuvem de cães-cavalos

Sebastião Paz

O conto cyberpunk Nuvem de cães-cavalos é parte do livro Paraíso líquido, de Luiz Bras.

Nesse conto é narrado o encontro, em público, entre um homem e uma mulher. Mulher-menina de pele meio azulada, cabelo não muito curto, muito negro e muito liso, olhos tristes.

O personagem-narrador não é onisciente e nos faz lembrar do angustiado Bentinho, do Dom Casmurro, de Machado de Assis.

No conto, o fantástico e o psicológico se juntam à ficção científica, e também ao poético: “As meias listradas — amarelo e lilás balançando, se misturando — ressaltam outros sentimentos menos juvenis.” Ou: “Tempo, vida. Vida, tempo. Não conseguia largar essas palavras. Até que uma se impôs. Tempo, tempo, tempo.”

Às vezes, o científico se mescla a esse psicológico-poético-fantástico: “Prazer, medo, excitação: tudo. Neuroquímica. O córtex pré-frontal e o hipotálamo em brasa.”

As seguintes impressões do protagonista em relação à mulher da trama, “Seu olhar maravilhoso me intimidava. Havia intensa inteligência nele e eu sempre tive medo — pavor — de mulheres bonitas e inteligentes”, podem até justificar a solidão de certas celebridades, vistas como que em pedestais, quando na verdade são meros seres humanos carentes. Ou haveria um complexo de inferioridade no personagem-narrador?

Também se pode dizer que existe no conto a questão do duplo. Seriam Bruno e Samuel a mesma pessoa? Seriam nomes de pessoas diferentes? A incerteza é uma tônica nessa narrativa: “Será possível que o louco sou eu?” Ou: “Nádia era um desses pacientes?”

Junte-se a isso o embate entre os dois personagens principais, na tentativa de convencimento ou autoconvencimento. Quando um pretende tentar abrir os olhos do outro para a realidade, recebe a seguinte resposta: “Não seja ridículo. A realidade? Conheço bem a realidade. Quem há muito tempo está cego pra ela é você.”

Segundo Cleusa Rios Pinheiro Passos, titular de teoria literária e literatura comparada da USP, o conto de ficção científica pode também ser fantástico. Tudo depende do tratamento. Para tal mestra, o conto fantástico tem o poder de explodir para além, transbordar dos limites das poucas páginas.

Isso nos leva a dizer que outras abordagens para além deste trabalho dedicado a um dos muitos contos de Luiz Bras são possíveis e até bem-vindas.

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