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Cultura FM – Programa Entrelinhas

27/07/2012

O jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto convidou-me pra participar do programa Entrelinhas: Confluências entre Música e Literatura, apresentado por ele na Cultura FM (103,3). Topei na hora. Difícil foi escolher as composições. De uma lista inicial com minhas trinta músicas mais queridas, depois de muito sofrimento consegui selecionar oito.

O programa vai ao ar no dia 31 de julho, terça-feira, às 21h. O bate-papo com Manuel foi tão prazeroso, informal e descontraído, que estouramos astronomicamente o tempo regulamentar. Talvez uma ou duas composições precisem ser cortadas na edição.

1. Debussy: Prelúdio ao entardecer de um fauno. Homenagem musical ao célebre poema de Mallarmé, sobre o envelhecimento e o declínio do vigor físico. O fauno Mallarmé é o personagem-assombração do romance Poeira: demônios e maldições, de meu amigo Nelson de Oliveira.
2. Ravel: Pavana para uma infanta defunta. A música erudita e o cinema foram a principal matéria-prima do ficcionista Cabrera Infante em seu romance engraçadíssimo Havana para um Infante defunto.
3. Carl Orff: Veris leta facies. Duvido que o compositor estivesse pensando no Marquês de Sade, quando orquestrou esse poema medieval sobre a chegada da primavera. Mas o cineasta Pier Paolo Pasolini, em seu último filme, não deixou escapar essa triste constatação: a barbárie muitas vezes anda de mãos dadas com o refinamento.
4. Stravinsky: Os augúrios primaveris: a dança das adolescentes. Trecho do balé A sagração da primavera. Stravinsky é meu compositor predileto, sempre foi. Considero genial toda a sua obra, da primeira a última composição. Um de meus romancistas mais queridos, Alejo Carpentier, homenageou esse balé num romance também intitulado A sagração da primavera.
5. Prokofiev: Montecchios e Capulettos. Trecho do balé Romeu e Julieta. Shakespeare teria gostado de assistir à essa adaptação de sua peça mais popular. Tentei reproduzir, num dos capítulos do romance Sozinho no deserto extremo, o andamento e a atmosfera desse trecho magnífico.
6. Debussy: Hommage à S. Pickwick Esq. P.P.M.P.C. Debussy homenageou diversos escritores, a maioria poetas. Esse prelúdio é um delicado tributo ao romancista Charles Dickens e a seu personagem Samuel Pickwick. Os prelúdios de Debussy são a música-fantasma que assombram pelo menos três contos da coletânea Paraíso líquido.
7. Gilberto Mendes: O meu amigo Koellreutter. Finalmente um compositor brasileiro nesta seleção. O santista Gilberto Mendes (não deixem de ler seu livro de memórias, Viver sua música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à Avenida Nevskiy) homenageia aqui outra importante figura de nossa vanguarda: o alemão Hans-Joachim Koellreutter, que na juventude mudou-se para o Brasil, fugindo do nazismo.
8. Edgar Meyer: Please don’t feed the bear. Meyer é um compositor e instrumentista que transita por vários gêneros musicais. Uma descoberta recente, indicação do poeta Ninil Gonçalves. Gosto de ouvir seus CDs quando estou escrevendo.

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Eugênio e Ana Maria

23/07/2012

O escritor e pesquisador curitibano Mustafá Ali Kanso, especialista na obra de Erico Verissimo, fez uma importante descoberta: o clássico Olhai os lírios do campo era pra ser um romance de ficção científica new wave. Examinando pra sua tese de doutorado os arquivos do festejado romancista gaúcho, Mustafá encontrou várias anotações que deixaram clara essa intenção não realizada por Erico. O que o levou a mudar de ideia, ninguém sabe. O que sabemos com certeza é que, se o plano inicial tivesse sido mantido, Olhai os lírios do campo de asteroides seria hoje mais uma narrativa essencial da ficção científica brasileira.

Olhai os lírios do campo de asteroides
Romance new wave de Erico Verissimo
A primeira parte do romance se inicia com Eugênio Fontes, um próspero exomédico, viajando de sua propriedade lunar rumo à cidade orbital da Terra, que dista três horas de astronave. O chamado veio de um hospital da cidade orbital, onde seu grande amor do passado, Olívia, está morrendo. É durante essa breve jornada que Eugênio, em sucessivos flashbacks, retoma seu passado. Ele evoca a infância infeliz no campo de asteroides, dada a pobreza do pai fabricante de trajes espaciais, e o desejo que acometeu o protagonista de se tornar um homem rico e livrar a família de todas as vergonhas geradas pela miséria. É por essa razão que Eugênio se casa por interesse com Eunice, uma mulher muito rica, e abandona Olívia. Nesse meio-tempo se inicia a Primeira Guerra Interplanetária. Com essa história ao fundo, o autor compõe um painel de tipos humanos sempre às voltas com o conflito segurança versus felicidade. Na segunda parte, Eugênio rompe o casamento com Eunice, encorajado por saber da existência de Ana Maria — filha que teve com Olívia —, e passa a ser um médico do campo de asteroides, atendendo os mineiros pobres. O romance termina com uma cena antológica: Eugênio e sua filha Ana Maria passeando alegremente de buck-rogers pela praça orbital de Ceres.

Pesquisa: Mustafá Ali Kanso

Novo romance

14/07/2012

Um novo livro é sempre um momento de transformação. Prazerosa pra alguns autores, desconfortável pra outros. Transformação que se anuncia no início da escritura, queima o peito, congela a ponta dos dedos, intensifica-se na hora do ponto final, provoca febre, vai sossegando durante a revisão das provas e se completa na publicação. Nada permanece o mesmo no mundo, porque mudou o autor. Aquele que existia antes desse processo desapareceu. Outro surgiu em seu lugar.

Em alguns dias o novo romance estará nas livrarias. Sensação deliciosa: expectativa e eletricidade estática. Finalmente fora do meu alcance, a caminho da gráfica, que surpresas os personagens estão preparando? Que novidades saltarão das páginas quando eu começar a reler a jornada de Davi, quando o próprio Davi voltar a falar comigo através do narrador onisciente, quando tudo voltar a tremer, ruir e queimar, agora no formado de livro?

O design da capa e as vibrantes gravuras digitais internas são de Tereza Yamashita.

Duas sessões de autógrafos já estão agendadas: no dia 1º de agosto na Livraria da Travessa (Rio) e no dia 21 de agosto na Livraria Cultura (São Paulo). Mais detalhes, em breve.

Olhos metálicos

12/07/2012

O escritor e pesquisador Rinaldo de Fernandes, especialista no Romance de 30, descobriu recentemente que também Graciliano Ramos era leitor de ficção científica, especialmente de Jules Verne e H.G. Wells.

Rinaldo encontrou nos papéis de Graciliano os primeiros esboços de seu romance mais célebre, cuja trama era pra ser um pouco diferente da versão final, publicada em 1934.

O que levou o romancista a mudar a trama do romance ninguém sabe. Em cartas aos amigos ou nas páginas de seu diário, Graciliano não toca no assunto. O que sabemos com certeza é que, se o plano inicial tivesse sido mantido, São Bernardo seria hoje mais uma narrativa essencial da ficção científica brasileira.

São Bernardo
Romance sobre vida extraterrestre de Graciliano Ramos
Paulo Honório foi, veio, virou, revirou, ganhou, emprestou. Conheceu Padilha, emprestou mais. Padilha andava na beira do rio, tomando cachaça, descuidado da fazenda São Bernardo. Padilha não teve como pagar o empréstimo, ficou deitado na rede suja, uma chuva raiada, as telhas de bico aberto, gotejando, a fazenda com mato, potó, Paulo Honório, o olho gordo, foi cobrar o seu, peitou, encurralou Padilha, que cedeu, foi passado, logo vendeu a fazenda. Paulo Honório aí tocou o negócio, fez o motor girar, enricou, bateu em gente, enricou mais. Pagou o casamento com Madalena, ser diferente, e bem, dele, transgênica, solidarizava-se até com as árvores da fazenda, onde um dia pousaram umas patativas metálicas, de canto de mola, Madalena pegou carona com elas, largou-se para o planeta Pitão, que tinha mandacarus marrons, enfiados em geleiras, rolinhas pingando de aroeiras e alguns pastos, o que fazia Madalena, em seu casebre de travessas de prata, entalado entre duas rochas, com jirau e uns pingüins engraçados no terreiro, lembrar do filho e chorar aos montes, que eram elevados e com neve rosada, e ninguém mais soube o que aconteceu com Madalena, só Padilha, que virou professor-operário em São Bernardo, que contava a história pros meninos embasbacados, de olhos também metálicos pra saber a verdadeira história da mulher que viajou com as patativas para Pitão, enquanto Paulo Honório, diante do seu crepúsculo, seco, cacto, a alma agreste, a alma poente, fenecia.

Pesquisa: Rinaldo de Fernandes

Dez romances essenciais da ficção científica brasileira

03/07/2012

Descobertas recentes revelaram que importantes ficcionistas do cânone nacional, como Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e outros de mesma estatura eram leitores apaixonados de ficção científica. Mais do que isso: em cartas e diários recuperados somente há pouco tempo, esses autores confessaram que estavam escrevendo ficção científica.

Mas ao finalizarem o trabalho foram logo dissuadidos da ideia de publicar. Uns foram alertados pelo próprio editor — José Olympio, Ênio Silveira —, outros por um crítico de confiança — Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins — ou um amigo livreiro. “Ficção científica no Brasil não vende, deixe de loucura, seria suicídio profissional”, avisaram.

Analisando e recompondo os apontamentos, rascunhos, esquemas e comentários encontrados recentemente, os pesquisadores do Instituto de Crítica Genética da UFCN conseguiram restabelecer a versão original de alguns clássicos de nossa literatura. O resultado foi surpreendente.

Agora sem os cortes e as alterações feitos pelos próprios autores, na época censurados pelo preconceito do establishment, qual é a cara original desses romances?

Para os pesquisadores está mais do que evidente que, se tivessem sido publicados em sua forma primeva, esses romances seriam considerados hoje, sem sombra de dúvida, narrativas essenciais da ficção científica brasileira.

Grande sertão: veredas
Romance pós-apocalíptico de João Guimarães Rosa
No ano 2075 metade da Terra foi devastada por uma guerra fratricida e diversas pandemias quase deram cabo da outra metade. Todo o conhecimento e toda a tecnologia acumulados durante séculos foram perdidos. Bandos de criminosos aterrorizam os poucos povoados que sobraram, impondo a lei do mais forte. O romance gira em torno do jagunço Riobaldo, também conhecido como Tatarana ou Urutu-Branco. Seu único deus é Lúcifer, invisível sobrevivente de uma raça alienígena extinta. Personagem igualmente importante é Diadorim, jagunço ambíguo e dissimulado com quem Riobaldo estabelece um forte vínculo afetivo. No final da narrativa descobre-se que Diadorim era na verdade uma androide.

Macunaíma
Space opera de Mário de Andrade
“Muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, nasceu Macunaíma, herói de nossa gente.” Assim começa o épico galáctico protagonizado pelo malandro mais lascivo, mentiroso e preguiçoso da ficção brasileira. Macunaíma é “o herói sem nenhum caráter”, um mutante capaz de romper o contínuo espaço-tempo. Sua missão é recuperar a muiraquitã, amuleto sagrado de seu povo. Com a ajuda de Maanape e Jiguê, clones seus, Macunaíma vai de estrela em estrela no encalço do gigante Piaimã, ladrão do amuleto sagrado. Após uma série de batalhas, armadilhas e reviravoltas, chegam a um gigantesco supercomputador chamado Terra. Cansado de tanta correria, doido pra ficar quietinho num canto, Macunaíma pede ao computador-planeta que o transforme na constelação da Ursa Maior.

A paixão segundo G.H.
Romance cyberpunk de Clarice Lispector
As antigas fronteiras nacionais foram abolidas. O mapa geopolítico agora está dividido em centenas de conglomerados econômicos e financeiros. Enquanto os sem-conexão chafurdam nas ruas imundas das cidades-colméia, a nova elite tecnológica ocupa o éden do ciberespaço. Determinada a invadir o espaço privilegiado dos novos olimpianos, a hacker G.H. consegue desativar todos os dispositivos de segurança que encontra pela frente. Menos um: uma inteligência artificial insetoide capaz de deter qualquer invasão. Paralisada pelo abraço demoníaco da I.A., G.H. entrega-se à possessão inevitável. Seus pensamentos se misturam com os do insetoide. Sonho e realidade dissolvem-se num mantra infinito, o inferno e o paraíso se sobrepõem.

Dom Casmurro
Romance steampunk de Machado de Assis
A ação se passa entre 1857 e 1875, aproximadamente. O protagonista é o carioca Bentinho, que aos cinqüenta e quatro anos rememora parte de sua vida. Adolescente franzino e arredio, Bentinho passava todo o tempo na frente da televaporvisão ou na oficina do falecido pai. Seu passatempo predileto era a construção de autômatos. Em poucos anos a mansão da família estava cheia de gatos, cães e papagaios muito parecidos com os de carne e osso. Mais tarde, decidido a imitar o Todo-Poderoso, Bentinho construiu um ser humano perfeito, Escobar. Porém sua obra-prima foi mesmo a sedutora Capitu, seu grande e único amor. Que num acesso de fúria ele expulsou de casa — depois de destruir Escobar —, por suspeitar que estava sendo traído.

Fogo morto
Romance sobre universos paralelos de José Lins do Rego
Dividido em três partes, a narrativa mostra um trio de universos distintos, sobrepostos, conectados pelo Engenho de Santa Fé, no Nordeste açucareiro. Cada universo tem um personagem principal. Os três protagonistas se inter-relacionam graças a um portal cambiante que se desloca pelo engenho, apanhando-os de surpresa. Na primeira parte, mestre José Amaro enlouquece gradativamente, supondo que está sendo assombrado por fantasmas. Na segunda parte, coronel Lula de Holanda, acreditando-se possuído por seres celestes, sofre um ataque de epilepsia na igreja e se torna um devoto fervoroso. Na terceira parte, o quixotesco capitão Vitorino tenta convencer as pessoas de que é possível viajar a outros universos, mas é ridicularizado e se mata no final do romance.

Romance da Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta
Romance-epopéia sobre viagem no tempo de Ariano Suassuna
Protagonizada pelo Cronista-Fidalgo-Rapsodo-Acadêmico-e-Poeta-Escrivão dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, ilustre descendente de dom João Ferreira-Quaderna ou dom João, o Execrável, a narrativa mostra uma confraria de viajantes do tempo tentando impedir o Armagedão. Para atingir seu objetivo, os doze confrades viajam a diferentes regiões do planeta, no passado e no futuro. Sua missão é alterar o curso da História, para que passe bem longe da destruição global. Quaderna é enviado a São José do Belmonte, em Pernambuco, no início de 1838. Ele precisa debelar o movimento sebastianista local que resultará na morte de quase cem pessoas. Mas Quaderna é traído por outro confrade, Lazarillo de Tormes, que deseja secretamente a extinção da raça humana. O protagonista-narrador é preso e obrigado a contar sua história ao corregedor.

Bufo & Spallanzani
Romance distópico de Rubem Fonseca
No centenário do Golpe Militar de 1964, um novo golpe de estado recoloca as forças armadas no poder. Todavia a sociedade mal fica sabendo. Mais eficiente e aparelhado do que há cem anos, o regime militar dessa vez não suspende a constituição, não dissolve o congresso, tampouco suprime as liberdades individuais. Graças a um poderoso software de manipulação psicossocial desenvolvido pelo exército, denominado Camaleão tentacular, todo o controle agora é virtual. Dez anos depois, quem descobre acidentalmente a ação sub-reptícia dos militares é o detetive Ivan Canabrava, da Companhia Panamericana de Seguros. Ivan está investigando o caso de um fazendeiro que morreu pouco após fazer um seguro de um milhão de dólares, quando esbarra em arquivos confidenciais das forças armadas, com detalhes do software de manipulação.

Viva o povo brasileiro
Romance new weird de João Ubaldo Ribeiro
Publicado em 1984, esse romance antecipa em mais de uma década o new weird, movimento que ganharia corpo na literatura anglófona apenas em meados dos anos 90. A narrativa percorre quatro séculos de história do Brasil, seu tema central é a construção de nossa identidade bizarra e delirante. Em suas setecentas páginas, dezenas de portugueses, holandeses, índios canibais, escravos de engenho, visitantes extraterrestres, divindades do candomblé e criaturas de nosso folclore protagonizam uma batalha titânica. Para dar conta dessa diversidade cultural, o discurso do narrador também muda ao longo do romance, adotando todos os registros imagináveis: solene, filosófico, científico, coloquial, satírico etc. O autor ainda inventou três novos idiomas para conferir mais credibilidade aos extraterrestres, às divindades e às criaturas folclóricas.

Triste fim de Policarpo Quaresma
Romance de história alternativa de Lima Barreto
Nesse folhetim quase publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, entre agosto e outubro de 1911, a República dos Estados Unidos do Brasil não foi proclamada, o governo provisório do marechal Deodoro da Fonseca nunca existiu e dom Pedro II ainda é o nosso jubiloso soberano. Nesse contexto alternativo, o major Policarpo Quaresma é o idealista ingênuo que, cooptado por uma organização revolucionária, recebe a missão de assassinar o imperador. Quaresma erra o alvo, matando acidentalmente o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-Húngaro, provocando assim a Primeira Guerra Mundial. Barrada a tempo pelo editor-chefe do Jornal do Commercio, essa versão do romance foi rapidamente substituída por outra “um pouco menos delirante”, nas palavras do preocupado editor.

Crônica da casa assassinada
Romance sobre invasão alienígena de Lúcio Cardoso
No interior de Minas Gerais, uma névoa senciente, de origem desconhecida, espalha-se pela fazenda da família Menezes, contaminando todos que aí vivem. Logo uma atmosfera de morbidez e angústia domina os protagonistas, que passam a se comportar estranhamente. Entre Nina, Valdo, André e os outros Menezes estabelece-se uma comunicação excêntrica, de natureza telepática. Subitamente vem à tona a história da decadência da família: os casos extraconjugais, os atos violentos, os amores proibidos, as relações incestuosas, as perversões. No final do romance o passado vergonhoso é apagado. Purificados pela névoa, todos perdem a consciência, o espírito. Dos protagonistas apenas o corpo físico permanece: o receptáculo perfeito para a invasão iminente.

Um tempo de muitos espíritos

01/07/2012

Faz uma década que deixei de tentar controlar meu cotidiano delirante. Escolhi outra postura: o acaso monitorado. Antes eu tentava agarrar as pessoas e as situações, tentava mantê-las ao meu lado, mas elas sempre escapavam. Era frustrante demais. Agora eu deixo as pessoas e as situações virem e irem espontaneamente, não tento controlar o fluxo de chegadas e partidas. Tento apenas ser um pouco cuidadoso. Monitoro as imediações, procuro prevenir acidentes.

Vivendo numa nuvem de possibilidades auto-regulada, raramente escolho com antecedência o que ler, assistir ou ouvir. Poucas vezes escolho com quem falar sobre literatura, filosofia etc. Enxames de livros, filmes, músicas e interlocutores atravessam a sala e eu abraço os (aparentemente) mais interessantes. Deixo a mágica me surpreender. Às vezes a surpresa é péssima. Por isso não ando armado, não gostaria de ir pra cadeia por atirar em livros, filmes, músicas ou interlocutores ruins. Em geral a surpresa é boa.

Outras vezes a surpresa é mais do que boa. Quando é muito, muito boa — como a resenha Um tempo de muitos espíritos, publicada ontem pelo escritor Daniel Lopes na página do coletivo O Bule —, ela faz valer a pena esse cotidiano delirante, incerto, nessa nuvem de encontros aleatórios.