Um tempo de muitos espíritos

Faz uma década que deixei de tentar controlar meu cotidiano delirante. Escolhi outra postura: o acaso monitorado. Antes eu tentava agarrar as pessoas e as situações, tentava mantê-las ao meu lado, mas elas sempre escapavam. Era frustrante demais. Agora eu deixo as pessoas e as situações virem e irem espontaneamente, não tento controlar o fluxo de chegadas e partidas. Tento apenas ser um pouco cuidadoso. Monitoro as imediações, procuro prevenir acidentes.

Vivendo numa nuvem de possibilidades auto-regulada, raramente escolho com antecedência o que ler, assistir ou ouvir. Poucas vezes escolho com quem falar sobre literatura, filosofia etc. Enxames de livros, filmes, músicas e interlocutores atravessam a sala e eu abraço os (aparentemente) mais interessantes. Deixo a mágica me surpreender. Às vezes a surpresa é péssima. Por isso não ando armado, não gostaria de ir pra cadeia por atirar em livros, filmes, músicas ou interlocutores ruins. Em geral a surpresa é boa.

Outras vezes a surpresa é mais do que boa. Quando é muito, muito boa — como a resenha Um tempo de muitos espíritos, publicada ontem pelo escritor Daniel Lopes na página do coletivo O Bule —, ela faz valer a pena esse cotidiano delirante, incerto, nessa nuvem de encontros aleatórios.

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