Dez romances essenciais da ficção científica brasileira

Descobertas recentes revelaram que importantes ficcionistas do cânone nacional, como Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e outros de mesma estatura eram leitores apaixonados de ficção científica. Mais do que isso: em cartas e diários recuperados somente há pouco tempo, esses autores confessaram que estavam escrevendo ficção científica.

Mas ao finalizarem o trabalho foram logo dissuadidos da ideia de publicar. Uns foram alertados pelo próprio editor — José Olympio, Ênio Silveira —, outros por um crítico de confiança — Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins — ou um amigo livreiro. “Ficção científica no Brasil não vende, deixe de loucura, seria suicídio profissional”, avisaram.

Analisando e recompondo os apontamentos, rascunhos, esquemas e comentários encontrados recentemente, os pesquisadores do Instituto de Crítica Genética da UFCN conseguiram restabelecer a versão original de alguns clássicos de nossa literatura. O resultado foi surpreendente.

Agora sem os cortes e as alterações feitos pelos próprios autores, na época censurados pelo preconceito do establishment, qual é a cara original desses romances?

Para os pesquisadores está mais do que evidente que, se tivessem sido publicados em sua forma primeva, esses romances seriam considerados hoje, sem sombra de dúvida, narrativas essenciais da ficção científica brasileira.

Grande sertão: veredas
Romance pós-apocalíptico de João Guimarães Rosa
No ano 2075 metade da Terra foi devastada por uma guerra fratricida e diversas pandemias quase deram cabo da outra metade. Todo o conhecimento e toda a tecnologia acumulados durante séculos foram perdidos. Bandos de criminosos aterrorizam os poucos povoados que sobraram, impondo a lei do mais forte. O romance gira em torno do jagunço Riobaldo, também conhecido como Tatarana ou Urutu-Branco. Seu único deus é Lúcifer, invisível sobrevivente de uma raça alienígena extinta. Personagem igualmente importante é Diadorim, jagunço ambíguo e dissimulado com quem Riobaldo estabelece um forte vínculo afetivo. No final da narrativa descobre-se que Diadorim era na verdade uma androide.

Macunaíma
Space opera de Mário de Andrade
“Muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, nasceu Macunaíma, herói de nossa gente.” Assim começa o épico galáctico protagonizado pelo malandro mais lascivo, mentiroso e preguiçoso da ficção brasileira. Macunaíma é “o herói sem nenhum caráter”, um mutante capaz de romper o contínuo espaço-tempo. Sua missão é recuperar a muiraquitã, amuleto sagrado de seu povo. Com a ajuda de Maanape e Jiguê, clones seus, Macunaíma vai de estrela em estrela no encalço do gigante Piaimã, ladrão do amuleto sagrado. Após uma série de batalhas, armadilhas e reviravoltas, chegam a um gigantesco supercomputador chamado Terra. Cansado de tanta correria, doido pra ficar quietinho num canto, Macunaíma pede ao computador-planeta que o transforme na constelação da Ursa Maior.

A paixão segundo G.H.
Romance cyberpunk de Clarice Lispector
As antigas fronteiras nacionais foram abolidas. O mapa geopolítico agora está dividido em centenas de conglomerados econômicos e financeiros. Enquanto os sem-conexão chafurdam nas ruas imundas das cidades-colméia, a nova elite tecnológica ocupa o éden do ciberespaço. Determinada a invadir o espaço privilegiado dos novos olimpianos, a hacker G.H. consegue desativar todos os dispositivos de segurança que encontra pela frente. Menos um: uma inteligência artificial insetoide capaz de deter qualquer invasão. Paralisada pelo abraço demoníaco da I.A., G.H. entrega-se à possessão inevitável. Seus pensamentos se misturam com os do insetoide. Sonho e realidade dissolvem-se num mantra infinito, o inferno e o paraíso se sobrepõem.

Dom Casmurro
Romance steampunk de Machado de Assis
A ação se passa entre 1857 e 1875, aproximadamente. O protagonista é o carioca Bentinho, que aos cinqüenta e quatro anos rememora parte de sua vida. Adolescente franzino e arredio, Bentinho passava todo o tempo na frente da televaporvisão ou na oficina do falecido pai. Seu passatempo predileto era a construção de autômatos. Em poucos anos a mansão da família estava cheia de gatos, cães e papagaios muito parecidos com os de carne e osso. Mais tarde, decidido a imitar o Todo-Poderoso, Bentinho construiu um ser humano perfeito, Escobar. Porém sua obra-prima foi mesmo a sedutora Capitu, seu grande e único amor. Que num acesso de fúria ele expulsou de casa — depois de destruir Escobar —, por suspeitar que estava sendo traído.

Fogo morto
Romance sobre universos paralelos de José Lins do Rego
Dividido em três partes, a narrativa mostra um trio de universos distintos, sobrepostos, conectados pelo Engenho de Santa Fé, no Nordeste açucareiro. Cada universo tem um personagem principal. Os três protagonistas se inter-relacionam graças a um portal cambiante que se desloca pelo engenho, apanhando-os de surpresa. Na primeira parte, mestre José Amaro enlouquece gradativamente, supondo que está sendo assombrado por fantasmas. Na segunda parte, coronel Lula de Holanda, acreditando-se possuído por seres celestes, sofre um ataque de epilepsia na igreja e se torna um devoto fervoroso. Na terceira parte, o quixotesco capitão Vitorino tenta convencer as pessoas de que é possível viajar a outros universos, mas é ridicularizado e se mata no final do romance.

Romance da Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta
Romance-epopéia sobre viagem no tempo de Ariano Suassuna
Protagonizada pelo Cronista-Fidalgo-Rapsodo-Acadêmico-e-Poeta-Escrivão dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, ilustre descendente de dom João Ferreira-Quaderna ou dom João, o Execrável, a narrativa mostra uma confraria de viajantes do tempo tentando impedir o Armagedão. Para atingir seu objetivo, os doze confrades viajam a diferentes regiões do planeta, no passado e no futuro. Sua missão é alterar o curso da História, para que passe bem longe da destruição global. Quaderna é enviado a São José do Belmonte, em Pernambuco, no início de 1838. Ele precisa debelar o movimento sebastianista local que resultará na morte de quase cem pessoas. Mas Quaderna é traído por outro confrade, Lazarillo de Tormes, que deseja secretamente a extinção da raça humana. O protagonista-narrador é preso e obrigado a contar sua história ao corregedor.

Bufo & Spallanzani
Romance distópico de Rubem Fonseca
No centenário do Golpe Militar de 1964, um novo golpe de estado recoloca as forças armadas no poder. Todavia a sociedade mal fica sabendo. Mais eficiente e aparelhado do que há cem anos, o regime militar dessa vez não suspende a constituição, não dissolve o congresso, tampouco suprime as liberdades individuais. Graças a um poderoso software de manipulação psicossocial desenvolvido pelo exército, denominado Camaleão tentacular, todo o controle agora é virtual. Dez anos depois, quem descobre acidentalmente a ação sub-reptícia dos militares é o detetive Ivan Canabrava, da Companhia Panamericana de Seguros. Ivan está investigando o caso de um fazendeiro que morreu pouco após fazer um seguro de um milhão de dólares, quando esbarra em arquivos confidenciais das forças armadas, com detalhes do software de manipulação.

Viva o povo brasileiro
Romance new weird de João Ubaldo Ribeiro
Publicado em 1984, esse romance antecipa em mais de uma década o new weird, movimento que ganharia corpo na literatura anglófona apenas em meados dos anos 90. A narrativa percorre quatro séculos de história do Brasil, seu tema central é a construção de nossa identidade bizarra e delirante. Em suas setecentas páginas, dezenas de portugueses, holandeses, índios canibais, escravos de engenho, visitantes extraterrestres, divindades do candomblé e criaturas de nosso folclore protagonizam uma batalha titânica. Para dar conta dessa diversidade cultural, o discurso do narrador também muda ao longo do romance, adotando todos os registros imagináveis: solene, filosófico, científico, coloquial, satírico etc. O autor ainda inventou três novos idiomas para conferir mais credibilidade aos extraterrestres, às divindades e às criaturas folclóricas.

Triste fim de Policarpo Quaresma
Romance de história alternativa de Lima Barreto
Nesse folhetim quase publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, entre agosto e outubro de 1911, a República dos Estados Unidos do Brasil não foi proclamada, o governo provisório do marechal Deodoro da Fonseca nunca existiu e dom Pedro II ainda é o nosso jubiloso soberano. Nesse contexto alternativo, o major Policarpo Quaresma é o idealista ingênuo que, cooptado por uma organização revolucionária, recebe a missão de assassinar o imperador. Quaresma erra o alvo, matando acidentalmente o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-Húngaro, provocando assim a Primeira Guerra Mundial. Barrada a tempo pelo editor-chefe do Jornal do Commercio, essa versão do romance foi rapidamente substituída por outra “um pouco menos delirante”, nas palavras do preocupado editor.

Crônica da casa assassinada
Romance sobre invasão alienígena de Lúcio Cardoso
No interior de Minas Gerais, uma névoa senciente, de origem desconhecida, espalha-se pela fazenda da família Menezes, contaminando todos que aí vivem. Logo uma atmosfera de morbidez e angústia domina os protagonistas, que passam a se comportar estranhamente. Entre Nina, Valdo, André e os outros Menezes estabelece-se uma comunicação excêntrica, de natureza telepática. Subitamente vem à tona a história da decadência da família: os casos extraconjugais, os atos violentos, os amores proibidos, as relações incestuosas, as perversões. No final do romance o passado vergonhoso é apagado. Purificados pela névoa, todos perdem a consciência, o espírito. Dos protagonistas apenas o corpo físico permanece: o receptáculo perfeito para a invasão iminente.

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