Archive for agosto \26\UTC 2012

Na Folha de S.Paulo

26/08/2012

Nelson de Oliveira troca de nome e estilo

Por Marco Rodrigo Almeida

Matéria excelente, que tratou com clareza e leveza, ou seja, com sensibilidade, a mudança de nome e estilo. De quebra, o divertido comentário de Marcelino Freire, colhido pelo jornalista, foi extremamente adequado.

Presas e predadores

24/08/2012

A criança passa fome. Os olhos ardem, os ossos doem. Seu cansaço já é uma doença incurável.

Você sente um tremor, uma vertigem. Nunca viu algo assim: a miséria na calçada.

A criança passa fome e morrerá em poucos dias. O velho caído ao lado da criança parece estar num aquário, se afogando. O peito, a garganta e a língua buscam oxigênio mas só encontram água. Invisível água.

Meia hora atrás você estava num mundo perfeito. Então algo mudou. Você estava num mundo perfeito que sequer sabia que era perfeito. O que poderia ser mais coerente com a perfeição do que a ignorância?

Então um tornado atravessou teu crânio e arrebatou tua mente.

Agora você está aqui.

O que mudou?

Nada mudou. Tudo mudou.

No início você não percebeu qualquer diferença. O reflexo no espelho do banheiro era o seu reflexo, a mulher na cama de casal era a sua mulher. Os filhos pequenos eram os seus filhos, a cidade do outro lado da janela era a sua cidade.

Então você sentiu o cheiro de peixe podre. De pobreza.

Repugnância.

Você sentiu o cheiro de peixe podre e viu a criança na calçada. A criança e o velho.

Horror. É preciso fazer alguma coisa. Você avança, logo recua, o cheiro. Fazer o quê? Você não sabe ajudar as pessoas. Nunca aprendeu. De onde você vem nunca foi preciso ajudar ninguém.

O fedor de peixe podre não emana só da criança e do velho na calçada. Ele emana da cidade toda.

Você não sabe quando começou a vomitar. Não sabe nem como conseguiu voltar ao apartamento. Uma cobertura moderna, suntuosa, agora desagradável.

Você conta tudo a sua mulher. A criança, o velho, a podridão geral.

Ela não sabe o que dizer, como confortar você, interromper os soluços. O mundo sempre foi assim: presas e predadores.

Você grita: não. O mundo nunca foi assim.

Algo aconteceu, meu amigo, algo enlouqueceu. Ou todo mundo apodreceu de repente, menos você, ou você foi trocado de mundo.

Sua mulher não entende.

Ela não sabe que de onde você vem as pessoas não roubam as pessoas, não torturam as pessoas, não violentam as pessoas, não consomem as pessoas. Como poderia saber?

Só então você lembra do tornado.

O golpe na base do crânio, o arrastão, a mente sendo levada pra longe.

Você lembra e tenta respirar. Também está se afogando, feito o velho no aquário invisível.

Sua mulher abre bem a janela, o vento entra. Nessa hora vocês avistam entre as nuvens o contorno difuso da outra Terra. Bela. Majestosa.

O disco azul pálido. Nosso planeta-reflexo, perfeito.

*     *     *

[ O miniconto acima é um modesto tributo ao sublime longa-metragem dirigido por Mike Cahill, com Brit Marling e William Mapother nos papéis principais. Fazia tempo que eu não via um filme tão bacana sobre duplos (os mais refinados preferem dizer doppelgänger). O roteiro saiu da mente e das mãos de Cahill & Marling e a premissa é a mesma do longa-metragem Odisséia para além do sol, de Robert Parrish, de 1969. Enquanto saboreava cada cena de A outra Terra, ficava pensando, só de farra, num final alternativo para o romance Sozinho no deserto extremo: outra Terra surgindo no céu e Davi, intrigado com mais esse fenômeno, matutando se a maioria das pessoas desaparecidas não teria sido transportada pra lá. ]

Setenta anos

18/08/2012

O ficcionista e tradutor paulistano Petê Rissatti, especialista na obra de Fernando Sabino, fez uma importante descoberta: o clássico O encontro marcado era pra ser um romance de ficção científica distópica. Sabino revela essa intenção em duas longas cartas endereçadas ao jornalista Paulo Mendes Campos (a primeira carta) e ao editor Ênio Silveira (a segunda). Rissatti encontrou as duas cartas enquanto pesquisava pra sua tese de doutorado sobre o romance brasileiro urbano. O que levou o escritor mineiro a mudar de ideia sobre a trama de sua principal obra, ninguém sabe. O que sabemos com certeza é que, se o plano inicial tivesse sido mantido, O encontro marcado seria hoje mais uma narrativa essencial da ficção científica brasileira.

O encontro marcado
Romance distópico de Fernando Sabino
Eduardo, rapaz tímido de dezoito anos, com uma grave doença da qual não se encontra diagnóstico seguro na segunda década do século 21, é congelado por seus pais até que a cura seja encontrada. No fim do século, Eduardo é descongelado e descobre um mundo bem diferente do que ele conhecia. Por um lado, sua grave doença já pode ser curada em qualquer farmácia, com dois ou três comprimidos. Por outro, as condições políticas e sociais que encontra no Novo Mundo não são das melhores: na Terra com quinze bilhões de habitantes não existe mais privacidade possível. O espaço para cada ser humano em terra firme foi reduzido a vinte metros quadrados, a água é reprocessada e tem um gosto horrível, a comida é racionada e todos os passos dos cidadãos são controlados por meio de chips e outras parafernálias que Eduardo só conhecia dos romances da sua época. Mas seu maior problema será encontrar o filho de uma relação furtiva com uma vizinha, ocorrida antes de seu congelamento. Filho que agora estaria com setenta anos.

Pesquisa: Petê Rissatti

Entrelinhas

15/08/2012

Quem há de negar que o programa Entrelinhas, apresentado pela atriz Paula Picarelli, foi um dos mais bacanas da TV Cultura? Ninguém. De 2005 a março deste ano, o programa mostrou a um contingente imenso de leitores, não leitores e futuros leitores, que a expressão boa literatura nem sempre é sinônimo de pedantismo e academicismo. Assisti a um sem-número de edições e escutei outro tanto (deixava a tevê ligada até mesmo quando eu precisava finalizar um texto).

Atualmente o Entrelinhas é um quadro do programa Metrópolis e um programa semanal da Cultura FM, sob a responsabilidade do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Recentemente Manuel me convidou pra participar de ambos. As participações já podem ser conferidas na web:

Entrelinhas: Confluências entre Música e Literatura

Entrelinhas: Metrópolis

Convite à solidão

09/08/2012

Fantasmas da irrealidade cotidiana

08/08/2012

A prosa de ficção mais interessante de nosso tempo ainda é sobre a famigerada irrealidade cotidiana, na feliz expressão de Umberto Eco.

Viver na era eletrônica é viver entre fantasmas, situação epistemológica que vem sendo esmiuçada há mais de cem anos por cientistas, filósofos, artistas e escritores.

De que tratam as narrativas de Jennifer Egan — incluindo o mini-romance-folhetim Black box (2012), publicado em fragmentos no twitter — senão de assombrações?

Egan espalhou por seu terceiro romance, O torreão (tradução de Rubens Figueiredo, editora Intrínseca), um bom punhado delas. De todos os tipos, em alta e em baixa definição.

Há assombrações góticas à maneira de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft. Há outras, mais rurais, à maneira de Juan Rulfo e Gabriel García Márquez. E há também as pós-modernas, à maneira de Roberto Bolaño e Thomas Pynchon.

A certa altura do romance, Howard, um dos protagonistas, pergunta ao primo: “O que é real, Danny? Os programas de reality show são reais? As confissões que a gente lê na internet são reais?”

E ele mesmo responde: “A antiquada realidade é coisa do passado. Acabou, c’est fini…”

Jennifer Egan esbalda-se, interpondo vários níveis de irrealidade entre os cinco sentidos do atordoado Danny e o mundo que o cerca. Um mundo muitas vezes kitsch, sentimental demais.

Howard, num surto de luddismo, comprou um castelo na Europa e planeja transformá-lo num hotel muito especial. Quer que o local seja uma verdadeira experiência mística. De que maneira? Expulsando toda a parafernália tecnológica: celulares, computadores, televisão etc.

Mas Danny é um perfeito ciborgue, se o leitor tiver em mente a noção de pós-humano da antropóloga Donna Haraway. Viciado em gadgets e conexões, agora em plena crise de abstinência, ele começa a ver e ouvir coisas.

Parte da graça desse romance está nessa inversão. Desplugado da irrealidade eletrônica, produtora de fantasmas próprios, Danny tem de conviver com os proverbiais espectros de um castelo medieval.

Mas tudo pode não passar de ficção.

Afinal a história de Danny e Howard é — aparentemente — só literatura. É o manuscrito de um presidiário, Ray, produzido durante um curso de escrita criativa na prisão. Uma narrativa inquietante endereçada à sua professora, Holly.

O torreão saiu em 2006. Em seu romance seguinte, A visita cruel do tempo (2010), Jennifer Egan continuou brincando com a ambiguidade das relações afetivas e das matrizes literárias.

Dessa vez ela optou pela estrutura fix up: capítulos que podem ser lidos como contos. Já lançado no Brasil, A visita cruel do tempo recebeu o prêmio Pulitzer de ficção.

[ Publicado originalmente na Ilustrada de 7 de julho de 2012 ]

Doze microcontos

02/08/2012

Supremo supermercado
Com dificuldade ele encontra todos os itens da lista, menos os olhos e o rosto novo, pele clara, tamanho médio, diurno-noturno. Mais uma semana sem olhos, sem rosto, meu Deus?

Alien
Esse aí não é mesmo o homem com quem casei. Ai, será que trocaram meu marido? Aviso as autoridades? Melhor ficar quieta, senão vão querer destrocar.

Paradoxo Édipo
Ele viaja ao passado. Apaixona-se pela própria mãe, ainda jovem. Tem um filho com ela: ele mesmo. É a cara do pai, dizem.

Um velho engenheiro
Projetou a mulher ideal: J4N9. Jovem, sedutora e inteligente. Inteligente até demais. Azar. Logo ela se livrou dele e projetou um trio de T4RZ4Ns ideais.

Transplante
Um rim? Não, amorzinho. Nem um naco do seu fígado. Nem córneas ou medula óssea. É do teu espírito que eu preciso, só metade. Você doa pra mamãe?

Game
Ele faz um gesto com o indicador, um país desaparece. Ela faz um gesto com o polegar, um continente é destruído. Chegam os generais em pânico: naaauuum, a nova arma secreta! quem deixou?

“Elementar, meu caro Wilson.”
Não, doutora Cuddy. A senhora está errada. Jamais, em momento algum, Sherlock House disse essa frase.

Zôo holográfico
Parecem reais… Caraca, um dinossauro per, fei, to. Uau, um ciclope per, fei, to. Putz, um dragão per, fei, to. Epa, esse leão não está bom. Tá meia-boca. Não parece de verdade. Uau, aiaiai, meu braço!

O último homem
Com o sumiço das pessoas, a terrível solidão. Desespero. Uma arma vai resolver tudo, ele pensa. Encontra um revólver. E passa os dias vazando as janelas.

Telepatia
O chip em meu cérebro recebe e envia pensamentos. Hackers invadem o sistema. Enchem minha cabeça da pornografia mais abjeta. Ó Jesus, obrigado!

Lixão
Mergulha na matéria orgânica-inorgânica. Dá braçadas feito um campeão olímpico. Tenta chegar ao terraço do edifício quase inteiramente submerso. Mas é tragado pelas sereias das fossas industriais.

Introspecção
Trancou-se na sala de cirurgia. Abriu o próprio peito de cima a baixo. Estarreceu-se com o que encontrou: uma consciência maltrapilha e abobada, que era a sua cara.