Fantasmas da irrealidade cotidiana

A prosa de ficção mais interessante de nosso tempo ainda é sobre a famigerada irrealidade cotidiana, na feliz expressão de Umberto Eco.

Viver na era eletrônica é viver entre fantasmas, situação epistemológica que vem sendo esmiuçada há mais de cem anos por cientistas, filósofos, artistas e escritores.

De que tratam as narrativas de Jennifer Egan — incluindo o mini-romance-folhetim Black box (2012), publicado em fragmentos no twitter — senão de assombrações?

Egan espalhou por seu terceiro romance, O torreão (tradução de Rubens Figueiredo, editora Intrínseca), um bom punhado delas. De todos os tipos, em alta e em baixa definição.

Há assombrações góticas à maneira de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft. Há outras, mais rurais, à maneira de Juan Rulfo e Gabriel García Márquez. E há também as pós-modernas, à maneira de Roberto Bolaño e Thomas Pynchon.

A certa altura do romance, Howard, um dos protagonistas, pergunta ao primo: “O que é real, Danny? Os programas de reality show são reais? As confissões que a gente lê na internet são reais?”

E ele mesmo responde: “A antiquada realidade é coisa do passado. Acabou, c’est fini…”

Jennifer Egan esbalda-se, interpondo vários níveis de irrealidade entre os cinco sentidos do atordoado Danny e o mundo que o cerca. Um mundo muitas vezes kitsch, sentimental demais.

Howard, num surto de luddismo, comprou um castelo na Europa e planeja transformá-lo num hotel muito especial. Quer que o local seja uma verdadeira experiência mística. De que maneira? Expulsando toda a parafernália tecnológica: celulares, computadores, televisão etc.

Mas Danny é um perfeito ciborgue, se o leitor tiver em mente a noção de pós-humano da antropóloga Donna Haraway. Viciado em gadgets e conexões, agora em plena crise de abstinência, ele começa a ver e ouvir coisas.

Parte da graça desse romance está nessa inversão. Desplugado da irrealidade eletrônica, produtora de fantasmas próprios, Danny tem de conviver com os proverbiais espectros de um castelo medieval.

Mas tudo pode não passar de ficção.

Afinal a história de Danny e Howard é — aparentemente — só literatura. É o manuscrito de um presidiário, Ray, produzido durante um curso de escrita criativa na prisão. Uma narrativa inquietante endereçada à sua professora, Holly.

O torreão saiu em 2006. Em seu romance seguinte, A visita cruel do tempo (2010), Jennifer Egan continuou brincando com a ambiguidade das relações afetivas e das matrizes literárias.

Dessa vez ela optou pela estrutura fix up: capítulos que podem ser lidos como contos. Já lançado no Brasil, A visita cruel do tempo recebeu o prêmio Pulitzer de ficção.

[ Publicado originalmente na Ilustrada de 7 de julho de 2012 ]

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