Presas e predadores

A criança passa fome. Os olhos ardem, os ossos doem. Seu cansaço já é uma doença incurável.

Você sente um tremor, uma vertigem. Nunca viu algo assim: a miséria na calçada.

A criança passa fome e morrerá em poucos dias. O velho caído ao lado da criança parece estar num aquário, se afogando. O peito, a garganta e a língua buscam oxigênio mas só encontram água. Invisível água.

Meia hora atrás você estava num mundo perfeito. Então algo mudou. Você estava num mundo perfeito que sequer sabia que era perfeito. O que poderia ser mais coerente com a perfeição do que a ignorância?

Então um tornado atravessou teu crânio e arrebatou tua mente.

Agora você está aqui.

O que mudou?

Nada mudou. Tudo mudou.

No início você não percebeu qualquer diferença. O reflexo no espelho do banheiro era o seu reflexo, a mulher na cama de casal era a sua mulher. Os filhos pequenos eram os seus filhos, a cidade do outro lado da janela era a sua cidade.

Então você sentiu o cheiro de peixe podre. De pobreza.

Repugnância.

Você sentiu o cheiro de peixe podre e viu a criança na calçada. A criança e o velho.

Horror. É preciso fazer alguma coisa. Você avança, logo recua, o cheiro. Fazer o quê? Você não sabe ajudar as pessoas. Nunca aprendeu. De onde você vem nunca foi preciso ajudar ninguém.

O fedor de peixe podre não emana só da criança e do velho na calçada. Ele emana da cidade toda.

Você não sabe quando começou a vomitar. Não sabe nem como conseguiu voltar ao apartamento. Uma cobertura moderna, suntuosa, agora desagradável.

Você conta tudo a sua mulher. A criança, o velho, a podridão geral.

Ela não sabe o que dizer, como confortar você, interromper os soluços. O mundo sempre foi assim: presas e predadores.

Você grita: não. O mundo nunca foi assim.

Algo aconteceu, meu amigo, algo enlouqueceu. Ou todo mundo apodreceu de repente, menos você, ou você foi trocado de mundo.

Sua mulher não entende.

Ela não sabe que de onde você vem as pessoas não roubam as pessoas, não torturam as pessoas, não violentam as pessoas, não consomem as pessoas. Como poderia saber?

Só então você lembra do tornado.

O golpe na base do crânio, o arrastão, a mente sendo levada pra longe.

Você lembra e tenta respirar. Também está se afogando, feito o velho no aquário invisível.

Sua mulher abre bem a janela, o vento entra. Nessa hora vocês avistam entre as nuvens o contorno difuso da outra Terra. Bela. Majestosa.

O disco azul pálido. Nosso planeta-reflexo, perfeito.

*     *     *

[ O miniconto acima é um modesto tributo ao sublime longa-metragem dirigido por Mike Cahill, com Brit Marling e William Mapother nos papéis principais. Fazia tempo que eu não via um filme tão bacana sobre duplos (os mais refinados preferem dizer doppelgänger). O roteiro saiu da mente e das mãos de Cahill & Marling e a premissa é a mesma do longa-metragem Odisséia para além do sol, de Robert Parrish, de 1969. Enquanto saboreava cada cena de A outra Terra, ficava pensando, só de farra, num final alternativo para o romance Sozinho no deserto extremo: outra Terra surgindo no céu e Davi, intrigado com mais esse fenômeno, matutando se a maioria das pessoas desaparecidas não teria sido transportada pra lá. ]

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