Origem de Cobra Norato

Recentemente os alunos e educadores de um colégio de São Paulo me perguntaram sobre Cobra Norato. Por que a cidade tem esse nome? Quando ela começou a ser construída? Nela existe mesmo uma réplica da Torre de Babel?

A história de Cobra Norato não é das mais simples. Essa cidade não se parece muito com as outras cidades do planeta. Muito instável, bastante temperamental, seu humor está sempre mudando. Ela sabe ser amorosa, quando quer. Mas também sabe ser terrível, às vezes. O amor e o horror são os extremos de sua personalidade inquieta.

Antes de existir Cobra Norato, a cidade, havia Cobra Norato, o morro. Onde? No centro do estado do Pará, enfiado na floresta amazônica.

Os registros não são muito claros quanto à data, mas parece que por volta de 1915 a Sociedade Francesa de Astronomia e Astrofísica propôs ao governo brasileiro a construção de um grande observatório astronômico em terras tupiniquins. Seria o maior e mais sofisticado observatório de toda a América Latina. O local escolhido foi justamente o morro de Cobra Norato, no Pará. Não existia no Brasil ponto mais privilegiado para o estudo das estrelas e galáxias.

Próximo ao morro havia uma aldeia indígena, porém os registros também não são muito claros quanto aos detalhes. A maioria dos especialistas diz que eram da etnia tapuia, mas ninguém sabe exatamente quantos eram. Quem batizou o morro foram eles, dizem esses mesmos especialistas.

Naquele tempo, a lenda dos irmãos gêmeos Honorato e Maria era uma das mais contadas pelos povos da floresta amazônica. Honorato e Maria nasceram enfeitiçados, na forma de duas serpentes escuras, forçadas a viver nos rios. O povo chamava o macho de Cobra Norato e a fêmea de Maria Caninana. Ele era bom e pacífico, ela era má e violenta. Logo se tornaram inimigos mortais. Durante uma luta terrível, o irmão matou a irmã.

Em noite de lua cheia, contavam os velhos e as velhas, Cobra Norato saía da água, deixava o couro da cobra na margem do rio e se transformava num belo rapaz. O encanto estava momentaneamente quebrado. Norato podia ir até a cidade, cantar, dançar, beber, conversar com os outros rapazes, paquerar as moças etc. Mas de madrugada ele era obrigado a entrar novamente no couro da cobra, mergulhar no rio e se afastar. Seu maior desejo — seu sonho inalcançável — era virar gente de uma vez por todas.

O morro foi batizado pelos tapuias em homenagem a esse bondoso e enfeitiçado rapaz. Outra bela homenagem a essa figura folclórica do norte do país é o poema Cobra Norato, de Raul Bopp. O poema, publicado em 1931, é um dos clássicos mais deliciosos de nosso modernismo.

Voltando à história do observatório franco-brasileiro, é preciso dizer que deu tudo errado. A construção foi cheia de incidentes e acidentes. Também não há registros confiáveis sobre isso, as testemunhas oculares já morreram e a papelada desapareceu nos arquivos e depósitos. Não há consenso, mas os historiadores dizem que a sucessão de infortúnios foi a seguinte:

1. Logo no início os tapuias atacaram os engenheiros e operários. Os índios tentavam defender o solo sagrado de Cobra Norato. Muita gente saiu mortalmente ferida dos dois lados.

2. Três semanas depois, parte dos suprimentos de comida e medicamento perdeu-se durante uma violenta tempestade tropical, com direito a enchente e desmoronamento.

3. Vários operários contraíram malária. Um engenheiro-chefe foi picado por uma cobra-coral e morreu. Outro teve um surto de loucura, entrou na floresta e nunca mais foi visto novamente.

4. Faltou material. Os carregamentos de areia, pedra, tijolo, cimento, vigas de madeira e aço atrasavam constantemente. Vários comboios se perderam na floresta.

5. Meses mais tarde um denso nevoeiro cobriu o morro durante semanas, paralisando a obra exatamente na metade. As máquinas pararam. Ninguém conseguia enxergar um palmo adiante do nariz.

O nevoeiro atrapalhou demais a construção e irritou muita gente. Não apenas os engenheiros e operários. O presidente do Brasil e o da França também. Mas não chegou a aterrorizar ninguém. Era um fenômeno da natureza, só isso. O horror, meus amigos, o horror mesmo veio depois. O sexto item foi o pior e o mais espantoso de todos. Estão preparados?

6. No início do inverno o nevoeiro finalmente se dissipou e, tcharam, o morro não estava mais lá. Sobrou apenas um imenso descampado.

Simples assim. Cobra Norato, o morro enfeitiçado, desapareceu do Pará e dez anos mais tarde apareceu, ninguém sabe como, no sul do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.

Por volta de 1940, um magnata do ouro e dos diamantes comprou do governo do Mato Grosso do Sul o morro de Cobra Norato. Nessa época ninguém ainda sabia que o magnata era o grão-mestre de uma confraria secreta chamada Filhos Imortais do Supremo Coração Cósmico. No topo do morro, exatamente no local onde antes havia as ruínas do observatório astronômico, ele ordenou a construção de uma réplica da mítica Torre de Babel. Essa construção foi durante muito tempo a sede de sua confraria.

Aos poucos, nas proximidades da Torre de Babel, foram surgindo casas e prédios. A estrada de terra batida que circundava o morro foi ampliada e pavimentada. Virou avenida. Mais casas e prédios foram aparecendo ao longo dessa avenida, batizada de Oroboro. Assim nasceu a cidade.

O resto da história todos já conhecem. Cobra Norato é uma cidade muito diferente das outras cidades do mundo. Ela não tem muitas ruas e esquinas. Nem qualquer tipo de cruzamento ou bifurcação. Cobra Norato tem uma só via pública, a avenida Oroboro: uma espiral perfeita, como se tivesse sido desenhada com régua, esquadro e compasso. Mas não foi. Trata-se, de fato, de uma única e longa espiral perfeita, porém ninguém sabe dizer como foi que isso aconteceu.

Na década de 50 do século passado, vários incidentes bizarros ocorreram na Torre de Babel e a prefeitura da cidade decidiu interditá-la. Desde então ninguém mais entrou na Torre. Dizem que há um longo túnel ou um elevador passando dentro do morro, ligando a Torre de Babel e a base do morro. Mas até hoje isso não foi confirmado.

Tempos atrás os escritores Alberto Manguel e Gianni Guadalupi lançaram o Dicionário de lugares imaginários. Esse dicionário reúne verbetes sobre os lugares mais fantásticos existentes apenas na arte e na literatura. É um guia de viagens por cidades, países e continentes imaginários: Oz, Nárnia, Shangri-la, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca etc. Não ficarei surpreso se muito em breve Cobra Norato for incluída nessa compilação. Não conheço no Brasil cidade imaginária mais fabulosa do que essa.

Três mistérios ocorridos em Cobra Norato já foram narrados em Ventania bravaBabel Hotel e Sonho, sombras e super-heróis. Nos próximos anos outros livros virão, com novos mistérios para os jovens leitores.

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