Archive for novembro \18\UTC 2012

Bunker

18/11/2012

Homem: Ele não quer abrir a porta.
Mulher: Disse que o perigo ainda não passou.
Rapaz: Que merda. Ele precisa abrir a porta agora.
Garota: Não quero morrer asfixiada.
Segundo homem: Não adianta. Ele não vai abrir.
Segunda mulher: Ele tem certeza que o perigo ainda não passou.
Segundo rapaz: Porra. O velho enlouqueceu, não percebem?
Segunda garota: Temos que pegar a chave.
Homem: Não sei… Se ele estiver certo… Se ainda for perigoso?
Mulher: O fogo, a radioatividade…
Rapaz: Não há fogo algum, não há radioatividade alguma.
Garota: A gente não devia estar aqui.
Segundo homem: Temos que sair de um jeito ou de outro.
Segunda mulher: Eu não quero. Não posso. Ele tem certeza que o perigo ainda não passou.
Segundo rapaz: Besteira. Ele está delirando, não percebem?
Segunda garota: O dia deve estar lindo, lá fora. Não suporto mais este frio, esta penumbra.
Homem: Ele vomitou de novo.
Mulher: A comida deve estar estragada. Ele não devia ter comido o feijão.
Rapaz: Esses enlatados aí? Estão vencidos há semanas. Prefiro morrer de fome.
Garota: Quero sair daqui agora. Não estou agüentando mais.
Segundo homem: Eu vou pegar a chave. Quem vem comigo?
Segunda mulher: Eu comi o feijão e não passei mal.
Segundo rapaz: Eu vou com você.
Segunda garota: Eu também.
Dono do bunker: Aí estão vocês, malditos, conspirando novamente. Tramando pelas minhas costas.
Homem: Fora da cama outra vez, chefe?
Mulher: Você não devia ter comido o feijão. Ah, tá vomitando na camisa…
Rapaz: Ele precisa de um médico, gente.
Garota: Temos que sair daqui agora. Cadê a chave?
Dono do bunker: Ficou louca? Quer morrer?!
Segundo homem: Louco nós estávamos quando seguimos você. Quando aceitamos ficar presos aqui dentro.
Segunda mulher: Gente, eu comi o feijão. Comi sim. E não passei mal.
Segundo rapaz: A chave deve estar no bolso dele.
Segunda garota: Segura os braços, que eu revisto.
Dono do bunker: Solta, desgraçado. Não entendem? Se vocês abrirem a porta nós morremos. A chuva radioativa, a água ácida. O vento corrosivo. O vento! O calor, estão entendendo? O calor. Vamos derreter feito bonecos de cera.
Homem: Parem. Vocês estão machucando o coitado. Vamos conversar. Se ele estiver certo… Se ainda for perigoso?
Mulher: Ah, tá vomitando de novo.
Dono do bunker: Solta, caralho! Se vocês abrirem a porta, mesmo só um pouquinho, nós morremos.
Rapaz: A chave não está no bolso. Ele deve ter escondido nos armários.
Garota: Ou num cofre secreto.
Dono do bunker: Desgraçados. Nós vamos morreeeeeer…
Segundo homem: Cuidado. Ele pegou uma faca.
Segunda mulher: Calma, chefe. Não.
Segundo rapaz: Velho louco. Assassino. Assas…
Segunda garota: Não, chefe.

Duas semanas depois, batidas na porta de aço.
Mais forte, mais forte ainda. A tranca explode.
Três homens entram. O cheiro é insuportável.
Uma lanterna devassa a escuridão.

Policial: Isso aqui é enorme. Como foi que ele construiu?
Bombeiro: Gastando todas as economias, dizem.
Vizinho: Ele passou dez meses trabalhando sem descanso. Avisava que uma tempestade terrível estava chegando. Que todo mundo morreria. Quando o abrigo ficou pronto, ele se trancou aqui embaixo.
Policial: Onde ele está?
Bombeiro: Aqui.
Vizinho: Essa não… Que merda.
Policial: Sangrou até a morte.
Bombeiro: Havia mais alguém com ele?
Vizinho: Não. Ele se trancou sozinho.

*     *     *

[ Este miniconto homenageia O abrigo (2011), excelente filme de Jeff Nichols, com Michael Shannon no papel principal. O personagem de Shannon tem visões obsessivas sobre o fim do mundo e, pra salvar a família, constrói um bunker no quintal de casa. Meu miniconto deve ser encarado como um final alternativo — quase uma fanfic — tão terrível quanto o final do filme. ]

André Carneiro no jornal Cândido

08/11/2012

A convite do jornal Cândido, entrevistei o escritor e artista plástico André Carneiro, um dos precursores da ficção científica no Brasil, radicado em Curitiba há mais de uma década.

André Carneiro, o peregrino das dimensões simbólicas

Escritas em Trânsito

01/11/2012

Em breve, eu + Angélica Freitas + Carlito Azevedo + Fabiano Calixto + Fabrício Corsaletti + Marcelino Freire + Ricardo Aleixo + Ricardo Chacal + Veronica Stigger iremos coordenar minioficinas de criação literária em Salvador, integrando mais um maravilhoso projeto da Fundação Cultural do Estado da Bahia.