Archive for fevereiro \17\UTC 2013

Lem e a impossibilidade de comunicação

17/02/2013

Uma das mais assombrosas e filosóficas representações já realizadas de uma criatura alienígena é a do polonês Stanislaw Lem, apresentada em seu romance mais célebre, Solaris, publicado em 1961. Lem imaginou um vasto oceano vivo, senciente, capaz de reagir à atividade humana do modo mais assustador: materializando nossas projeções mentais de natureza inconsciente.

Entre o oceano e os pesquisadores humanos jamais se estabelece qualquer tipo de comunicação. Não há diálogo. A criatura reage à nossa presença de um modo incompreensível. Essa é a reflexão de Lem sobre o primeiro contato entre nossa espécie e uma espécie alienígena: talvez a troca de experiências seja impossível.

Solaris foi adaptado duas vezes para as telas: em 1972 por Andrei Tarkovski e em 2002 por Steven Soderbergh. Porém, devido ao caráter simplificador do cinema, sempre afeito a condensar e resumir um enredo, nos dois filmes certos detalhes importantes do romance foram deixados de lado.

Tarkovski e Soderbergh concentraram-se no conflito gerado pelas cópias de pessoas mortas ou ausentes, que o oceano materializa pra cada tripulante da estação de pesquisa. Mas deixaram passar batidas muitas outras manifestações da imensa criatura líquida. No romance, o oceano freqüentemente cria em sua superfície formações monstruosas e enigmáticas, sem qualquer função aparente, que os cientistas batizaram de extensores, fungóides, mimóides e simetríades. As mais belas e misteriosas talvez sejam as últimas:

“Imaginem um palácio que datasse dos grandes dias da Babilônia, mas construído com alguma substância viva e sensível, com a capacidade de evoluir: a arquitetura desse edifício atravessa uma série de fases, e nós o vemos assumir as formas de um edifício grego e depois a de um romano. As colunas crescem como galhos e tornam-se mais estreitas, o telhado sobe, arqueia-se, curva-se; o arco descreve uma parábola abrupta, depois sucumbe em forma de seta: nasce o estilo gótico, que chega à maturidade e, no devido tempo, dá passagem a novas formas. A austeridade abre caminho a uma confusão de linhas e formas que se rompem: surge o barroco. Se a progressão continua — e as sucessivas mutações devem ser vistas como estágios na vida de um organismo em evolução —, chegamos finalmente à arquitetura da era espacial, e talvez também a alguma compreensão da simetríade. Infelizmente, a comparação permanece superficial, não importando como essa demonstração possa ser desenvolvida e aperfeiçoada (houve tentativas de visualizá-la com a ajuda de modelos e filmes). Ela é evasiva e ilusória, e evita o fato central de que a simetríade é completamente diferente de qualquer coisa que a Terra já produziu.” (Tradução de Reinaldo Guarany para a edição do Círculo do Livro)

Sebastian Barry na Folha de S.Paulo

16/02/2013

sebastian barry

Drummond e a ficção científica

08/02/2013

MaquinaDoMundo

Num dos mais belos poemas da língua portuguesa, um homem comum, sem qualidades salientes, encontra uma criatura fabulosa de origem desconhecida, talvez extraterrestre, talvez vinda do futuro, não dá pra ter certeza. O tema desse poema é o susto do ser humano ao se confrontar com o sobre-humano, com o infinito. Tão amedrontado fica o sujeito diante da criatura gigantesca, onipotente e onipresente, que sua única reação é desviar o olhar, recusar o conhecimento absoluto que generosamente está sendo oferecido.

A máquina do mundo, de Drummond, foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a convite do caderno MAIS da Folha de S.Paulo (edição de 2 de janeiro de 2000), na época publicado aos domingos. O poema pertence à coletânea Claro enigma, de 1951.

É óbvio que a máquina do mundo do poema de Drummond é a mesma figura alegórica que encontramos em textos bastante diversos, difundidos desde a Antiguidade até a Renascença. Para as tradições antigas, a universal máquina do mundo era o intrincado mecanismo do cosmo, de natureza antropocêntrica. Eram, por exemplo, as esferas celestes de Ptolomeu, que a deusa Tétis apresentou a Vasco da Gama, no poema máximo de Camões.

Porém, ao interpretar o poema de Drummond, nada me obriga a aceitar apenas a visão alegórica, figurada. Posso muito bem trocá-la pela visão realista, literal. A máquina do mundo corporifica-se. Onde os antigos e os renascentistas enxergavam uma representação poética e até religiosa da estrutura do cosmo, eu enxergo uma criatura inquietante, uma inteligência alienígena, meio orgânica meio artificial, originária de outra galáxia ou de outro universo.

Ou seja, o que me impede de seqüestrar o poema de Drummond do território da metafísica e acomodá-lo gentilmente no território hoje muito mais interessante da ficção científica?

Workshop na Ofício das Palavras

07/02/2013

OfícioDasPalavras

Realidade expandida: workshop de ficção e poesia

O aqui e o agora percebidos pelos cinco sentidos configuram o que podemos chamar de realidade de primeira ordem. Já a literatura, a arte, a filosofia, a ciência e a religião, ao expandirem nossa percepção da natureza e do ser humano, configuram a realidade – ou as realidades – de segunda ordem.

De que maneira a melhor ficção e a melhor poesia de nosso tempo constroem passarelas e portais para essas realidades alternativas, de segunda ordem? É sobre isso que o ficcionista e ensaísta Luiz Bras falará em seu primeiro workshop na Ofício das Palavras.

Será um encontro teórico e prático, em que o escritor dividirá com os participantes, por meio de reflexões e rápidos exercícios de criação, um pouco do que aprendeu ao longo de vinte anos de atividade literária.

Público-alvo: escritores diletantes (poetas e prosadores), com obra ainda em formação, estudantes e pessoas interessadas em aprimorar suas habilidades no uso da linguagem literária.

Dia 23 de fevereiro, sábado
Das 14h às 18h
Investimento: R$ 250,00

Ofício das Palavras
R. Capote Valente, 1232
Vila Madalena – São Paulo – SP
Telefone: (11) 3473-7674
www.oficiodaspalavras.com.br

Chinua Achebe na Folha de S.Paulo

03/02/2013

Achebe