Drummond e a ficção científica

MaquinaDoMundo

Num dos mais belos poemas da língua portuguesa, um homem comum, sem qualidades salientes, encontra uma criatura fabulosa de origem desconhecida, talvez extraterrestre, talvez vinda do futuro, não dá pra ter certeza. O tema desse poema é o susto do ser humano ao se confrontar com o sobre-humano, com o infinito. Tão amedrontado fica o sujeito diante da criatura gigantesca, onipotente e onipresente, que sua única reação é desviar o olhar, recusar o conhecimento absoluto que generosamente está sendo oferecido.

A máquina do mundo, de Drummond, foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a convite do caderno MAIS da Folha de S.Paulo (edição de 2 de janeiro de 2000), na época publicado aos domingos. O poema pertence à coletânea Claro enigma, de 1951.

É óbvio que a máquina do mundo do poema de Drummond é a mesma figura alegórica que encontramos em textos bastante diversos, difundidos desde a Antiguidade até a Renascença. Para as tradições antigas, a universal máquina do mundo era o intrincado mecanismo do cosmo, de natureza antropocêntrica. Eram, por exemplo, as esferas celestes de Ptolomeu, que a deusa Tétis apresentou a Vasco da Gama, no poema máximo de Camões.

Porém, ao interpretar o poema de Drummond, nada me obriga a aceitar apenas a visão alegórica, figurada. Posso muito bem trocá-la pela visão realista, literal. A máquina do mundo corporifica-se. Onde os antigos e os renascentistas enxergavam uma representação poética e até religiosa da estrutura do cosmo, eu enxergo uma criatura inquietante, uma inteligência alienígena, meio orgânica meio artificial, originária de outra galáxia ou de outro universo.

Ou seja, o que me impede de seqüestrar o poema de Drummond do território da metafísica e acomodá-lo gentilmente no território hoje muito mais interessante da ficção científica?

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