Lem e a impossibilidade de comunicação

Uma das mais assombrosas e filosóficas representações já realizadas de uma criatura alienígena é a do polonês Stanislaw Lem, apresentada em seu romance mais célebre, Solaris, publicado em 1961. Lem imaginou um vasto oceano vivo, senciente, capaz de reagir à atividade humana do modo mais assustador: materializando nossas projeções mentais de natureza inconsciente.

Entre o oceano e os pesquisadores humanos jamais se estabelece qualquer tipo de comunicação. Não há diálogo. A criatura reage à nossa presença de um modo incompreensível. Essa é a reflexão de Lem sobre o primeiro contato entre nossa espécie e uma espécie alienígena: talvez a troca de experiências seja impossível.

Solaris foi adaptado duas vezes para as telas: em 1972 por Andrei Tarkovski e em 2002 por Steven Soderbergh. Porém, devido ao caráter simplificador do cinema, sempre afeito a condensar e resumir um enredo, nos dois filmes certos detalhes importantes do romance foram deixados de lado.

Tarkovski e Soderbergh concentraram-se no conflito gerado pelas cópias de pessoas mortas ou ausentes, que o oceano materializa pra cada tripulante da estação de pesquisa. Mas deixaram passar batidas muitas outras manifestações da imensa criatura líquida. No romance, o oceano freqüentemente cria em sua superfície formações monstruosas e enigmáticas, sem qualquer função aparente, que os cientistas batizaram de extensores, fungóides, mimóides e simetríades. As mais belas e misteriosas talvez sejam as últimas:

“Imaginem um palácio que datasse dos grandes dias da Babilônia, mas construído com alguma substância viva e sensível, com a capacidade de evoluir: a arquitetura desse edifício atravessa uma série de fases, e nós o vemos assumir as formas de um edifício grego e depois a de um romano. As colunas crescem como galhos e tornam-se mais estreitas, o telhado sobe, arqueia-se, curva-se; o arco descreve uma parábola abrupta, depois sucumbe em forma de seta: nasce o estilo gótico, que chega à maturidade e, no devido tempo, dá passagem a novas formas. A austeridade abre caminho a uma confusão de linhas e formas que se rompem: surge o barroco. Se a progressão continua — e as sucessivas mutações devem ser vistas como estágios na vida de um organismo em evolução —, chegamos finalmente à arquitetura da era espacial, e talvez também a alguma compreensão da simetríade. Infelizmente, a comparação permanece superficial, não importando como essa demonstração possa ser desenvolvida e aperfeiçoada (houve tentativas de visualizá-la com a ajuda de modelos e filmes). Ela é evasiva e ilusória, e evita o fato central de que a simetríade é completamente diferente de qualquer coisa que a Terra já produziu.” (Tradução de Reinaldo Guarany para a edição do Círculo do Livro)

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