Archive for abril \29\UTC 2013

Invasão alienígena no jornal Opção

29/04/2013

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Humano-pós-humano

27/04/2013

Pela primeira vez em nossa longa história, depois de humanizar praticamente todo o planeta, o ser humano está começando a modificar fisicamente o próprio ser humano. Na verdade, pra muitos artistas, filósofos e cientistas, estamos hoje no limiar de uma nova revolução: o pós-humanismo.

Uma das reflexões mais interessantes sobre o assunto está no livro Humano-pós-humano: bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade, do ensaísta e pesquisador Alexandre Quaresma. Quem ainda não leu precisa correr atrás. Esse trabalho de fôlego é uma ampliação do inquietante artigo publicado na revista virtual Z Cultural, intitulado Humano-pós-humano: flagelos e perspectivas de um ser em metamorfose.

A primeira grande revolução tecnológica aconteceu com a invenção da linguagem. A segunda, com a invenção da escrita. Nossa espécie nunca mais foi a mesma, sua realidade expandiu-se.

O cientista Carl Sagan observou que, com a invenção da escrita, nosso poder de memorização foi multiplicado infinitamente. A memória humana, até então restrita ao cérebro e aos genes, projetou-se pra fora do corpo e foi parar também nos livros. Houve uma explosão de criatividade em todas as áreas do conhecimento.

A terceira revolução tecnológica, o pós-humanismo, promete um salto evolutivo tão radical e perturbador quanto o das duas primeiras revoluções. Contra a noção permanente de entropia, começa a circular a de extropia. Em laboratórios do mundo todo a tecnociência e a biotecnologia estão manipulando, para o bem e para o mal, os múltiplos níveis possíveis de nossa humanidade.

– Drogas da longevidade e da inteligência estão aumentando a expectativa de vida das pessoas. Espera-se que as próximas gerações vivam saudavelmente duzentos anos ou mais.
– Implantes oculares e auditivos estão permitindo a cegos e surdos voltar a enxergar e ouvir. Na verdade, em breve eles enxergarão e ouvirão muito melhor do que as pessoas ditas normais.
– Tetraplégicos estão voltando a ficar em pé, andar e mover os braços, graças à combinação de um implante neural e um exoesqueleto.
– A engenharia genética está cultivando em laboratório ossos e órgãos humanos pra transplantes. Também está perigosamente muito perto de uma nova eugenia, se os futuros pais começarem a escolher as características genéticas dos filhos.
– Nano-robôs estão sendo desenvolvidos para patrulhar nossa corrente sangüínea em busca de possíveis doenças. Essas nanomáquinas serão capazes, por exemplo, de exterminar células cancerosas bem antes da formação de um tumor.
– Implantes neurais também estão transformando a internet e o celular numa extensão de nossa mente. Conversar com outras pessoas em breve será uma forma de telepatia.

Aí está um excelente desafio também pra nossos poetas e ficcionistas. Expressar em poemas, contos e romances terríveis, apaixonados, políticos, desmistificadores, irônicos, herméticos, imagéticos, escatológicos, arrebatadores, sub-reptícios, aflitos ou otimistas a questão do pós-humanismo. Refletir em prosa e verso sobre a maneira como a tecnociência e a biotecnologia estão modificando fisicamente o ser humano. Para o bem e para o mal.

Zola e Kadaré na Folha de S.Paulo

21/04/2013

Zola

Kadare

Coetzee na Folha de S.Paulo

15/04/2013

Coetzee

Verdades nada provisórias

04/04/2013

Toda arte é um jogo com o caos e uma luta contra ele; está sempre avançando cada vez mais perigosamente para o caos e resgatando de suas garras províncias cada vez mais extensas do espírito. Se existe qualquer progresso na história da arte, então este consiste no crescimento constante dessas províncias arrancadas do caos. (pág. 978)

O problema não consiste em confinar a arte ao horizonte atual das grandes massas, mas em ampliar o horizonte das massas tanto quanto possível. O caminho para a apreciação autêntica da arte passa pela educação. Não a simplificação violenta da arte, mas o treinamento da capacidade de julgamento estético é o meio pelo qual se pode impedir a constante monopolização da arte por uma pequena minoria. (pág. 992)

O crítico Arnold Hauser proferiu essas verdades nada provisórias no final de sua História social da arte e da literatura, lançada em 1950.

Vigiar e punir

02/04/2013

HertaMuller

Chegam às livrarias brasileiras a opressão e a corrosão de um país tiranizado. Vêm na forma de dois romances marcadamente políticos de Herta Müller, nascida na Romênia em 1953 e vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2009.

Separados por quase uma década – O homem é um grande faisão no mundo (tradução de Tercio Redondo, editora Companhia das Letras) é de 1986 e Fera d’alma (tradução de Claudia Abeling, editora Globo), de 1994 –, ambos tratam do mesmo tema: as terríveis condições de vida no país natal da escritora, sob o regime comunista de Nicolae Ceaucescu, de 1965 a 1989.

Invenção e memória desvelam a violência cotidiana. Nas duas incursões pela terra devastada, a biografia da romancista se mistura dolorosamente com a ficção. Trata-se de uma mistura retorcida, que deixa tudo fora de foco, sem contornos.

Na Romênia pós-Segunda Guerra Mundial, teve início um período de horror e penúria para todos, mas principalmente para a minoria alemã, à qual a escritora pertence.

Seu pai, um nazista ativo, integrante da SS, jamais se arrependeu de seus crimes de guerra, e sua mãe, por conta desse envolvimento amoroso, após o fim do conflito armado foi deportada para um gulag na Ucrânia, de onde retornou em 1950. Não foi sozinha. Milhares a acompanharam. Afinal, Stálin exigia que as pessoas de origem alemã, ligadas ou não ao nazismo, trabalhassem na reconstrução da União Soviética. A traumática realidade nos campos de trabalho forçado foi retratada no romance Tudo o que tenho levo comigo, publicado aqui em 2011.

Antes de conseguir a autorização para emigrar para a Alemanha, o que só ocorreu em 1987, Herta Müller foi perseguida, presa e torturada pela Securitate, a infame polícia secreta do regime comunista. Por meio do esfacelamento lírico, toda a sua literatura transforma a memória dessa opressão pessoal em denúncia da corrosão política e social.

Semelhantes no tema, O homem é um grande faisão no mundo e Fera d’alma são muito diferentes no estilo e na linguagem. Cada qual se vinga do regime de exceção de Ceaucescu à sua maneira.

No primeiro romance, uma família romeno-alemã, vivendo num vilarejo modesto, aguarda uma autorização para emigrar para a Alemanha. Onde há escassez de liberdade e justiça sempre há corrupção. Tudo tem um preço. Se falta dinheiro para o suborno, qualquer documento, até mesmo uma simples certidão de batismo, pode ser pago com víveres ou sexo.

Capítulos curtos mostram o dia a dia estagnado de Windisch, sua mulher e sua filha, seus amigos e desafetos. São uma coleção propositadamente mal costurada de histórias, paranoias, barganhas e superstições. A pobreza narrativa, intencional, acentua a sensação de aridez nessa comunidade policiada. Diálogos e refrões ásperos, muitas vezes soltos no ar, compõem um mosaico cubista do que, de outro modo, seria um medíocre retrato naturalista.

O estilo e a linguagem de Fera d’alma são mais coloridos e sedutores. Mas isso não significa que as situações narradas sejam menos desprezíveis. Muito pelo contrário. A atmosfera de desespero, minuciosamente descrita, é até mais sufocante.

Agora as vítimas do estado policial são cinco estudantes que sonham com uma vida digna longe da ditadura romena, enquanto os agentes da Securitate aterrorizam todos os que discordam do regime, sejam eles militantes ou não. O romance acompanha a acelerada desorganização emocional dos jovens, após o suposto suicídio de Lola, amiga da narradora.

Em O homem é um grande faisão no mundo e Fera d’alma, Herta Müller evita o rigor documental próprio do historiador. A romancista está convencida de que fragmentar o discurso ficcional é mais eficaz, como arma política, do que apenas narrar ou descrever objetivamente.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de março de 2013 ]