Vigiar e punir

HertaMuller

Chegam às livrarias brasileiras a opressão e a corrosão de um país tiranizado. Vêm na forma de dois romances marcadamente políticos de Herta Müller, nascida na Romênia em 1953 e vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2009.

Separados por quase uma década – O homem é um grande faisão no mundo (tradução de Tercio Redondo, editora Companhia das Letras) é de 1986 e Fera d’alma (tradução de Claudia Abeling, editora Globo), de 1994 –, ambos tratam do mesmo tema: as terríveis condições de vida no país natal da escritora, sob o regime comunista de Nicolae Ceaucescu, de 1965 a 1989.

Invenção e memória desvelam a violência cotidiana. Nas duas incursões pela terra devastada, a biografia da romancista se mistura dolorosamente com a ficção. Trata-se de uma mistura retorcida, que deixa tudo fora de foco, sem contornos.

Na Romênia pós-Segunda Guerra Mundial, teve início um período de horror e penúria para todos, mas principalmente para a minoria alemã, à qual a escritora pertence.

Seu pai, um nazista ativo, integrante da SS, jamais se arrependeu de seus crimes de guerra, e sua mãe, por conta desse envolvimento amoroso, após o fim do conflito armado foi deportada para um gulag na Ucrânia, de onde retornou em 1950. Não foi sozinha. Milhares a acompanharam. Afinal, Stálin exigia que as pessoas de origem alemã, ligadas ou não ao nazismo, trabalhassem na reconstrução da União Soviética. A traumática realidade nos campos de trabalho forçado foi retratada no romance Tudo o que tenho levo comigo, publicado aqui em 2011.

Antes de conseguir a autorização para emigrar para a Alemanha, o que só ocorreu em 1987, Herta Müller foi perseguida, presa e torturada pela Securitate, a infame polícia secreta do regime comunista. Por meio do esfacelamento lírico, toda a sua literatura transforma a memória dessa opressão pessoal em denúncia da corrosão política e social.

Semelhantes no tema, O homem é um grande faisão no mundo e Fera d’alma são muito diferentes no estilo e na linguagem. Cada qual se vinga do regime de exceção de Ceaucescu à sua maneira.

No primeiro romance, uma família romeno-alemã, vivendo num vilarejo modesto, aguarda uma autorização para emigrar para a Alemanha. Onde há escassez de liberdade e justiça sempre há corrupção. Tudo tem um preço. Se falta dinheiro para o suborno, qualquer documento, até mesmo uma simples certidão de batismo, pode ser pago com víveres ou sexo.

Capítulos curtos mostram o dia a dia estagnado de Windisch, sua mulher e sua filha, seus amigos e desafetos. São uma coleção propositadamente mal costurada de histórias, paranoias, barganhas e superstições. A pobreza narrativa, intencional, acentua a sensação de aridez nessa comunidade policiada. Diálogos e refrões ásperos, muitas vezes soltos no ar, compõem um mosaico cubista do que, de outro modo, seria um medíocre retrato naturalista.

O estilo e a linguagem de Fera d’alma são mais coloridos e sedutores. Mas isso não significa que as situações narradas sejam menos desprezíveis. Muito pelo contrário. A atmosfera de desespero, minuciosamente descrita, é até mais sufocante.

Agora as vítimas do estado policial são cinco estudantes que sonham com uma vida digna longe da ditadura romena, enquanto os agentes da Securitate aterrorizam todos os que discordam do regime, sejam eles militantes ou não. O romance acompanha a acelerada desorganização emocional dos jovens, após o suposto suicídio de Lola, amiga da narradora.

Em O homem é um grande faisão no mundo e Fera d’alma, Herta Müller evita o rigor documental próprio do historiador. A romancista está convencida de que fragmentar o discurso ficcional é mais eficaz, como arma política, do que apenas narrar ou descrever objetivamente.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de março de 2013 ]

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