Humano-pós-humano

Pela primeira vez em nossa longa história, depois de humanizar praticamente todo o planeta, o ser humano está começando a modificar fisicamente o próprio ser humano. Na verdade, pra muitos artistas, filósofos e cientistas, estamos hoje no limiar de uma nova revolução: o pós-humanismo.

Uma das reflexões mais interessantes sobre o assunto está no livro Humano-pós-humano: bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade, do ensaísta e pesquisador Alexandre Quaresma. Quem ainda não leu precisa correr atrás. Esse trabalho de fôlego é uma ampliação do inquietante artigo publicado na revista virtual Z Cultural, intitulado Humano-pós-humano: flagelos e perspectivas de um ser em metamorfose.

A primeira grande revolução tecnológica aconteceu com a invenção da linguagem. A segunda, com a invenção da escrita. Nossa espécie nunca mais foi a mesma, sua realidade expandiu-se.

O cientista Carl Sagan observou que, com a invenção da escrita, nosso poder de memorização foi multiplicado infinitamente. A memória humana, até então restrita ao cérebro e aos genes, projetou-se pra fora do corpo e foi parar também nos livros. Houve uma explosão de criatividade em todas as áreas do conhecimento.

A terceira revolução tecnológica, o pós-humanismo, promete um salto evolutivo tão radical e perturbador quanto o das duas primeiras revoluções. Contra a noção permanente de entropia, começa a circular a de extropia. Em laboratórios do mundo todo a tecnociência e a biotecnologia estão manipulando, para o bem e para o mal, os múltiplos níveis possíveis de nossa humanidade.

– Drogas da longevidade e da inteligência estão aumentando a expectativa de vida das pessoas. Espera-se que as próximas gerações vivam saudavelmente duzentos anos ou mais.
– Implantes oculares e auditivos estão permitindo a cegos e surdos voltar a enxergar e ouvir. Na verdade, em breve eles enxergarão e ouvirão muito melhor do que as pessoas ditas normais.
– Tetraplégicos estão voltando a ficar em pé, andar e mover os braços, graças à combinação de um implante neural e um exoesqueleto.
– A engenharia genética está cultivando em laboratório ossos e órgãos humanos pra transplantes. Também está perigosamente muito perto de uma nova eugenia, se os futuros pais começarem a escolher as características genéticas dos filhos.
– Nano-robôs estão sendo desenvolvidos para patrulhar nossa corrente sangüínea em busca de possíveis doenças. Essas nanomáquinas serão capazes, por exemplo, de exterminar células cancerosas bem antes da formação de um tumor.
– Implantes neurais também estão transformando a internet e o celular numa extensão de nossa mente. Conversar com outras pessoas em breve será uma forma de telepatia.

Aí está um excelente desafio também pra nossos poetas e ficcionistas. Expressar em poemas, contos e romances terríveis, apaixonados, políticos, desmistificadores, irônicos, herméticos, imagéticos, escatológicos, arrebatadores, sub-reptícios, aflitos ou otimistas a questão do pós-humanismo. Refletir em prosa e verso sobre a maneira como a tecnociência e a biotecnologia estão modificando fisicamente o ser humano. Para o bem e para o mal.

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