Valsar ou esgrimir

Hilda Hilst

Não é nada fácil, a arte da entrevista. É como colocar para dançar duas pessoas que mal se conhecem. As chances de cotovelada ou chute na canela são grandes. Pior ainda quando os primeiros passos são tão desastrados que transformam a valsa num combate.

Existirá uma estratégia infalível para que uma entrevista seja proveitosa a todos os envolvidos: entrevistador, entrevistado e público? Como lidar com o mau humor e a antipatia? Como evitar a conversa anódina e a falsa informalidade? Fazer ou não fazer, responder ou não responder a perguntas atrevidas e íntimas?

A estratégia da australiana Ramona Koval, de Conversas com escritores (tradução de Denise Bottmann, editora Biblioteca Azul), não é a mesma da brasileira Betty Milan, de A força da palavra (editora Record), que não é a mesma dos vários entrevistadores que conversaram com Hilda Hilst, agora reunidos em Fico besta quando me entendem (editora Biblioteca Azul). Mas, apesar das diferenças, todas funcionam muito bem, equilibrando ganhos e perdas.

Para Ramona, especialista em lidar com escritores internacionais, uma entrevista literária não deve ser apenas uma apresentação dos traços mais notáveis dos livros de um autor. Para ela, uma entrevista literária tem de ser “um evento memorável, uma sondagem cirúrgica, uma encenação de intimidade”. Betty Milan, que conversou com uma gama variada de pensadores e escritores também internacionais, recusa-se a jogar com cartas marcadas, preferindo investir na liberdade e na surpresa.

Ramona gosta de concentrar o máximo de informação logo na primeira pergunta. Foi assim com Saul Bellow, Norman Mailer e Toni Morrison, entre outros. Betty Milan, de modo diferente, prefere que o entrevistado comece falando de um assunto de seu próprio interesse imediato. Foi o que fez com Jacques Derrida, Nathalie Sarraute, Octavio Paz e outros.

Menos internacional, porém mais irreverente e explosiva é a antologia de entrevistas com a bruxa Hilda Hilst, organizada por Cristiano Diniz. São cinco décadas de rancor e humor: a primeira conversa é de 1952 e a última, de 2003. Sempre insolente, sem papas na língua, Hilda não poupa a chibata. Repreende os lobbies literários, a crítica e os leitores que não a prestigiavam, reservando umas lambadinhas também aos que a prestigiavam.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de junho de 2013 ]

Anúncios

Tags:


%d blogueiros gostam disto: