Conversa com Tatiana Belinky, a bruxinha-fada do Pacaembu

Tatiana

Dizer que Tatiana Belinky é uma das mais importantes escritoras infantojuvenis brasileiras, com mais de duzentos e cinqüenta livros publicados, é chover no molhado.

Dizer que essa jovem bruxinha nascida na Rússia em 1919 chegou ao Brasil com dez anos de idade, recebeu a cidadania brasileira e está radicada em São Paulo há mais de oitenta anos também é gastar palavras demais com o menos importante.

Porque Tatiana já conquistou o direito de dispensar apresentações desse tipo, objetivas e protocolares, cheias de datas e locais. Ela merece algo muito mais criativo: uma biografia imaginária, que comunique a real dimensão de sua existência rica em fantasia, humor e invenção.

É claro que Tatiana fez história na literatura, no teatro e na televisão, adaptando e traduzindo os clássicos, escrevendo poemas e contos, peças, telepeças e seriados para crianças e jovens. Quem não sabe que a primeira adaptação da obra infantojuvenil de Monteiro Lobato para a televisão foi feita por ela e Júlio Gouveia, seu marido, na antiga TV Tupi, definitivamente não é deste planeta.

É claro que Tatiana foi uma força intelectual importantíssima na renovação da literatura infantojuvenil brasileira, nas décadas de 70 e 80. Suas crônicas e resenhas críticas puseram óculos em muita gente míope que se recusava a enxergar o altíssimo valor dos livros para crianças e jovens.

Mas essa é a Tatiana das enciclopédias e dos dicionários críticos de literatura. É a Tatiana, vamos dizer, oficial. É a escritora em estado sólido, ou seja, em estado de Monumento da Independência das Letras Infantojuvenis Nacionais. Que tal, hoje, apenas pra variar, a gente conviver um pouco com a outra Tatiana?

Estou falando da Tatiana em estado líquido e gasoso, da Tatiana rainha-bruxa do Reino dos Cães e dos Gatos, super-bem-humorada, que veio da Rússia num dirigível invisível, é meia-irmã da Marquesa de Rabicó, adora limeriques e inventar palavras engraçadas.

Foi com essa Tatiana que eu passei duas horas mágicas, em seu palácio imaginário no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Foi com a bruxinha com anteninhas de fada, capazes de sondar o invisível, que conversei.

As plantas curiosas não atrapalharam o bate-papo. Ficaram em silêncio, apenas escutando, enquanto os sete gatos trocavam impressões telepaticamente. Só os dois cachorros, Max e Tuca, de vez em quando lançavam no ar uns comentários divertidos, mas totalmente descabidos. A rainha-bruxa usava suas lentes-de-contato de enxergar a criança dentro do adulto.

Como escreveu o ficcionista Marcelo Maluf: “Tatiana está sempre no lugar privilegiado do seu imaginário.”

Tatiana, esta não é uma entrevista tradicional. É uma conversa entre amigos. Pode ser?
Ótimo. Não gosto de coisas tradicionais, detesto formalidades.

Sobre o que você gostaria de conversar? Poesia, teatro?
Gosto muito de poesia. De poemas divertidos, de limeriques. Meu livro Caldeirão de poemas traz traduções de poemas russos, alemães e ingleses, que fizeram parte da minha infância. Adoro escrever poemas, sobre todos os assuntos. Tudo dá samba, não existe tema proibido. Ter senso de humor é importante. Pode ser até um senso de humor negro. As três qualidades fundamentais num texto pra crianças são: ética, estética e humor.

Aposto que muitas crianças perguntam pra você que bicho é esse, o limerique.
Aí eu leio pra elas meus limeriques e explico que esse é um gênero poético inspirado numa cidade da Irlanda, Limerick. Ele foi desenvolvido pelo poeta Edward Lear. Também o Lewis Carroll escreveu alguns limeriques. São cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o segundo e o quinto. O terceiro e o quarto, mais curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimo pra fazer algumas brincadeiras. Meu primeiro livro de poemas foi justamente o Limeriques, publicado em 1987. Todo mundo conhece o limerique por minha causa, mas não fui eu quem inventou, não.

A poesia, de modo geral, é um espaço riquíssimo pra imaginação.
Poesia é fundamental na vida. Poesia e humor.

Poesia como sinônimo não só de verso, mas também de magia. Isso nos leva ao mago dos magos, que não era poeta mas era extremamente poético, Monteiro Lobato.
Ele foi um divisor de águas, um pioneiro. Antes dele, os livros para crianças eram muito chatos, moralistas. Um horror.

Todo mundo sabe que o Lobato foi uma figura importante na sua vida…
Vou contar como foi meu primeiro contato com o Monteiro Lobato. Foi a minha primeira gafe com ele. Na época eu já o admirava muito, como escritor. Ele tinha lido um artigo do meu marido sobre sua literatura infantojuvenil, publicado numa revista chamada Literatura e Arte, e gostado bastante. Então, telefonou pra nossa casa, procurando o Júlio, e eu atendi. “Aí é da casa do Júlio Gouveia?” “Sim. Quem está falando?” “Aqui é o Monteiro Lobato.” Eu pensei que fosse um trote e respondi: “E aqui é o Rei George da Inglaterra”. Ele riu do outro lado do telefone. Só então eu percebi que era mesmo o Monteiro Lobato. Ele queria fazer uma visita e foi à nossa casa naquela noite. Ele era parecido com o Júlio, fisicamente. Mas o Júlio era mais bonito.

Também sei que você gostaria de ser uma bruxa de verdade.
Quando eu era pequena, queria ser uma bruxa. Porque, diferente da criança, uma bruxa tem muito poder. Não queria ser uma fada. As fadas são boazinhas demais, certinhas demais. Eu queria ser uma bruxa. Mas uma bruxa bonita, como a madrasta da Branca de Neve. Quando a minha mãe ficava muito brava comigo, ela me chamava de bruxa, porque eu não chorava e não protestava, mas não dava o braço a torcer.

Pra mim e pra muita gente você é uma bruxinha de verdade. A bruxinha-fada do Pacaembu. Com um caldeirão incrível, onde você cozinha seus poemas e seus contos.
As pessoas descobriram que eu adorava bruxas e passaram a me mandar bruxinhas de todos os tipos. Hoje eu tenho uma coleção delas. Mas, quando eu era criança, depois que conheci a Emília, eu disse: “Não, agora eu quero ser a Emília.” A Emília é muito melhor, muito engraçada, ela é contestadora e tem um senso de humor maravilhoso. Quando me perguntam qual a figura feminina da literatura brasileira de que eu mais gosto, eu sempre respondo: “a Emília”.

“Eu sou a independência ou morte.” Foi o que a Emília respondeu certa vez, quando perguntaram à famosa boneca de pano o que afinal ela era. Adoro essa resposta. A Emília é o triunfo da imaginação. E a imaginação é isso: independência ou morte.
A imaginação é tudo, a fantasia é tudo. Sempre digo às crianças que o livro é um objeto mágico que não precisa de bateria ou eletricidade. O livro é muito maior por dentro do que por fora. Por fora ele tem a dimensão real, mas dentro dele cabem um castelo, uma floresta, uma cidade inteira. Cabe uma multidão de fadas, bruxas, heróis e vilões. Um livro a gente pode levar pra qualquer lugar. E com ele se leva tudo o que o escritor imaginou.

Um livro também é uma máquina do tempo. Com ele podemos viajar a qualquer época.
É verdade: uma máquina do tempo. Capaz também de impedir que a criança dentro da gente envelheça. Hoje eu sou antiga, mas não sou velha. Dentro de mim continua vivinha a criança que um dia eu fui.

Vamos conversar um pouco sobre o teatro?
Sempre fui apaixonada pelo teatro. A primeira vez que fui ao teatro, eu era muito pequena, foi em São Petersburgo, antes de vir para o Brasil. O teatro e os livros sempre fizeram parte da minha vida. Meus pais liam muito e sempre me levavam pra ver as peças em cartaz. Aos dez anos, quando cheguei ao Brasil, eu já tinha visto muito teatro e lido muito. Com o Júlio, que era psiquiatra, psicólogo e um educador nato, eu escrevi minhas primeiras peças.

Esse foi o início de sua carreira, ou, pra evitar a palavra carreira, de “uma trajetória cheia de aventuras”, como você gosta de dizer.
Em São Paulo não havia teatro para crianças. A primeira peça que fizemos foi uma adaptação de Peter Pan, que foi apresentada no Theatro Municipal, cedido pela prefeitura. Foi assim que comecei a escrever para as crianças. Mais tarde, quando começou a televisão no Brasil, alguém da direção da TV Tupi foi ver uma de nossas peças, Os irmãos ursos. Então, fomos convidados pra fazer as encenações nos estúdios da emissora. Foi um sucesso. O público adorou. Era algo novo: o teleteatro. Não havia videoteipe, nada disso. Era ao vivo. Para evitar os acidentes, precisávamos prever o imprevisto. Em pouco tempo, já tínhamos três programas por semana e a emissora logo pediu mais.

As ideias tinham que vir rapidinho, aos montes, não?
Eu sou uma escritora ambidestra. Eu agarro as ideias com a mão direita e escrevo com a mão esquerda. Ou vice-versa.

O início de sua carreira foi no teatro. Mais tarde, depois da televisão, vieram também os livros.
Aos quatro anos eu já sabia ler, primeiro em russo, depois em alemão. A leitura fazia parte da minha vida, como escovar os dentes. Ainda mais porque minha mãe era dentista. Ela era comunista, feminista e dentista, uma mulher forte, incrível. Não me lembro de mim sem livros. Hoje os pais querem que os filhos leiam mais, mas os próprios pais não gostam de ler. Isso é um contra-senso. Livro não é castigo ou obrigação, não é chateação. Ao mesmo tempo, tem gente que idolatra demais os livros, guardando todos bonitinhos na estante, longe dos filhos pequenos. Isso é terrível. Livro tem de ser curtição, prazer, sempre.

E no Brasil há pessoas que passam a vida toda sem conhecer o verdadeiro prazer da leitura.
O escritor francês Daniel Pennac disse: “o verbo ler não comporta imperativo, assim como o verbo amar e o verbo sonhar”. É verdade. O Ziraldo está certíssimo quando diz que ler é mais importante do que estudar. A criança não gosta de estudar, ela gosta é de aprender. E ela aprende o tempo todo. Profissão de criança é aprender, mesmo quando está brincando. Especialmente quando lê, a criança está aprendendo.

Adorei nosso papo, Tatiana. Também gostei de conhecer sua boneca Emília, de pano.
Ela está sempre aí, com as bruxas, me fazendo companhia.

Seus sete gatos e seus dois cachorros parecem se dar bem…
É a paz armada. É só um não invadir o território do outro, que fica tudo bem.

[ Publicado originalmente na revista Ponto nº 2, do Sesi-SP, em abril de 2013 ]

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