Sobre o “Sozinho no deserto extremo”

Anjo

Conheci Ricardo Santos na oficina de criação literária no Sesc de Cuiabá. Seus contos curtos, sempre inventivos e inquietantes, logo impressionaram o oficineiro e os demais oficinandos. Ricardo tem talento de sobra. O rapaz não apenas se destacou na oficina, como provou que já é um ficcionista pronto pra guerra. Anteontem, recebi um presente fabuloso: a mensagem abaixo, que me deixou no chão, nocauteado. Fiquei sem fala. Ainda estou afônico. Valeu, camarada!

Cuiabá, primavera de 2013

Bras, meu caro,

(…)

Já comentei antes que algumas analogias e construções imagéticas tavam muito fodas. Aquela da “fumaça cartilaginosa” me pegou de jeito. O que reparei é que o livro está inteiramente povoado dessas passagens. Nas descrições de cenários, nas divagações do Davi/narrador, em tudo. São breves momentos que fazem o leitor dar aquele risinho de satisfação, sabe? Tipo “putz, que foda”. Isso só enriquece. É chover no molhado falar que o livro tá bem escrito e com aquela maturidade de autor experiente, que sabe exatamente pra onde está levando a narrativa. Fico imaginando se isso não é uma característica das grandes obras, dos grandes autores, esses momentos sublimes dos risinhos povoando as páginas, essas sacadas fodas. O livro tem muito disso. Tem um capítulo específico perto do fim que você abre falando que as pessoas eram como bolinhos de carne esperando pra se comerem, achei genial.

Você comentou da boneca, a Graça. Puta merda, depois que ela aparece na história parece roubar o palco. É sensacional ela ganhando vida na cabeça do Davi, foi muito bem construída. Achei foda a forma como ela morre, achei foda você voltar e contar a história dela, contar o pós-morte, quando ela visita o cemitério. Tudo nessa boneca ficou fantástico.

Lembro que você comentou que o pessoal do mainstream achou que o livro tinha muita ação e o pessoal do gênero achou ele muito parado. Entendo o ponto de vista de ambos os lados, mas acho muito problemático enxergar o livro por esse viés do que faltou; é justamente esse meio-termo entre as ações (comer, fugir, tacar fogo, enfrentar os adversários, conversar com Estela) e as divagações, as contemplações, toda a construção da personalidade do protagonista e seus devaneios e seus flashbacks que dão o tempero do livro, que transformam ele numa coisa única. Da forma que está você criou um negócio que ecoa, que significa, e não fica na cilada do filme blockbuster ou do monólogo interminável. Achei genial esse balanço, mas compreendo que a maioria das pessoas esteja acostumada a obras que se posicionam em um dos extremos. Talvez um leitor iniciante ou não tão empenhado se incomode com a pouca quantidade de diálogos. Eu particularmente achei foda!

A forma como você deixa vazar todo esse referencial seu facilitou a conexão com o personagem. No fim, quando a gente já tá tão afeito a ele, a seus raciocínios e reações, parece difícil largar. Depois de acabar o livro fiquei com aquela sensação de vazio, de saudade. Não são todos os livros que deixam essa impressão. O mundaréu de referências na verdade até me fez querer reler o livro em um momento futuro com um caderninho do lado, pra pescar todas e ler/assistir/ouvir o que não conheço. Quanto ao Davi em si, eu diria que o mais impactante nele é o quanto parece real. As coisas que ele faz, no que pensa, as considerações sobre sexo, sobretudo, quando fala com a estranha no telefone e quando acha a menina, essa obrigação de paternidade com a criança, as defesas e reações com o magrelo, tudo me pareceu realista, como um ser humano agiria mesmo, no que pensaria, como lidaria com essa situação extrema e opressiva da solidão total, o instinto de sobrevivência. Nada soa forçado, nem mesmo as pirotecnias, tudo evolui naturalmente. Essa loucura, essa descida gradual. E organizar a história do jeito que você fez ficou ótimo pois deu ritmo à trama, esse vai e vem no tempo. A narrativa não linear funciona. Outra coisa interessante: isso me impediu de prever a narrativa; não antecipei o fim do livro em momento algum.

Um capítulo que me marcou foi o da Estela, relatando como aconteceu com ela o evento, quando ela contava até cinquenta no esconde-esconde. Ficou absurdo. Triste mesmo. E exemplifica o que eu disse da narrativa não linear; apresentar essa origem depois que já estamos habituados à personagem transforma o relato num negócio com muito mais peso.

Outro capítulo marcante foi aquele em que o magrelo e os dois gordos tão atrás do Davi e ele sobe na árvore pra se esconder: que capítulo tenso! Você só revela onde ele tá escondido no fim. A narrativa prendeu, funcionou, e fora isso a metáfora gritante do cara chegar com um lança-chamas, alguém que controla essa fúria natural que permeia todo o livro, justo o antagonista libertando um jorro calculado do elemento que parece (deveria, ele crê) pertencer a Davi.

Gostei do fato de não explicar o que acontece, o evento em si, não é necessário. Gostei da escalada da linguagem poética/metafórica no fim, quando você sente que o Davi está mesmo se habituando ao pensamento fantasioso. Gostei do fato de não haver um fim propriamente dito. Quando você chega ao último capítulo (Fome) já está tão arrasado por essa exploração da solidão no mundo que retroceder ao momento pré-evento soa até como tortura, uma tortura poética, e aí você vem e me fecha com “O maldito silêncio caindo como flocos de neve ou pétalas de rosa, cobrindo a cidade, o mundo. Um sólido dilúvio de quietude”. SÓLIDO DILÚVIO DE QUIETUDE: PUTA QUE PARIU!!!!!!!!!!!! Sério mesmo, que fechamento.

Sobre o crescimento do Davi com o fogo, o envolvimento, o ápice ao queimar São Paulo (que imagem impactante), o pedido da menina: essa gradual evolução da obsessão ficou não só legal como metafórica, mas também volta a uma coisa que eu tinha comentado contigo antes: como a primeira frase e o primeiro parágrafo do livro são belos, fortes. Na verdade, só dá pra apreender a verdadeira brutalidade desse primeiro parágrafo quando terminamos de ler a obra; aí sim se percebe como a malandragem de abrir com isso é na verdade muito mais significativa, simbólica, do livro como um todo. Você cospe a filosofia do romance em poucas linhas, brinca, dá toda uma ideia do macro naquele micro. É a coisa da maturidade, me parece: a concisão prensada numa pequena bala radioativa no primeiro tijolo textual: toma, leitor!

Enfim, Luiz. Já deu pra perceber que eu gostei muito. Confesso que não li tão rápido quanto queria, a intenção era comentar com você ao vivo: mas o livro oferece mais que uma leitura rápida, ele tem todo esse recheio que pode ser absorvido se você ler com calma, deixar o negócio rastejar pra dentro da sua cabeça. E não tem nada que eu não tenha gostado ou possa falar que alteraria. Sempre respeito as opções do autor, até comentamos isso: se você começa a opinar que podia alterar aqui e ali, porra, é outro livro, então senta e escreve o teu! Gostei, opinião sincera, mexeu comigo. É um prazer ver que esse tipo de coisa está sendo feita na atualidade aqui no Brasil, e me parece que devia ser mais valorizada do que é. Se bem que vejo muita gente admirando e comentando o teu trabalho, então que bom! Mais um leitor aqui. Agora aguardo o próximo romance, e enquanto isso tenho o teu livro de contos pra ler e outras coisas antigas, já que você produziu tanto.

Parabéns. Com o Sozinho você conseguiu, pelo menos com este leitor, o anseio de todo escritor: a entrega absoluta, a imersão, a vivência em conjunto com a narrativa. Podia falar mais, mas já falei muito.

Abraço,

Ricardo

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