Doze anos de escravidão

Doze anos de escravidão

Autobiografia de Solomon Northup propõe ao leitor de hoje um dilema moral

Forte candidato nas principais categorias do Oscar de 2014, Doze anos de escravidão, dirigido por Steve McQueen, completa a trilogia – tudo indica que involuntária – iniciada por Django livre, de Quentin Tarantino, e Lincoln, de Steven Spielberg, ambos de 2012.

McQueen e o roteirista John Ridley criaram um melodrama de altíssimo impacto, sustentado principalmente pelas cenas de tortura. A crueza naturalista dos espancamentos, capaz de tirar o sono até dos menos sensíveis, é o que dá vigor a esse panfleto contra a escravidão.

O filme segue praticamente à risca a autobiografia homônima de Solomon Northup, publicada em 1853, poucos anos antes do início da Guerra de Secessão.

O autor foi um afro-americano descendente de escravos, que nasceu livre, em 1808, no estado de Nova York, mas aos trinta e dois anos foi sequestrado e vendido como escravo.

Doze anos de escravidão, o livro, apareceu um ano depois do incendiário best-seller de Harriet Beecher Stowe, A cabana do pai Tomás, completando com uma boa dose de realidade o que no romance de Stowe era matéria puramente ficcional.

Solomon Northup não foi o único ex-escravo a publicar um relato sobre sua vida abominável no cativeiro. William Wells Brown (1814-1884), Harriet Ann Jacobs (1813-1897) e Frederick Douglass (1818-1895) também fizeram o mesmo. O momento era bastante oportuno. O movimento abolicionista norte-americano pedia documentos, adesões e oradores.

Mas o testemunho de Solomon Northup difere dos demais num ponto fundamental: quem narra é um homem educado, que nasceu longe do cativeiro – alguém acostumado com a liberdade, até ser vítima de um infortúnio.

Escravizado, Northup precisou ocultar de seus senhores que sabia ler e escrever. Também teve de esconder sua origem e o verdadeiro nome. Só não escondeu o talento com o violino porque isso era aceitável, até mesmo proveitoso. Desde que sua produtividade na lavoura se mantivesse na média. Do contrário: chibatadas.

Usando habilmente as ferramentas próprias de cada meio, livro e filme são eficazes no propósito pedagógico. A vantagem do primeiro sobre o segundo está na precedência. Nenhuma adaptação conseguirá reproduzir hoje o impacto que Doze anos de escravidão causou nos leitores do final do século 19.

Para nós, confortavelmente distantes cento e sessenta anos da situação narrada, a obra ainda consegue propor um dilema moral.

Relatos sobre a escravidão – sobre qualquer instituição degradante, incluindo o nazismo, o colonialismo etc. – não são fáceis de digerir. Como se comportar diante do que está sendo narrado? Pior ainda quando a prosa traz as marcas prazerosas da literatura.

De certo modo, páginas bem escritas traem o desejo inicial do autor, enfraquecem a denúncia. Ou talvez a traição esteja apenas no leitor de hoje, que, distante da experiência física da degradação, se deixa afundar pacificamente no prazer da leitura.

A autobiografia de Solomon Northup oferece aos leitores de hoje a complicada escolha: durante a leitura o que privilegiar, a torpeza ou a estética?

Doze Anos de Escravidão
Autor: Solomon Northup

Tradução: Caroline Chang
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 22,50 (280 págs.)

Tradução: Drago
Editora: Seoman
Quanto: R$ 19,90 (232 págs.)

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