Gabriel García Márquez na Folha de S.Paulo

Gabo

Lírica e bem-humorada, prosa de Gabo tem alcance universal

Etiquetas ajudam a organizar o caos na livraria e na cabeça do leitor. Mas é certo que toda etiqueta precisa ser recebida com cautela. Entre os autores do realismo mágico – ou, se preferir, realismo fantástico – há mais diferenças de intensidade e linguagem do que semelhanças.

Os romances e contos de Gabriel García Márquez, por exemplo, são visivelmente menos complexos que os de Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa.

No festejado Cem anos de solidão (1967) e nos contos de A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada (1972) há bem menos fragmentação discursiva, metalinguagem e fluxo de consciência do que nos igualmente festejados O jogo da amarelinha (Cortázar), A morte de Artemio Cruz (Fuentes) e Conversa na catedral (Llosa).

Dos ficcionistas do boom da literatura latino-americana, Gabo é, em essência, o grande sedutor, o ilusionista que cativa logo na adolescência. Essa característica deve ter pesado a seu favor, na votação para o Nobel de literatura.

Coisa mais fácil deste planeta é apaixonar-se por sua prosa sem obstáculos, por seus heróis inesquecíveis: os lendários Buendía, o mago Melquíades, o anjo cativo e o afogado rebatizado de Estevão, a bastarda e cândida Erêndira, o casal Florentino e Fermina, o desventurado Santiago Nasar etc.

Enquanto as torções de linguagem do melhor Cortázar – do Cortázar fascinado pelo jazz e pelo surrealismo – soam antipáticas ao leitor menos experiente, a fantasia lírica e bem-humorada de Gabo, sem contorções ou sobreposições polifônicas, conquista logo no primeiro contato.

Nesse caso, simplicidade não significa ausência de sofisticação. Significa, antes, alcance universal. Tão universal que o conto A luz é como a água, da coletânea Doze contos peregrinos (1992), pôde ser destacado do conjunto e relançado, com belas ilustrações, para o público infantil.

Tanto o ficcionista quanto o jornalista eram exímios contadores de histórias. Gabo dizia que sua primeira e maior influência havia sido a avó materna, dona Tranquilina, que povoara sua infância de fantasmas e milagres.

Narrativas como Um senhor muito velho com umas asas enormes e O afogado mais bonito do mundo são recriações latino-americanas do espírito fabuloso de As mil e uma noites árabes.

Comparar sua literatura com a dos mestres do realismo mágico não rende análises interessantes. O verdadeiro irmão espiritual de Gabo é Ray Bradbury, outro grande contador de histórias, um dos maiores do século 20.

Nem mesmo as dezenas de personagens reunidas para narrar a fundação e extinção de Macondo – miniatura da América Latina – conseguem complicar o alegórico Cem anos de solidão.

Os prodígios sobrenaturais que acompanham as gerações da família Buendía fluem pacificamente. A convergência de realismo e fantasia é tão natural que instaura, sem conflito, outra realidade, em que mito e sonho ganham total concretude.

Nos anos 50 e 60, cansado de tanta razão e civilização, o Velho Mundo foi arrebatado por essa atmosfera encantatória.

O encanto continua até hoje. Macondo é tão importante no imaginário literário, que gerou sua antítese: o movimento McOndo. Mas toda antítese não deixa de ser também uma forma de homenagem.

[ Publicado originalmente no caderno Mundo em 18 de abril de 2014 ]

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