Entrevista (completa) a Hugo Viana, da Folha de Pernambuco

Programa Capa (6c)

Gostaria primeiro de saber como localiza o gênero horror na tradição literária nacional.
O horror é um conceito bastante amplo. Seus tentáculos invadem vários nichos da literatura brasileira. Escritores de nosso mainstream (Monteiro Lobato, Lygia Fagundes Telles etc.) já produziram boa ficção de suspense e horror. E há também os ficcionistas que se dedicam exclusivamente a esse gênero: Eric Novello e André Vianco, entre outros. Meu estilo é um pouco diferente do estilo desses escritores. Em meus minicontos, eu não quero aterrorizar meus leitores com o sobrenatural. Quero aterrorizá-los com a ciência e a tecnologia do futuro.

Acredita que a relativa ausência de livros do gênero indica uma posição do mercado editorial? Do interesse dos escritores? Ou ainda uma mistura dos dois lados?
A literatura de gênero (ficção científica, fantasia e horror) não goza de muita popularidade entre os intelectuais brasileiros. Ela é considerada uma subliteratura. Mas um grande exército de leitores invisíveis prestigia bastante os romances de Stephen King, Clive Barker… Eu gosto de afirmar que existem duas elites no competitivo campo literário: a elite da alta literatura e a elite da literatura de gênero. As duas não conversam, vivem em constante embate.

Ainda sobre o pequeno espaço reservado para as narrativas de horror: como percebe a participação da crítica e da academia na pesquisa e legitimação do gênero? Acredita que há alguma medida de preconceito?
Opa, acho que acabei respondendo essa questão nas anteriores.

Você fala que o livro é composto por minicontos. Em que sentido essa modalidade textual difere de contos e outras narrativas curtas tradicionais? O que caracteriza o miniconto e quais os desafios de um autor ao tentar envolver o leitor em poucos parágrafos?
O miniconto e o microconto são formas brevíssimas que muitos escritores brasileiros adoram exercitar. A diferença entre os dois está na extensão. O miniconto é feito de poucos parágrafos, enquanto o microconto é feito de poucas palavras, às vezes de poucas letras (para ser publicado no twitter, por exemplo). Contar uma história de maneira supereconômica é um desafio semelhante ao do soneto ou do haikai. Numa cultura que prestigia mais o romance do que os outros gêneros, ser minicontista é estar à margem da margem.

Especificamente sobre o livro. O tema dos contos varia entre aspectos do cotidiano: política, religião, sociedade. Como percebe o diálogo entre o horror e as instâncias recorrentes do cotidiano? O que é gerado a partir desse encontro?
O eixo que une todos os contos é o do horror absoluto. São histórias que sempre terminam muito mal. Foi a maneira que encontrei de me vingar dos políticos corruptos, das injustiças sociais, da burocracia assassina, enfim, da gloriosa estupidez humana.

Não apenas o horror, mas os textos tendem também para a ficção científica, para a ironia. Vistos em retrospectiva, acha que são gêneros particularmente bons para explorar medos, receios históricos de diferentes sociedades?
A ficção científica me interessa muito, principalmente a FC brasileira. Hoje, nos importantes centros de pesquisa, os cientistas estão modificando o corpo humano. É a biotecnologia, a engenharia genética, a revolução pós-humana. O que antes somente a religião se atrevia a prometer (a vida eterna da consciência saudável e produtiva), agora é a ciência que está ambicionando realizar. Para alcançar esse objetivo, o ser humano está disposto a modificar seu código genético e, se for necessário, unir-se fisicamente às máquinas. Tudo isso forma a matéria-prima com a qual eu gosto de trabalhar.

Gostaria de saber ainda sobre seu peculiar interesse nos temores do corpo; as experiências do sangue; as mutações dos organismos – aspectos que parecem integrar os melhores microcontos do livro.
A revolução pós-humana tem gerado debates intensos entre cientistas, sociólogos, juristas etc. Os escritores não podem ficar de fora. As drogas da inteligência prometem ampliar nossa capacidade intelectual. A engenharia genética promete gerar pessoas mais saudáveis, que viverão duzentos anos. A conexão cérebro-computador nos permitirá transmitir pensamentos e comandar robôs a distância. O futuro será perigoso e inquietante, e já estamos entrando nele.

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