Reunião insólita

Celuslose 4

O poeta Victor Del Franco, idealizador e principal realizador da revista Celuzlose, propôs algo inusitado: reunir num caderno especial os quatro elementos (Luiz, Nelson, Teo e Valério).

Está sendo divertido assistir aos quatro mosqueteiros do apocalipse interagindo pela primeira vez, nas páginas iniciais do número 4 da edição impressa da revista. Luiz comparece com uma entrevista e dois minicontos (Rodamoinho, talvez e Cabeças trocadas); Nelson, com o conto Lua, 1969; Teo, com sete vinhetas em preto e branco, e Valério com os poemas Cidadão exemplar, Pugilismo e Ride, ridentes.

Detalhes sobre este e outros números da Celuzlose, e sobre como adquirir a revista, você encontra aqui.

A seguir, a entrevista concedida ao incansável poeta-editor:

Antes da publicação do livro Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012), primeiro romance assinado por Luiz Bras, você já escrevia alguns artigos e reflexões com essa assinatura na coluna “Ruído Branco” do jornal Rascunho. Quando começaram a surgir as primeiras manifestações do Luiz Bras?
Começou com os livros escritos para crianças e jovens, a partir de 2003. Depois vieram os contos de ficção científica, a partir de 2006. Mas a questão da identidade subjetiva sempre me fascinou. Desde a adolescência, quando comecei a ler os filósofos e os psicanalistas, nunca mais deixei de refletir sobre os limites físicos e mentais que definem um indivíduo. Hoje eu tenho certeza de que esses limites são bastante maleáveis. O sujeito precisa de um RG e um CPF, do contrário a sociedade seria mais caótica do que já é. Mas no campo da criação artística e literária, ninguém é obrigado a ser o mesmo a vida inteira. Então, em meados de 2011, quando Nelson de Oliveira sentiu que estava na hora de se aposentar, de se isolar numa praia do Caribe, eu já desconfiava que Luiz Bras assumiria naturalmente o posto vago.

Luiz Bras está para Nelson de Oliveira assim como Álvaro de Campos está para Fernando Pessoa? Ou são duas situações distintas e, no seu caso, o termo heterônimo não faz sentido?
Creio que no meu caso a palavra heterônimo é muito forte, pois entre mim e o antigo escritor ainda há muitos pontos de contato. Eu prefiro a expressão alter ego. Ou simplesmente persona.

Seguindo nesta questão da persona, o Valério Oliveira é um desdobramento poético que surgiu a partir das manifestações do Luiz Bras ou ele nasceu antes? Qual é a trajetória do poeta?
Valério Oliveira nasceu uns quinze anos antes, na época em que eu descobri a poesia. Meus primeiros poemas surgiram no finalzinho dos anos 80, sob a influência fortíssima dos concretistas, principalmente de Décio Pignatari e Paulo Leminski, que flertava com o movimento. Bem antes da difusão do computador pessoal e da popularização da web… Eu trabalhava numa prancheta, finalizando os poemas com letraset. Também curtia muito a técnica da colagem: gostava de recortar imagens, palavras e frases de jornais e revistas, e montar textos experimentais com os recortes. Mas essa fase visual passou. Desconfio que as facilidades do Photoshop me desestimularam. Então, nos anos 90 veio a prosa, que me absorveu completamente. Valério Oliveira voltou à ativa somente no início deste século. Voltou menos experimental, mais narrativo. Mais bem-humorado.

Você diz que ainda há muitos pontos de contato entre Luiz Bras e Nelson de Oliveira. Certamente, um desses pontos de contato é a iniciativa para organizar antologias. Cito apenas algumas: Geração 90: manuscritos de computador (2001), Futuro presente (2009) e a mais recente, Hiperconexões: realidade expandida (2013). As antologias representam a sua tentativa de encontrar uma possível ordem no caos? Uma tentativa de sinalizar caminhos?
Encaro as antologias mais como uma ótima oportunidade de juntar escritores e celebrar a literatura. As revistas literárias também têm essa função social: reunir as diferenças, louvar publicamente o delírio em prosa e verso. Gosto da confraternização, da mistura de vozes. O desejo de sinalizar caminhos sempre está presente, é claro. Mas vivemos numa época muito peculiar, em que todos os caminhos estéticos já foram sinalizados. Da extrema concisão à verborragia máxima, hoje o cardápio poético oferece um pouco de tudo: versos metrificados e rimados, polimétricos, brancos, poesia marginal, épica, barroca, visual, satírica, parnasiana etc. Na prosa a situação é análoga. A liberdade criativa está em toda parte, na micro e na macroficção.

Nelson de Oliveira lançou o livro Às moscas, armas! (2000) apenas no formato digital. Como foi a recepção desse livro? E como você, Luiz Bras, avalia a questão dos livros digitais e impressos?
Lançar Às moscas, armas! apenas no formato digital foi mais uma de minhas experiências editoriais. A web ainda era novidade, ao menos pra mim. Então, ainda era fascinante ver um texto ser publicado, digamos, às 18h e, minutos depois, os primeiros comentários começarem a chegar. Comentários dos amigos de Salvador e Fortaleza. De Portugal. Dos Estados Unidos. Foi o que aconteceu com a coletânea de contos: recepção instantânea. Outra experiência interessante, nessa época, foi a novela Babel Babilônia, publicada primeiro na web. Os parágrafos da novela traziam links, que permitiam ao leitor saltar de um ponto a outro da trama. A Babel Babilônia on-line era uma obra aberta, à maneira de O jogo da amarelinha, de Cortázar. Sobre a questão do livro digital versus livro impresso, acredito que em cem anos, com o aperfeiçoamento do papel eletrônico, o livro impresso será assunto apenas de colecionadores.

No artigo “Duas elites”, que foi publicado no livro Muitas peles (Terracota, 2011), você traça um esboço do conflito entre alta literatura e literatura de gênero. Esse conflito é travado por integrantes da crítica acadêmica e autores da literatura de gênero. Podemos considerar que o Nelson de Oliveira está mais próximo da crítica acadêmica – ele já publicou um livro no qual analisa o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea, Axis mundi (Ateliê Editorial, 2009) –; por outro lado, Luiz Bras está mais próximo da literatura de gênero. Quando você está escrevendo (seja um conto, um romance ou um artigo para jornal) você enfrenta esse conflito com frequência ou ele já foi superado?
Exatamente. Essa é a diferença mais significativa entre os dois autores. Existe um fosso profundo, ao menos no Brasil, entre a alta literatura, chamada também de intelectual, e a literatura de gênero, chamada pejorativamente de comercial. Esse fosso foi aberto décadas atrás, pelos teóricos da indústria cultural capitaneados por Adorno, e nunca mais foi fechado. Essa separação precisa ser superada urgentemente, para o benefício de ambas as partes. No conflito entre as duas elites eu vejo a mesma separação que há, por exemplo, entre os destilados e os fermentados. Há pessoas que gostam de uísque e não suportam vinho, há pessoas que gostam de vinho e não suportam uísque, mas felizmente há também as que gostam de ambos, sem preconceito. Em minha opinião, os leitores e os escritores da alta literatura e os da literatura de gênero podem ensinar muito uns aos outros.

Cara ou coroa? Cada livro publicado é, antes de tudo, uma atitude política?
É no que eu acredito, meu caro. Defendido no artigo “Crítica é cara ou coroa”, do Muitas peles, esse conceito bastante radical é fascinante. “Livros são propostas de civilização. Cada livro publicado é, antes de tudo, uma atitude política. Por isso boa parte da crítica literária parece tão desnorteada, tão inconsistente. Estou falando da crítica que acredita que um livro possa ser intrinsecamente bom ou ruim. Essa visão restritiva não condiz com os fatos.”

Você tem uma atenção especial pelos quadrinhos, que, inclusive, servem de referência para a sua literatura. Você já pensou em se tornar um autor de graphic novels?
Neste exato momento estou trabalhando numa HQ intitulada Teoria do caos. É um projeto pessoal. Experimental. Trabalho apenas com um esboço de roteiro, com umas anotações bastante subjetivas. Vou desenhando sem muito compromisso, um pouco por dia. Não existe terapia melhor. Sou um colecionador de espantos. Primeiro foram os quadrinhos europeus, os álbuns de Moebius e Jodorowsky, a revista Métal Hurlant. Depois foram os álbuns de Frank Miller. Em seguida os mangás e os animês de Hayao Miyazaki e Katsuhiro Otomo. Tudo isso alimentou demais minha fantasia literária. Os quadrinhos e também o cinema. A música, as artes plásticas. Impossível não dividir meu tempo entre essas diferentes possibilidades de epifania. Minha literatura sempre foi muito receptiva. Pra mim não existem fronteiras intransponíveis, não entre as artes. Quando estou escrevendo gosto de dialogar com um filme ou uma canção, gosto de parodiar ou citar uma cena de mangá ou animê, uma pintura ou um cartum.

Já é possível adiantar algum ingrediente dessa HQ na qual você está trabalhando? É uma história que retrata o mundo em que vivemos ou as situações acontecem em um ambiente futurista, pós-humano?
Teoria do caos se passa num futuro próximo, num Brasil nem utópico nem distópico, mas bastante caótico. É uma narrativa polifônica, protagonizada por indigentes, militantes, militares, homens-mulheres, mulheres-homens, terroristas, políticos, ciborgues, xamãs, inteligências artificiais e criaturas do folclore brasileiro. O centro da trama é a revolução pós-humana. Graças à biotecnologia e a tecnociência, o humano está em metamorfose, mas isso não é garantia de que em breve super-homens caminharão sobre a Terra. Também não significa que nossa espécie desaparecerá numa nuvem radioativa. Não acredito que seremos exterminados pela nossa própria tecnologia. Nem utopia nem distopia, o que virá com a revolução pós-humana será mais um pouco do que sempre esteve aí: o velho caos cotidiano.

Por falar em pós-humano, em um dos minicapítulos de seu texto de abertura da antologia Hiperconexões: realidade expandida, você diz o seguinte: “A terceira revolução tecnológica, batizada de revolução pós-humana, promete um salto evolutivo tão radical e inquietante quanto o provocado pelas duas revoluções anteriores.” (A saber: 1. Invenção da linguagem / 2. Invenção da escrita). Nessa terceira revolução, podemos incluir as seguintes áreas do conhecimento: nanotecnologia, neurociência, engenharia genética, física quântica e tecnologias da informação. Como a literatura brasileira tem abordado esse tema?
Eu disse há pouco que “vivemos numa época muito peculiar, em que todos os caminhos estéticos já foram sinalizados”. Preciso retificar essa afirmação. Há pelo menos um caminho que a poesia vem ignorando olimpicamente: o pós-humano. Em centros de pesquisa do mundo todo, cientistas e engenheiros estão testando em laboratório maneiras de prolongar a vida humana saudável. Fazem parte dessas pesquisas a engenharia genética, a nanotecnologia e o desenvolvimento de próteses eletrônicas capazes de ampliar nossos cinco sentidos e nossa inteligência. No ritmo em que as coisas estão caminhando, ainda neste século veremos algo inédito na história da humanidade. Veremos a convergência geral de organismos e tecnologias, a ponto de se tornarem indistinguíveis. Esse avanço na ciência e na medicina tem gerado debates acalorados entre filósofos, sociólogos, antropólogos e cientistas. O pós-humano é um tema bastante comum na ficção científica em prosa. Autores clássicos da FC, como Isaac Asimov e Robert Heinlein já tratavam desse tema na década de 50, em seus contos e romances. Nos anos 80, vieram os ficcionistas do movimento cyberpunk e, nos anos 90, os ficcionistas do movimento new weird, que também se esbaldaram no pós-humano. Mas, na poesia – principalmente na poesia brazuca –, o tema quase não aparece. Suspeito que Hiperconexões: realidade expandida é a primeira antologia consistente de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira. Talvez da literatura mundial. Mas preciso fazer uma ressalva importante: os poemas do livro falam do pós-humano, mas não são poesia pós-humana. Há uma grande diferença entre as duas coisas. Em termos formais, a antologia oferece um pouco da boa e tradicional poesia feita de versos, de linhas de texto dispostas na página branca. A novidade está no tema, porque raros são os poemas escritos no Brasil que tratam do pós-humano. Sinceramente, ainda tenho dificuldade de imaginar como será a poesia pós-humana, daqui a cem ou duzentos anos. Por ora, tudo o que consigo conceber é a poesia sobre o pós-humano, e olhe lá.

Você citou Isaac Asimov e, recentemente (janeiro de 2014), o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo publicou uma matéria falando sobre as previsões feitas por Asimov em 1964, que estariam concretizadas em 2014. Algumas previsões estavam corretas e outras ficaram bem longe da realidade atual. Pois bem, faço o convite para um exercício de imaginação: cite cinco previsões que, segundo o seu ponto de vista, se tornarão realidade em 2064.
Gostei do convite. Vou me basear, obviamente, nos projetos que os grandes centros de pesquisa estão desenvolvendo neste exato momento. Em 2064 a informática já terá dominado quase todo o planeta. Nessa época teremos finalmente o computador quântico. Haverá residências e escritórios administrados por inteligências artificiais. A realidade virtual, em games e simuladores, será indistinguível da realidade real. O automóvel sem motorista, dirigido por GPS, já estará rodando há duas décadas. As grandes cidades do mundo estarão repletas de robôs de todos os formatos e tamanhos. Próteses neurais permitirão a transmissão de pensamento. Nos hospitais do primeiro mundo, complicadíssimas cirurgias microscópicas serão realizadas por robôs. As primeiras crianças geneticamente aperfeiçoadas, mais saudáveis e resistentes ao envelhecimento, nascerão nessa época. Sortudos endinheirados estarão fazendo turismo espacial, por agências privadas. A primeira colônia humana em Marte já estará terraformando uma pequena região do planeta vermelho. Já foram cinco palpites? Acho que me empolguei, rs.

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