O Último Crítico Literário dos Universos

Conheci o generoso e perspicaz Eugen Weiss faz uns dois anos, na Casa Mário de Andrade, numa de minhas oficinas. Recentemente, Eugen nos presenteou com uma reflexão no mínimo inquietante sobre o jogo da crítica, da vida, do cosmo – reflexão que agora compartilho com os milhares de leitores deste blogue.

O Último Crítico Literário dos Universos

Olam Haba, o mundo vindouro preconizado na Cabalah judaica, não faz provisão nem previsão explícita para o papel do ser humano que viveria eternamente naquele mundo. Entretanto, caminhamos para ele independentemente das construções que podemos arquitetar, tanto as utópicas como as distópicas.

Talvez a razão para a progressão inexorável para esse destino esteja na aparente imutabilidade do comportamento do ser humano, notada desde os mais antigos mitos, tanto os registrados em alguma escrita como os que residem nas tradições orais. Afinal, se deus é eterno e fomos criados à sua semelhança, essa pétrea forma é uma exigência redundante. Não cabem especulações esperançosas, o erro é inato. O conhecimento, aquele que expulsou nosso primeiro antepassado da vida edênica, continua sendo revelado em doses maiores ou menores nas obras que compõe a massa de cultura da humanidade. Desde o paleolítico, aos poucos se percebe a sombra que nos acompanha nas obras esculpidas, grafadas ou pintadas. Alguma coisa na expressão do rosto, no gesto ou na frase dita em voz baixa. Revela-se.

Ficou cada vez mais fácil de, usando a forma escrita, explicitar essa sombra, ou sombras que pressionam o comportamento humano. Expressam-se na forma de jogos. Jogos nunca inocentes, como nos faziam crer as brincadeiras das crianças, ilusão apagada pelas considerações de Freud.

Não queremos explorar o tema por este caminho que nos afasta um pouco do objetivo, mas jogos são jogos porque têm resultado previsível: ou um ganha ou o outro ganha ou resulta em empate. Empate a ser decidido numa próxima oportunidade.

O núcleo essencial do ser humano transitou através de milênios, oculto e negado. Pela intensidade desses atos de negação, a pressão para a revelação se tornou enorme, incontrolável, propiciando a Energia para afrontar o estabelecido. O Tesão dominou os atos; quaisquer atos. Os mais jovens são sensíveis e receptivos e criativos. Os não tão mais jovens se debatem, se justificam e se apegam à linguagem cuja gramática de nada mais lhes serve. Morrem, morrerão, dão lugar ao fluxo incansável e interminável de revelações e esclarecimentos. Mas continua o jogo. O Jogo. Um Cara ou Coroa. Um sofisticado Jogo de Palitinhos.

As revelações vêm em muitas formas diferentes, muitos veículos diferentes, que oferecem recursos cada vez mais poderosos. Um exemplo poderia ser o livro de Joseph Conrad, Heart of darkness. Um mundo criado, um mundo revelado, um mundo negado de atrocidades no Congo Belga, explorado viciosamente pelo rei Leopoldo II da Bélgica, que resultou na escravização e morte de dois milhões de nativos. O horror, o horror, narra o protagonista que morre ao final e ressuscita erótico, energético, nas mãos de um Marlon Brando, buda vingativo, o coronel Kurtz das selvas do Vietnã, em Apocalipse now, novamente o horror, o horror.

O que considerar, o que criticar, se o paralelismo dessas duas construções é óbvio, de resultado final idêntico. Um Jogo. Repete-se, mas apesar disso revela o que não se sabia antes. A pulsão freudiana. O que trará a próxima reencenação? Não sabemos. Isso é comum e presente nas obras humanas. Nos universos construídos em livros, estátuas, teatros, músicas, óperas, pinturas, o que for, onde for.

Neste domingo, Luis Fernando Verissimo, na sua coluna no Estadão, trouxe o Obsoleto, em palavras muito melhores que estas aqui. Verissimo mostra que, de alguma forma, nos conformamos em ser o que somos, mas involuntariamente já pré-formamos um mundo futuro para conter algum resquício de nossa herança humana.

Podemos procurar alguns desses resquícios nos fragmentos de Luiz Bras na coletânea Pequena coleção de grandes horrores. Novamente, o horror, o horror. Ali, o coronel Kurtz, reduzido a pequenos pedaços, aparece na forma de sessenta e sete sementes para a criação de sessenta e sete mundos terminais.

Naquele destino apontado por Veríssimo, os humanos serão convertidos a seja lá o que for, talvez naquilo mostrado por Luiz Bras, e então, por consequência, apenas restará você, leitor, para o papel de Último Crítico Literário dos Universos.

Eugen Weiss

11 de maio de 2014

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