Anotações sobre a crônica

Em março deste ano teve início o Ateliê Permanente de Criação Literária, na Oficina da Palavra – Casa Mario de Andrade, em São Paulo.
Os gêneros conto e crônica são o foco principal do Ateliê, e as anotações abaixo formam parte da base teórica das atividades de escrita.

Anotações sobre a crônica

Jornalista: “O que é crônica?”
Rubem Braga: “Se não é aguda, é crônica.”
(Anedota contada por Ivan Ângelo)

Origem etimológica: a palavra crônica vem do latim chronica (narrativa que segue a marcha do tempo), que vem do grego khronikos (relativo ao tempo), de khronos (tempo).

Cuidado: não confundir a crônica historiográfica da Idade Média e do Renascimento, sobre reis e impérios (Crônica de Dom Pedro, Crônica de Dom João etc.), com a crônica moderna, totalmente diferente.

A crônica moderna é um texto curto, de quatrocentas a quinhentas palavras. É uma xícara de café, um sorvete. Um lampejo de inteligência pra ser apreciado em poucos minutos.

Pop star há mais de um século, sua popularidade cresce sem muito esforço entre jovens e adultos. “A crônica é a iniciação do brasileiro ao prazer de ler” (Joaquim Ferreira dos Santos).

Analogia: a crônica é um cartum, uma fotografia, enquanto o conto é uma história em quadrinhos, um curta-metragem.

Mas é óbvio que somente a brevidade não faz de qualquer prosa curta uma crônica. Outros elementos precisam estar presentes.

A crônica nasceu e prosperou com o jornal. Sua matéria-prima é o cotidiano, o aqui-agora do cronista. Fazem parte de sua turbulenta família a notícia, os costumes, a vida social, o senso comum. “A crônica é a poetização do cotidiano” (Massaud Moisés).

A crônica pede a primeira pessoa do singular, de maneira que narrador & cronista sejam a mesma pessoa.

A crônica é sempre sobre um assunto corriqueiro (aparentemente corriqueiro, mas cheio de significado íntimo pra quem narra). É uma vagamental pensabundagem (ou, se preferir, uma vagabundagem pensamental). Até mesmo a aguda falta de assunto pode ser assunto para uma crônica.

A crônica pode ser lírica ou irreverente, subjetiva ou escrachada, dependendo do temperamento do cronista.

A inflexão enérgica, de natureza épica, trágica ou dramática, sempre solene, não pertence ao universo da crônica, sempre despojado. “Na sua despretensão, a crônica humaniza” (Antonio Candido).

Melhor que correr quilômetros numa autopista de adrenalina é andar poucos metros, admirando os detalhes do jardim. A crônica pede o registro coloquial, a linguagem direta, os períodos curtos. Narrada em primeira pessoa, ela é quase uma conversa com o leitor, às vezes uma delicada confissão.

Porque o confessional cai bem na crônica, tanto que essa forma breve é o mais confessional dos gêneros em prosa. No plano literário, ela só perde para o poema lírico.

A crônica é uma conversa, sem dúvida, mas uma conversa fiada, informal, com o leitor médio. Como se este e o cronista fossem almas-gêmeas. Não uma conversa séria com o intelectual, não uma conversa erudita com o especialista em literatura. “A impessoalidade é não só desconhecida como rejeitada pelo cronista” (Massaud Moisés).

Ao contrário do conto, do romance, do poema e do ensaio, que visam a longa permanência, a maior ambição da crônica não é perdurar. É surpreender, brilhar intensamente hoje, mesmo que amanhã ninguém se lembre dela. Por essa razão a crônica é o menos elitista dos gêneros literários.

Imagine um triângulo: no primeiro vértice está o conto, no segundo o poema e no terceiro o ensaio. A crônica cem-por-cento está no centro do triângulo.

Se o cronista carregar na ação, a crônica ficará mais perto do conto. Será um texto híbrido, uma crônica-conto, com a forte presença da terceira pessoa do singular. Se carregar demais, privilegiando enredo, descrição e narração, ela deixará de ser crônica.

Se o cronista carregar no lirismo, a crônica ficará mais perto do poema. Será uma crônica-poema, dominada pela primeira pessoa do singular. Se carregar demais, privilegiando a subjetividade e a contemplação, ela deixará de ser crônica.

Se o cronista carregar na dissertação, a crônica ficará mais perto do ensaio (do artigo opinativo, da reportagem etc.). Será uma crônica-ensaio, com a forte presença da terceira pessoa do singular. Se carregar demais, privilegiando a reflexão ou a notícia, ela deixará de ser crônica.

Fique alerta, muita atenção: a maior parte dos textos considerados crônica, em jornais, revistas ou blogues, não é.

Parafraseando Mário de Andrade e contrariando Fernando Sabino: crônica NÃO é tudo o que o autor chama de crônica.

Muitas supostas crônicas, até de cronistas famosos, são na verdade minicontos. Ou artigos opinativos. Ou miniensaios. Ou resenhas.

Comédias da vida privada, de Luis Fernando Verissimo, As crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, As crônicas marcianas, de Ray Bradbury, e As crônicas de gelo e fogo, de George R.R. Martin, não são livros de crônicas.

Se quiser saber com certeza se determinado texto é uma crônica, abrace-o carinhosamente e sussurre em seu ouvido cinco perguntas:

Você é um texto curto, de quatrocentas a quinhentas palavras? É narrado na primeira pessoa do singular? É sobre um assunto corriqueiro? Sua linguagem é coloquial e seu tom é confessional? É carregado de lirismo ou irreverência?

Se a resposta for SIM para as cinco perguntas, não resta dúvida que você tem nos braços uma crônica cem-por-cento. Se for SIM para ao menos quatro das cinco perguntas, podemos dizer que você tem nos braços uma crônica oitenta-por-cento: uma crônica-conto, uma crônica-poema ou uma crônica-ensaio.

Essa classificação, porém, não tem nada a ver com a qualidade literária do texto, apenas com sua identidade.

Lembro que, no ensino médio, eu viajei na antologia O melhor da crônica brasileira, da editora José Olympio. Mas essa reunião trazia também contos disfarçados de crônica, e o professor pirou, tentando justificar para os alunos confusos essa mistura.

Na verdade, a crônica sente certa aversão ao livro. Repito: a crônica – não se assuste, perplexo leitor – sente certa aversão ao livro, à antologia.

Livre no jornal, na revista ou no blogue, quando presa num livro, ao lado de outras, mesmo a crônica mais interessante perde parte da força, do frescor original.

Tristão de Ataíde radicalizou, quando escreveu que uma crônica num livro é uma flor murcha, um passarinho afogado.

Massaud Moisés também radicalizou, quando escreveu que o livro é o ataúde da crônica. Nobre e florido, mas ainda assim ataúde.

Último detalhe: meio século atrás, não eram poucos os especialistas que afirmavam que a crônica é uma expressão literária tipicamente brasileira. Atualmente, será que essa afirmação ainda é válida?

Exercícios

Querido cronista em início de carreira, vamos ao primeiro exercício?
Então se prepare pra caçada.
A diferença entre o cronista com mais de dez mil horas de voo e o cronista ainda sem brevê é simples: o primeiro é presa, o segundo é caçador.
Explico:
Cronista experiente não precisa perseguir a crônica. Ela salta sobre ele dez, vinte vezes por dia. Tudo, pra ele, é assunto.
Já o cronista em treinamento precisa caçar a crônica.
Então o exercício é:
Durante uma hora cace a crônica ao seu redor. Dentro de casa, nos objetos, nos ruídos, na variação de luz. Ou fora de casa, na calçada, no rosto dos passantes, na banca de jornal, na padaria, no trânsito.
Dica do mestre Xico Sá: “Tudo o que se mexe dá uma crônica. As coisas paradas também: a vida besta das estátuas, por exemplo.”

Segundo exercício: a crônica de costumes.
Tudo muda: todo mundo, o mundo todo, o tempo todo.
Sexo. Casamento. Moda. Música. Etiqueta.
Velhos preconceitos morrem, o que antes era tabu vira mania nacional. Novos preconceitos nascem.
A constante mudança de comportamento, essa é a única regra que não muda na amizade, no amor, na família, no trabalho, na alimentação etc.
Faça uma pequena lista do que a sociedade aprovava ou condenava poucas décadas atrás. Então faça outra lista pequena, anotando o que a sociedade contemporânea aprova ou condena.
Agora escreva uma crônica sobre uma das mudanças.

Terceiro exercício: a técnica da repetição-de-uma-ideia (minimalismo).
O amor acaba e As eternas coincidências são crônicas do mestre Paulo Mendes Campos que fazem uso da técnica da repetição-de-uma-ideia.
Leia essas crônicas, pra entender como a repetição minimalista pode ser usada, e escreva uma crônica sobre qualquer assunto trivial, no registro lírico ou irreverente, você decide, usando essa técnica.

Indicações de leitura
Antonio Candido: A vida ao rés do chão, em Recortes, editora Ouro Sobre Azul.
Joaquim Ferreira dos Santos (organização): texto introdutório de As cem melhores crônicas brasileiras, editora Objetiva.
Jorge de Sá: A crônica, editora Ática.
Massaud Moisés: capítulo sobre a crônica, em A criação literária (volume 2), editora Cultrix.
Xico Sá: Crônica, da coleção Oficina de Bolso, Terracota Editora.

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