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Que é poesia?

24/08/2014

Esfinge Poesia

A esfinge saracoteia, rosna e encurrala Édipo a dez centímetros do abismo sem fundo.
Édipo conhece a única regra desse jogo de vida ou morte.
O monstro fará uma pergunta, que o homem deverá responder sem embromação.
Se a resposta estiver correta, a esfinge voltará para o abismo.
Se estiver errada, Édipo será devorado.
O monstro dispara: que é poesia?
Édipo lembra de Paul Valéry e desfere: “é a permanente hesitação entre som e sentido”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Game over. Tela preta. Tela branca.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Roman Jakobson e desfere: “é a linguagem voltada para sua própria materialidade”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Heidegger e desfere: “fundação do ser mediante a palavra”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Octavio Paz e desfere: “linguagem em estado de pureza selvagem”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Coleridge e desfere: “as melhores palavras na melhor ordem”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Novalis e desfere: “a religião original da humanidade”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Na última tentativa, Édipo não pensa em ninguém.
Pensa apenas nos milhares de poemas que leu na vida, compara todos eles, reflete sobre as semelhanças e diferenças, e desfere: poesia é qualquer texto composto em versos e estrofes.
Satisfeita, a esfinge salta pra dentro do abismo.

Procurada mais tarde pela imprensa, a esfinge declara: vejam no dicionário, definir é estabelecer limites, delimitar, indicar o verdadeiro sentido de algo, sua significação precisa; definições muito subjetivas, ambíguas, que não definem nada, não me interessam; os movimentos de vanguarda do século 20 aboliram a fronteira que separava os gêneros literários; releiam os melhores poemas de Maiakovski Álvaro de Campos Jacques Prévert Derek Walcott Bandeira Drummond Adilia Lopes; analisem as melhores páginas de Proust Joyce Virginia Woolf Faulkner Guimarães Rosa Clarice Lispector Hilda Hilst Saramago Lobo Antunes; a prosa incorporou procedimentos que antes eram exclusivos da poesia e a poesia incorporou procedimentos que antes eram exclusivos da prosa; todas as definições apresentadas por Édipo não são exclusivas da poesia, essas definições também se aplicam perfeitamente a muitas páginas de prosa; menos a última definição, que salvou sua última vida; Édipo percebeu a verdade: poesia é qualquer texto composto em versos e estrofes, prosa é qualquer texto composto em períodos e parágrafos.
Em poucos minutos já circula nas redes sociais o veredito irrefutável da esfinge: poesia é prosa com enjambement. Ponto.
“Princípio tão simples e sólido quanto a primeira lei de Kepler ou a primeira lei de Newton”, escreve um cronista social.

Dois meses depois a esfinge é encontrada morta, num galpão abandonado.
“Homicídio após longa tortura”, noticiam os jornais.
O modus operandi do assassino, ou dos assassinos, aponta para um grupo de famigerados poetas da ala mais radical da lírica tupiniquim.
Mas nada fica provado, ninguém é indiciado.

Entre os pergaminhos da esfinge são encontrados os três poemas abaixo – respectivamente de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Paulo Leminski – e os três minicontos reproduzidos logo em seguida – respectivamente de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado –, todos copiados com letra miúda, garatujas de criatura mítica.

A hora da estrela

(
Ela me incomoda tanto
que fiquei oco.
…..Estou oco desta moça.
E ela tanto mais me incomoda
quanto menos reclama.
Estou com raiva.
Uma cólera de derrubar copos e pratos
e quebrar vidraças.
…..Como me vingar?
Ou melhor, como me compensar?
Já sei:
amando meu cão
que tem mais comida do que a moça.
…..Por que ela não reage?
Cadê um pouco de fibra?
Não,
ela é doce e obediente.
)

Grande sertão: veredas

…..Uma coisa
…..é pôr ideias arranjadas,
outra é lidar com país de pessoas,
de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias…
…..Tanta gente – dá susto de saber –
…..e nenhum se sossega:
todos nascendo, crescendo,
…..se casando,
querendo colocação de emprego, comida,
…..saúde,
riqueza, ser importante,
querendo chuva e negócios bons…
De sorte que carece de se escolher:
ou a gente se tece de viver no safado comum,
…..ou cuida de só religião
…..só.
Eu podia ser: padre sacerdote,
se não chefe de jagunços;
…..para outras coisas
…..não fui parido.

Catatau

A cara dos mestres
é o modelo das máscaras.
Que cara alguém terá
para erguer a máscara
que jaz sobre a cara
dos mestres?

Onde é que nós estamos
que já não reconhecemos
os desconhecidos?
Quer ter a bondade de martirizar
essa santa ignorância?

A sombra
traz um vento
soprando o lume
só pra ver
a que mundo
este se resume.

Balada de Santa Maria Egipcíaca

Santa Maria Egipcíaca seguia em peregrinação à terra do Senhor. Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.
Santa Maria Egipcíaca chegou à beira de um grande rio. Era tão longe a outra margem! E estava junto à ribanceira, num barco, um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
– Leva-me ao outro lado. Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó. Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.
– Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe. Leva-me ao outro lado.
O homem duro escarneceu:
– Não tens dinheiro, mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu, na graça divina, ao gesto que ele fez. Santa Maria Egipcíaca despiu o manto, e entregou ao barqueiro a santidade da sua nudez.

Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sono, e o resto. Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa… Nossa!
Não me chovas, Maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto. Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma! Eu lhe dizia em vão – pois que Maria quanto mais eu rogava, mais chovia. E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho, que não aquece, pois água de chuva é mosto de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha! Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa e um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei. E quanto mais as ondas me levavam, as fontes de Maria mais chuvavam, de sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso, e eis o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chovido.
Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando contra essa chuva, estúpida e mortal catarata (jamais houve outra igual). Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram, e Maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram. Continentes já submergem com todos os viventes, e Maria chovendo. Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura, e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência, e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, Maria! – e ela parou.

Agora, ó José

É teu destino, ó José, a esta hora da tarde, se encostar na parede, as mãos para trás. Teu paletó abotoado de outro frio te guarda, enfeita com três botões tua paciência dura. A mulher que tens, tão histérica, tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão o teu passeio maneiro e olhas assim e pensas, o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta o que tu sentes, José?
O que te salva da vida é a vida mesma, ó José, e o que sobre ela está escrito a rogo de tua fé: “No meio do caminho tinha uma pedra”, “Tu és pedra e sobre esta pedra”, a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José, dorme com tua mulher, gira a aldraba de ferro pesadíssima. O reino do céu é semelhante a um homem como você, José.

Muito tempo depois, Édipo finalmente compreenderá que a esfinge não era tão sábia e lúcida quanto todos imaginavam.
Ao narrar a seus netos o encontro com o monstro, o herói explicará que faltou à esfinge a percepção mais aguda da real diferença entre poesia e poema.
Poesia, quando sinônimo de perfeição, é a qualidade presente em certos artefatos culturais, capaz de despertar o sentimento do belo e provocar o encantamento estético.
Poesia, quando sinônimo de poema, essa sim é o texto composto em versos e estrofes.
A primeira definição de poesia (sinônimo de perfeição) permite que a gente busque essa qualidade em todas as artes.
Permite que a gente fale da poesia que há nos bons poemas, nos bons contos, nos bons romances, na boa arquitetura, no bom cinema, no bom teatro, na boa escultura…
Se Paul Valéry, Roman Jakobson, Heidegger, Octavio Paz, Coleridge e Novalis tinham em mente a poesia enquanto perfeição, todas as seis primeiras definições não estavam erradas.
Esses senhores falavam da poesia presente em todos os artefatos culturais compostos com engenho e arte, não apenas nos bons poemas.
Diante dos netos, a conclusão de Édipo será uma só:
Errado estava o monstro, que só poupou minha vida, a última de sete, apenas quando recebeu a definição de poema.

Indicações de leitura
Antonio Candido: Na sala de aula, editora Ática.
Antonio Candido: O estudo analítico do poema, editora Humanitas.
Norma Goldstein: Versos, sons, ritmos, editora Ática.
Samira Chalhub: Funções da linguagem, editora Ática.

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Alexandre Dumas e a guerra dos livros

23/08/2014

Dumas

Duas elites

Engana-se quem pensa que os livros são criaturas silenciosas. Que estão adormecidos nas estantes, ao menos até que alguém os pegue e comece a ler. Nunca foi assim. A maioria das pessoas é que não treinou os ouvidos para o blablablá desses tagarelas.

Bibliotecas e livrarias são locais barulhentos. Não importa o tamanho do edifício, não interessa se a biblioteca ou a livraria é física ou on-line. O alvoroço é sempre grande. Os livros não param de papaguear, fazem isso há séculos. Basta prestar atenção e você logo escutará suas reclamações, seus discursos, tudo o que falam.

Engana-se ainda quem imagina que os livros são criaturas amistosas, que vivem pacificamente em perpétua e lúcida amizade. Grande equívoco. Semelhante às sociedades humanas, as sociedades dos livros também são agitadas por intermináveis conflitos, estão em constante desassossego.

Igual às pessoas, os livros são feitos de crenças e desejos. Estão sempre divulgando e defendendo as mais diferentes doutrinas filosóficas, políticas, econômicas, sociais e artísticas. Umas autênticas, outras enganosas. Umas legítimas, outras oportunistas.

Os livros não fogem da briga. Eles constantemente se reúnem em grupos maiores para combater outros grupos que divulgam e defendem ideologias diferentes.

No campo da prosa de ficção, por exemplo, ocorre o confronto feroz das obras consideradas de alta densidade literária contra as obras consideradas de puro entretenimento.

Pense nos romances e nos contos de Thomas Pynchon e Alice Munro e você estará pensando nos livros considerados de alta literatura, mais sofisticados, menos comuns. Pense nos romances e nos contos de Dan Brown e Stephen King e você estará pensando nos livros considerados de entretenimento, menos sofisticados, mais populares.

São duas elites, dois modos legítimos de trabalhar a literatura. Ambos produzem obras-primas e obras medíocres. Pena que estejam constantemente em guerra.

Folhetim

Um dos escritores mais prestigiados do segundo grupo, o da literatura de entretenimento, é o francês Alexandre Dumas. O autor de obras-primas como Os três mosqueteiros, O homem da máscara de ferro e O conde de Monte Cristo saiu de cena há quase cento e cinquenta anos, mas seus romances continuam sendo traduzidos e lidos no mundo todo.

De certo modo, sem Dumas, sem a influência avassaladora de seus folhetins, não existiriam hoje Dan Brown e Stephen King. Não existiriam hoje George R.R. Martin e sua estupenda saga As crônicas de gelo e fogo.

Alexandre Dumas nasceu em 1802, num local próximo a Paris, mais precisamente na comuna Villers-Cotterêts, no departamento de Aisne. No pequeno futuro grande escritor reuniam-se fisicamente a aristocracia e o povo. Ele era neto do marquês de la Pailleterie e de uma jovem negra da ilha de São Domingos, chamada Marie Césette Dumas. Seu pai foi o famoso general Thomas-Alexandre Dumas, membro das forças napoleônicas, e sua mãe foi Marie-Louise Dumas, filha de um estalajadeiro.

Basta uma rápida olhada no calendário histórico para perceber que Alexandre Dumas nasceu num país e numa época turbulentos. A Revolução Francesa havia acabado de estourar, em 1789. O liberalismo político e filosófico inspirava um análogo liberalismo literário e artístico. A Europa estava em chamas e os intelectuais não paravam de jogar lenha nessa fogueira.

Na passagem do século 18 para o 19, tiveram início a ascensão da burguesia e a democratização da cultura. Foi quando irrompeu um dos movimentos mais vigorosos da história da arte e da literatura: o romantismo.

A maior atração dos jornais da época eram os folhetins: narrativas ágeis e magnetizantes publicadas em capítulos, cheias de romance e suspense, intrigas e peripécias. O folhetim foi um fenômeno cultural tão violento que, no século 20, os novos meios de comunicação de massa (o rádio, o cinema e a televisão) logo trataram de incorporar sua linguagem. As telenovelas e os seriados de hoje são os herdeiros do antigo folhetim.

Refletindo sobre o período, na excelente História social da arte e da literatura, o crítico alemão Arnold Hauser escreveu: “Todo o mundo lê os folhetins: a aristocracia e a burguesia, a sociedade política e a intelligentsia, homens e mulheres, jovens e velhos, patrões e empregados.” Essa popularidade assombrosa deu novo impulso à arte da ficção de entretenimento.

O folhetim significou uma democratização sem precedentes na história da literatura. Na passagem do século 18 para o 19, o analfabetismo começou a ser erradicado, o poder aquisitivo da população começou a crescer e o preço dos bens culturais, entre eles o jornal, começou a cair.

A poderosa indústria cultural, que há muito tempo alimenta nossa sociedade do entretenimento, estava apenas começando.

Best-sellers

Um dos primeiros e mais bem-sucedidos folhetinistas franceses foi ninguém menos que o prolífero Honoré de Balzac. Mas os campeões de vendas, os queridinhos dos leitores, foram mesmo Eugène Sue e Alexandre Dumas, que publicavam em jornais concorrentes e costumavam ser muito bem pagos, como acontece com os novelistas de hoje.

Sobre o autor de Os três mosqueteiros, Arnold Hauser escreveu: “Alexandre Dumas, o mestre da tensão dramática, é também um brilhante expoente da técnica do seriado, muito semelhante à técnica do melodrama e do teatro popular. Quanto mais dramático é o desenvolvimento de um folhetim, mais forte é o efeito que a narrativa exerce sobre o público.”

O sucesso literário e financeiro era o combustível de que o autor precisava para continuar produzindo compulsivamente. O que poucos leitores sabem é que Dumas não trabalhava sozinho. Da mesma maneira que os novelistas de hoje, ele contava com uma boa equipe de apoio. Do contrário, seria impossível para Dumas escrever os mais de seiscentos títulos assinados com seu nome.

“Para satisfazer a enorme demanda, os romancistas populares aliam-se a redatores que lhes proporcionam inestimável ajuda na criação de obras padronizadas”, escreveu Arnold Hauser. “São montadas verdadeiras fábricas de literatura, nas quais os folhetins são produzidos de modo quase mecânico. Numa ação judicial, fica provado que Dumas publica mais com seu próprio nome do que poderia escrever mesmo que trabalhasse dias e noites a fio sem uma pausa. De fato, ele emprega setenta e três colaboradores, entre eles Auguste Maquet, a quem concede certa autonomia na produção.”

Publicado originalmente no jornal Le Siècle, de março a julho de 1844, Os três mosqueteiros é sem dúvida uma das aventuras mais amadas e recontadas de todos os tempos. Trata-se do primeiro folhetim de uma trilogia histórica que romanceia fatos importantes dos reinados de Luís XIII e Luís XIV e da Regência que se instaurou na França entre os dois governos.

O sucesso do romance de capa e espada protagonizado pelo jovem D’Artagnan e pelos veteranos Athos, Porthos e Aramis foi tamanho que o próprio Dumas logo o adaptou também para o teatro. Vinte anos depois, lançado em 1845, e O visconde de Bragelonne — ao qual pertence a famosa história d’O homem da máscara de ferro —, escrito entre 1848 e 1850, completam a trilogia.

Sucesso

Dumas ganhou muito dinheiro com o trabalho literário. Apesar disso, não conseguia escapar das dívidas multiplicadas por seu estilo de vida desregrado, boêmio. Mesmo sendo casado, o escritor mantinha relacionamentos extraconjugais e teve pelo menos três filhos fora do casamento, entre eles o não menos famoso escritor Alexandre Dumas, filho, autor de A dama das camélias. Cuidado para não confundir os autores.

Dumas pai amava o grande público e nunca escondeu que seu principal objetivo, ao escrever para o teatro ou a imprensa, era entreter e magnetizar sua legião de fãs. No mesmo ano em que foi publicado Os três mosqueteiros, saiu também O conde de Monte Cristo.

Inveja doentia, traição, injustiça, fuga de uma prisão de segurança máxima, um tesouro secreto, um plano ardiloso de vingança e, é claro, vários assassinatos. Esses são os elementos da trama de outro best-seller do século 19.

A primitiva necessidade humana de narrativas intensas, capazes de promover a catarse coletiva, fez os leitores esperarem ansiosamente, de agosto de 1844 a janeiro de 1846, pelos capítulos dominicais d’ O conde de Monte Cristo. Desde então, nunca mais saíram do imaginário ocidental a queda e a ascensão de Edmond Dantès, o jovem pobre que, motivado pelo desejo de vingança, enriquece, se torna conde e, fazendo justiça com as próprias mãos, triunfa sobre seus inimigos.

Diante de tanta exuberância, há quem pergunte por que Dumas não é tão respeitado, pela crítica especializada, quanto Stendhal, Balzac e Flaubert. Talvez porque em seus escritos há a mão de vários assistentes? Pode ser. Heloisa Prieto, especialista em Alexandre Dumas, escreveu: “O processo industrial de fabricação de histórias, por meio do novo suporte midiático, o jornal, exigia o trabalho de equipe. Longe de explorar seus colaboradores, Dumas os valorizava. Sua metodologia coletiva já antecipava as futuras reuniões de roteiro e brainstorming, a troca intensa de ideias, atualmente tão comum no cotidiano das produtoras cinematográficas.”

Mas a principal razão para Dumas não ser tão respeitado quanto os grandes nomes das letras francesas foi o longo namoro do escritor com o sucesso comercial. Segundo os especialistas, Dumas cometeu o pior pecado no seu ramo de trabalho: com suas aventuras ele procurou acima de tudo, e sempre conseguiu, seduzir e aprisionar os leitores. Mesmo que para isso tivesse que esbanjar na ação e nos efeitos especiais.

Obras-primas reconhecidas ou não, o fato é que a bravura dos mosqueteiros do rei e a vingança implacável de Edmond Dantès extrapolam o papel impresso. Elas pertencem à esfera do mito, como a loucura do pobre Dom Quixote e o ciúme de Bentinho pela amada Capitu. São narrativas que fincaram raízes em nosso imaginário coletivo e agora fazem parte de nossa essência cultural.

Há quem afirme que Alexandre Dumas é o escritor mais lido e traduzido da história da França. Porém, apesar do sucesso estrondoso em vida, o escritor, por ser mulato, não escapava da hostilidade dos racistas. Quando morreu, em 1870, Dumas não foi sepultado no Panteão de Paris, o magnífico mausoléu onde estão os grandes escritores e pensadores franceses.

Somente em 2002, durante o governo de Jacques Chirac, essa injustiça foi corrigida. Numa cerimônia televisionada, os restos mortais de Dumas foram exumados do cemitério de Villers-Cotterêts e transferidossolenemente para o Panteão.

Romance juvenil

Da vasta obra de Alexandre Dumas, somente os títulos mais badalados foram lançados aqui. Totalmente desconhecidas no Brasil são as aventuras exploratórias do capitão Panfílio, comandante do brigue mercante La Roxelane. Publicado pela primeira vez em 1839, o bem-humorado Capitão Panfílio foi escrito para o público juvenil. O protagonista do romance é um corsário simpático e cativante, mas também oportunista e cruel, cujo maior objetivo é a rapinagem e o lucro. A intenção do autor foi denunciar os abusos mercantilistas na África, principalmente o tráfico de escravos e animais selvagens.

Dumas, na verdade, juntou nesse romance duas histórias, interligadas por animais. A primeira, publicada originalmente em 1832, intitulava-se Jacques I e Jacques II. Nela, um grupo de jovens boêmios reunidos ao redor do pintor Alexandre Descamps convive com bichos de estimação exóticos, entre eles um macaquinho angolano chamado Jacques I e seu amigo da mesma espécie, Jacques II.

Na história dentro da história, tirada de um manuscrito, o capitão Panfílio é apresentado aos outros personagens e ao leitor. Foi ele quem capturou Jacques I durante uma caçada na África. Mais tarde Dumas ampliou consideravelmente a aventura protagonizada pelo capitão de caráter duvidoso.

A primeira linha narrativa, dos boêmios, foi suprimida da edição brasileira, com tradução de Ubiratan Paulo Machado. Essa decisão editorial potencializou a segunda linha, bem mais interessante. As aventuras pitorescas do descarado bucaneiro ganharam toda a atenção apenas para si.

Duas críticas

Repito o que eu disse no início: engana-se quem imagina que os livros são criaturas amistosas, que vivem pacificamente em perpétua e lúcida amizade. Os romances de Alexandre Dumas, da mesma maneira que os de Dan Brown, Stephen King, George R.R. Martin e de tantos outros ficcionistas congelados pela crítica especializada, estão sempre em guerra com os romances da chamada alta literatura. Estão sempre brigando com Madame Bovary, de Flaubert, O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon, Felicidade demais, de Alice Munro, e outros.

É sabido que a crítica acadêmica, praticada nas universidades e em boa parte da imprensa (a maioria dos jornalistas tem mestrado e doutorado, outros são professores universitários), torce vigorosamente o nariz para a literatura de gênero: aventura, policial, espionagem, ficção científica, fantasia, terror etc.

Também é sabido que os autores, os editores e os consumidores da literatura de gênero torcem o nariz, com igual vigor, para a crítica acadêmica e as obras que ela legitima. Isso deixa claro que o jogo literário, diferente do futebol ou do boxe, tem pelo menos dois conjuntos de regras. O critério aplicado pelo primeiro grupo na avaliação das obras literárias é o reverso do critério aplicado pelo segundo grupo.

São duas elites críticas, cada qual com sua balança e sua régua. A primeira diz que trabalha apenas com a alta literatura, com a grande literatura, com a Literatura com inicial maiúscula. Ela acusa a segunda de trabalhar somente com a baixa literatura, com a literatura vulgar, fácil, de entretenimento.

A segunda elite acusa a primeira de ser elitista, aristocrática e esnobe, de só apreciar obras de linguagem complicada e obscura. As obras abençoadas pela segunda elite geralmente vendem mais do que as obras abençoadas pela primeira, que se ressente muito disso. E se vinga, fundando um clube muito mais elegante e prestigiado, chamado establishment, ao qual jamais permitirá que sejam admitidos uma obra ou um autor da segunda elite, que também se ressente disso.

Os dois critérios de avaliação literária são:

Critério da elite acadêmica

1. Linguagem original, conotativa, que não possa ser atribuída a outros escritores do presente e do passado, por vezes avessa à norma culta. O autor deve se expressar de maneira única, inaugurando seu próprio modo poético. Contratar colaboradores? Nem pensar!
2. Subjetivismo. Narrador modernista, tortuoso ou fragmentário, psicológico, pouco confiável, às vezes delirante.
3. Enredo frio, pobre em ação, sem muitas peripécias ou surpresas, próximo da vida comum. A forma literária é mais importante do que o conteúdo.
4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior.
5. Fuga do gênero a que (supostamente) pertence. Faz parte do desejo supremo de originalidade a rejeição das principais diretrizes do gênero a que a obra pertenceria. O novo romance quer transcender os limites do gênero romance, o novo conto quer transcender os limites do gênero conto, o novo poema quer transcender os limites do gênero poema.
6. Purismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, são violentamente rejeitadas pelo sistema.

Critério da elite da literatura de gênero

1. Linguagem transparente, denotativa, por vezes complexa, mas ainda assim reconhecível por uma vasta gama de leitores. O autor deve se expressar respeitando a norma culta que orienta o uso do idioma.
2. Realismo. Narrador clássico, organizado e disciplinado, pouco introspectivo, confiável, onisciente.
3. Enredo quente, rico em ação, cheio de peripécias e surpresas, afastado da vida comum do leitor. O conteúdo literário é tão importante quanto a forma, ou até mais.
4. O mundo exterior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo interior.
5. Adequação ao gênero e ao subgênero a que pertence. O romance ou o conto policial, de fantasia ou de ficção científica respeitam as balizas que definem o gênero e o subgênero a que pertencem.
6. Ecumenismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, se não são bem aceitas pelo sistema, ao menos não são sumariamente rejeitadas.

Atualmente, muitos autores do primeiro grupo caem em depressão ao perceberem que seu romance, ou sua coletânea de contos ou de poemas, é um retumbante fracasso comercial, apesar do amplo reconhecimento da crítica especializada. Jamais terão o número de leitores de que se julgam merecedores.

Muitos autores do segundo grupo, diante do sucesso de vendas de seu romance, ou de sua coletânea de contos (raramente há poetas aqui), também ficam deprimidos ao perceberem que jamais terão o reconhecimento da crítica acadêmica e, consequentemente, jamais figurarão nas apostilas e nos compêndios do ensino oficial. Jamais pertencerão ao establishment.

Uns aceitam a contragosto a situação e seguem em frente. Outros esperneiam e brigam. Insultam. Dizem, os do primeiro grupo, que o Brasil não é um país de leitores (de leitores qualificados, é o que querem dizer), afirmam que a imbecilidade e a massificação reinantes são culpa da tevê e da péssima qualidade do ensino público. Dizem, os do segundo grupo, que os críticos acadêmicos confundem complexidade com complicação, afirmam que os membros dessa elite literária beneficiam as obras mais áridas e menos inteligíveis como estratégia de dominação cultural e social.

Mas o maior pecado que os membros de cada grupo cometem é avaliar as obras do grupo adversário com o critério errado. Avaliar as obras da literatura de gênero com o critério da elite acadêmica gera todo tipo de mal-entendido. Avaliar as obras da alta literatura com o critério da elite da literatura de gênero também. Confusão e encrenca. Nada de proveitoso pode resultar dessa inversão de valores motivada pelo puro chauvinismo.

Indicações de leitura
Alexandre Dumas, deux siècles de littérature vivante
Portal mantido pela Société des Amis d’Alexandre Dumas
http://www.dumaspere.com

A mulher da gargantilha de veludo e outras histórias de terror, de Alexandre Dumas. Tradução de André Telles. Editora Zahar, 2012.
Capitão Panfílio, de Alexandre Dumas. Tradução de Ubiratan Paulo Machado. Sesi-SP Editora, 2014.
Folhetim: uma história, de Marlyse Meyer. Companhia das Letras, 1996.
História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser. Tradução de Álvaro Cabral. Editora Martins Fontes, 1998.
O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Editora Zahar, 2012.
Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Editora Zahar, 2011.

[ Publicado originalmente na revista Ponto nº 5, de março de 2014 ]

Outro poema de Valerio Oliveira

19/08/2014

Tubarao Valerio

viajantes

no dorso
cinza-escuro
deste singular
tubarão-cidade
a vida é plural
     retinas de outono
     acenam barbatanas
          dentes de inverno
          desconhecem
          a satisfação 

no dorso
titanic-estrela
deste singular
tubarão-cidade
somos cem mil surdos
mudos
     na trilha agridoce
     dos vagalumes
     ninguém é
     de ninguém

          amém

Anotações sobre o conto

13/08/2014

Em março deste ano teve início o Ateliê Permanente de Criação Literária, na Oficina da Palavra – Casa Mário de Andrade, em São Paulo.
Os gêneros conto e crônica são o foco principal do Ateliê, e as anotações abaixo formam parte da base teórica das atividades de escrita.

Anotações sobre o conto

O território comum da literatura e da biologia é a anatomia.

Literatura e biologia produzem organismos que podem ser desmontados, analisados e catalogados. Mas esse movimento reducionista jamais foi capaz de aprisionar o mistério da criação.

Nas livrarias e nas bibliotecas existem quase duas dezenas de obras que teorizam sobre as formas literárias, dando dicas, comentando exemplos etc. Mas o estudo dessa bibliografia garante muito pouco durante a escritura de um conto ou um poema.

As anotações abaixo são uma simplificação didática, apenas isso: um desenho bastante esquemático, mostrando quais são os órgãos vitais de qualquer narrativa curta ou longa.

São o ponto de partida para saborosas conversas sobre as ficções que mais amamos. Debates descontraídos. Informais. Acompanhados de um bom fermentado ou destilado.

Eu duvido que exista, além da anatomia, uma fisiologia das formas literárias, ou seja, a ciência do funcionamento dos órgãos vitais de qualquer obra em prosa ou verso. Se existir, deve ser uma especialidade tão complicada e esotérica que não valerá a pena se preocupar com ela.

Teoria e prática é um casamento virtuoso. Mas na hora de escrever vale mais a prática excessiva do que a teoria exagerada.

[ Querido contista em início de carreira, não siga em frente antes de ler o artigo Reflexões sobre as antigas reflexões sobre o conto: parte 1 e parte 2. ]

Categorias da narrativa

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

O narrador e o personagem principal (protagonista) formam o centro gravitacional de qualquer narrativa. Ao redor deles gira todo o universo ficcional.

Os personagens se dividem em protagonista, antagonista e coadjuvante.

Muitas vezes o narrador é o protagonista ou um coadjuvante muito ligado a ele.

Não é exagero dizer que o protagonista é o elemento mais importante de uma narrativa. É do personagem principal – seu drama, suas ações, sua personalidade, seus conflitos internos e externos etc. – que os leitores mais se recordam, anos depois da leitura de um conto, uma novela ou um romance de que gostaram.

Os heróis da ficção são geralmente mais famosos do que os ficcionistas que lhes deram a vida. É mais fácil se lembrar da história de Ulisses, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Anna Karenina, Macabea ou Riobaldo do que da biografia dos autores que dedicaram tempo e talento na escritura dessas histórias.

Tipologia do narrador

Narrador em primeira pessoa
Protagonista: o herói conta sua história.
Coadjuvante: um amigo ou parente do protagonista conta a história, mantendo-se em segundo plano.
Exemplos famosos de narradores-coadjuvantes estão em Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle, A cidade e as serras, de Eça de Queirós, O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, Doutor Fausto, de Thomas Mann, e On the road, de Jack Kerouak.

Narrador em segunda pessoa
É o tipo mais raro de narrador. Trata-se basicamente de uma voz personificada, que narra e comenta as ações do protagonista, dá conselhos a ele, divaga, irrita-se, comove-se, sem jamais se corporificar na trama.
Somente o leitor escuta o narrador em segunda pessoa, mas este jamais fala com o leitor. O narrador em segunda pessoa fala apenas com o herói, mas este jamais escuta o que ele diz.
Narrador, protagonista e leitor vivem em planos existenciais diferentes.
Todos os contos da coletânea A vida é fêmea, de Homero Fonseca, são narrados em segunda pessoa.
Outro bom exemplo de narrador em segunda pessoa está em Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid.
Três capítulos de É assim que você a perde, de Junot Díaz, também apresentam esse narrador incomum.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro: narra de maneira objetiva e imparcial, sem se envolver emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente intruso ou intrometido: narra de modo passional, envolvendo-se emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente polifônico ou em transe: narra de maneira exaltada, às vezes delirante. Sua fala desordenada mistura a primeira, a segunda e a terceira pessoa. Sua linguagem é o discurso indireto livre, o monólogo interior ou o fluxo de consciência.

É bom frisar que a tradicional onisciência não é um atributo essencial do narrador.

O narrador onisciente, o próprio nome já diz, é o deus que sabe tudo não apenas do protagonista mas de todos os personagens e da história inteira. Não há detalhe ou segredo que ele não conheça. Seu alcance cronológico e geográfico é enorme. Está familiarizado com o desenlace antes mesmo que aconteça.

Muitos ficcionistas, porém, preferem evitar a onisciência do narrador: tiram dele o conhecimento absoluto, fazendo-o acompanhar bem de perto apenas o protagonista. Narrador e herói agora compartilham a mesma perspectiva e testemunham os mesmos eventos, sem saberem o que virá em seguida.

Mas esse narrador ainda mantém a habilidade de ouvir os pensamentos do protagonista, de conhecer sua vida subjetiva.

Há ficcionistas que tiram até isso de seu narrador, limitando-o a apenas descrever, de fora, o que está acontecendo.

O narrador volúvel e pouco confiável – em primeira, segunda ou terceira pessoa – é outra alternativa bastante estimulante, à disposição do ficcionista que deseja fugir do lugar comum. Esse narrador sonega informação e distorce certos fatos, a fim de melhorar sua reputação e ludibriar o leitor.

Modo dramático
À maneira do teatro: discurso direto, feito apenas de diálogos, às vezes com breves indicações de cena. Pode ser levado ao palco facilmente.
Muitos ficcionistas parodiaram certas formas de diálogo (catecismo, entrevista, inquérito policial, conversa no telefone, na rede social, interrogatório no tribunal etc.) na composição de narrativas incomuns.

Narrador-montador
Típico de narrativas experimentais, esse narrador intangível promove a colagem ou a montagem de fragmentos de textos (incluindo bilhetes, cartas, documentos, horóscopos, matérias de jornal e revista etc.) e imagens (desenhos, fotos, tíquetes, rótulos, anúncios de jornal e revista, partituras etc.).

Não é frequente, mas uma narrativa pode fazer uso de mais de um tipo de narrador.

Exemplos

Narrador em primeira pessoa
Protagonista
Ladeira desgraçada, roubou todo o meu fôlego. Paro um minuto pra cuspir. Abro a jaqueta e limpo os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Pulo o muro do quintal e fico observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Minha experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Abro bem devagar. Empunho a lanterna e o revólver roubados do meu padrasto, minhas mãos tremem. Antes de entrar, olho em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em primeira pessoa
Coadjuvante
Ladeira desgraçada, meu amigo resmunga, apoiando-se em mim. Paramos pra cuspir e recuperar o fôlego. Turco abre a jaqueta e limpa os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Turco pula o muro do quintal e fica observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Turco abre bem devagar. Empunha a lanterna e o revólver roubados do seu padrasto, suspeito que suas mãos tremem. Antes de entrar, Turco olha em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em segunda pessoa
É verdade, meu amigo: ladeira desgraçada. Pare um minuto pra cuspir e recuperar o fôlego. Teus óculos estão imundos, limpe na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Hora de pular o muro do quintal. Vai ficar encarando pra sempre a maçaneta da porta dos fundos? Tudo bem, querido. Eu sei que sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Epa! Mau sinal: a porta está destrancada. Abra bem devagar, Turco, bem devagar. Está esperando o quê pra empunhar a lanterna e o revólver? É, neguim, a lanterna e o revólver roubados do teu padrasto. Tuas mãos estão tremendo? Fique atento. Pode ser uma armadilha.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro
Uma névoa leitosa realça o inverno.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra Simone. Não devia ter confiado nela, pensa.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – ela boceja. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo – sua fala está mais fraca, sem emoção. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente intruso ou intrometido
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno. Cidade do caralho. Frio da porra.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem? Pra idiota da Simone, é claro. Confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – Um bocejo, essa não, ela bocejou mesmo. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo. – Sua fala está mais fraca, sem emoção. Putinha covarde. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente polifônico ou em transe
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno, cidade do caralho frio da porra, Bruno desce do táxi entra no saguão do hotel acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem?, pra idiota da Simone é claro, ah imbecil, confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida, Bruno explica que a reunião foi péssima ele não assinou o contrato você precisa vir pra cá agora mesmo, Simone boceja e resmunga ficou louco? é quase meia-noite não posso, você me enfiou nessa embrulhada o desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro você precisa pagar ao menos a conta do hotel, amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo, sua fala está mais fraca sem emoção putinha covarde outro bocejo, Bruno insiste, ela desconversa agora não dá mesmo Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Personagem

Um bom modo de firmar a fisionomia, o temperamento e o caráter de um personagem, seja ele o protagonista, o antagonista ou um coadjuvante, é respondendo um questionário simples.

O escritor deverá fazer isso antes mesmo de começar a escrever o conto.

A ficha abaixo, do protagonista, é somente um modelo que poderá ser modificado e incrementado de acordo com as circunstâncias.

Ficha do protagonista

Nome:
Apelido:
Data e local de nascimento:
Sexo:
Etnia:
Classe social:
Altura e peso:
Estado civil:
Escolaridade:
Religião:
Extrovertido ou introvertido:
Profissão:
Passatempo:
Prato preferido:
Fale um pouco de sua mãe:
Fale um pouco de seu pai:
Tem irmãos?
Grande amor de sua vida:
Quando perdeu a virgindade:
Um problema de saúde:
Maior virtude:
Pior vício:
Um segredo inconfessável:
Maior desejo (secreto ou não):
Acredita na imortalidade da alma?
Acredita em civilizações extraterrestres?
Frase predileta:
Outros dados importantes:
Quem ou o quê é seu antagonista?
Quando e como morreu:

Dica: quando for definir o segredo inconfessável, pense em algo realmente vergonhoso. Nesse segredo abjeto pode estar o principal conflito da narrativa.

Se o protagonista não for uma pessoa, mas um animal, um vegetal, um objeto ou uma força da natureza, outras perguntas mais pertinentes deverão ser formuladas pelo escritor.

Questões sobre a raça, o pelo ou as penas ou as escamas do animal; sobre os ramos, as folhas, o fruto e as flores do vegetal; sobre o material, o peso e as dimensões do objeto; sobre a intensidade e a constância da força da natureza (tornado, tempestade, vulcão etc.).

Nos casos em que o animal, o vegetal, o objeto ou a força da natureza forem personagens antropomorfizados, boa parte da ficha acima poderá ser usada. Um gato, uma orquídea, uma cadeira ou uma nuvem com características humanas podem ser extrovertidos ou introvertidos, ter um passatempo, um grande amor, virtudes e vícios, um segredo inconfessável…

E todos têm, sem exceção, um antagonista. Do contrário faltaria o combustível fundamental de qualquer enredo: o conflito.

Exercícios

Usando o narrador em segunda pessoa e a ficha do protagonista preenchida, escreva um breve texto (entre dez e quinze linhas) sobre o tema: o protagonista sai de casa.

Segundo exercício: o conflito.
Usando o modo dramático (discurso direto), escreva sobre o tema: o protagonista encontra seu antagonista.

Terceiro exercício: um momento marcante.
Usando o foco narrativo de sua preferência, escreva sobre o tema: o protagonista encontra a morte.

Indicações de leitura
Antonio Candido e outros autores: A personagem de ficção, editora Perspectiva.
David Lodge: A arte da ficção, editora L&PM.
Ítalo Moriconi (organização): texto introdutório de Os cem melhores contos brasileiros do século 20, editora Objetiva.
Ligia Chiappini Moraes Leite: O foco narrativo, editora Ática.
Massaud Moisés: capítulo sobre o conto, em A criação literária (volume 1), editora Cultrix.
Nádia Battella Gotlib: Teoria do conto, editora Ática.
Ricardo Piglia: Teses sobre o conto e Novas teses sobre o conto, em Formas breves, editora Companhia das Letras.

Pra ninguém confundir mais

07/08/2014

Sim, amigos, concordo com vocês. Quando a diferença não está na fisionomia, na cor da íris ou no tom da voz, fica difícil distinguir uns dos outros. Para evitar confusão, divulgo aqui a biografia (imaginária) dos quatro suspeitos. Acompanha um retrato falado (pouco confiável, pois igualmente imaginário) de cada um, para futuras averiguações.

Quarteto 1

Teodoro Adorno nasceu no dia 21 de dezembro (solstício de verão) de 1970, em Tubiacanga, capital de Pasárgada. É dublê de artista gráfico e doutor em transmutação alquímica pela Universidade Imperial de Utopia. Prefere os fermentados aos destilados. Adora filmes de animação, histórias em quadrinhos e gatos. Com os felinos aprendeu a difícil arte da telepatia e da viagem no tempo. Sofre de tiranofobia. Também sofre de selenofobia, mas só aos sábados. Traduziu muitas parábolas profanas do sindarin para o klingon. Costuma reunir os amigos de Kadath e Cittabella em irreverentes sessões de modelo nu, desenho cego, caricatura e aquarela. Sua sombra andarilha é assombrada pelas realidades indizíveis de Saul Steinberg. Há dez anos desenha uma HQ experimental intitulada Teoria do caos, sobre suas vidas passadas. Só acredita em biografias imaginárias. E no poder revigorante da cafeína.

Luiz Brasil nasceu no dia 22 de abril de 1968, em Cobra Norato, pequena cidade da mítica Terra Brasilis. É ficcionista e coordenador de laboratórios de criação literária. Na infância ouvia vozes misteriosas que contavam histórias secretas. Hoje coleciona miniaturas e gravuras de zigurates. Gosta de pensar que essas construções míticas, sagradas, simbólicas abrigam criaturas e mistérios do passado e do futuro. De nosso mundo e de outros. Espantou-se ao ver pela primeira vez, no Centro Espacial de Hooloomooloo, uma prótese neurológica conectada a um exoesqueleto. Agora está tentando resolver, na literatura, a mesma mistura de fascínio e medo que nossos antepassados sentiram ao domesticar o fogo. Só acredita em biografias imaginárias. E nos universos paralelos de Remedios Varo. Venceu duas vezes o importante e impossível Prêmio Príncipe de Cstwertskst, na categoria romance (2010) e na categoria conto (2014). Principais livros: Pequena coleção de grandes horrores (minicontos, 2014) e Sozinho no deserto extremo (romance, 2012).

Valerio Oliveira nasceu no dia 21 de junho (solstício de inverno) de 1958, em Xanadu, capital de Grande Garabagne. Durante toda a infância morou a cem metros do fabuloso palácio de verão de Kubla Khan. É poeta e vagabundo globalizado. Já viveu no subúrbio de Los Angeles, Buenos Aires, Praga, Madri, Milão, Lisboa, Cairo, Luanda, Cidade do Cabo, Nova Délhi e de outras dez capitais do Oriente. Gosta de orquídeas, Modigliani e Itamar Assumpção, de verdades noturnas e falsidades diurnas. Jamais foi passivo ou ativo, costuma ser apenas contemplativo. Ama a espiral congelada da fumaça do cachimbo. Não acredita em realismos ou surrealismos, somente no real e nas suas valiosas expansões. Não coleciona essências nem aparências naturais, prefere as artificiais. Só acredita em biografias imaginárias. E no poder transcendente do verso livre. Principais livros: Todos os presidentes (poemas, 2008) e Teto no piso (poemas, 2006).

Nelson de Oliveira ainda não nasceu. Para não assustar os amigos, prefere mentir que nasceu no dia 16 de agosto de 1966, em Mahagonny, maior cidade da Ilha do Dia Anterior. É ensaísta e professor livre-docente de literatura xamânica na Universidade de Macondo (Unimac). Leu e releu todos os livros, assistiu mais de uma vez a todos os filmes. É de leão e, no horóscopo chinês, cavalo. Prefere os destilados aos fermentados. Fala fluentemente doze idiomas secretos, incluindo o das abelhas: a ironia. Anos atrás buscou asilo político no paraíso, mas cansado de tanto silêncio decidiu voltar ao inferno. Pesquisa a imortalidade por meio do upload da consciência. Só acredita em biografias imaginárias. E na beleza moral do céu estrelado dentro de nós. Venceu duas vezes o importante e impossível Prêmio Príncipe de Cstwertskst, na categoria conto (1996) e na categoria romance (2006). Principais livros: Poeira: demônios e maldições (romance, 2010) e Ódio sustenido (contos, 2007).

Livro dos novos

05/08/2014

Livrodosnovos

Essa foi a mais provocativa e transgressora apresentação que eu já escrevi de um livro. Na tentativa de salvar algumas almas jovens do inferno da boçalidade, preferi oferecer um prefácio-manifesto, quase um antiprefácio, em vez de um prefácio chapa-branca, pasteurizado.

Sussurro telepático endereçado a dezesseis jovens ficcionistas

Queridos alquimistas da palavra, desembarquem, juntem-se a nós. Vocês estão chegando na melhor hora. Que é também, ironicamente, a pior hora. Agucem os cinco sentidos. Não sejam ingênuos.

Não há atividade mais obsoleta, neste início de século 21, do que a do ficcionista. De modo geral, toda a literatura está caminhando para a extinção. Escrever e ler poemas, crônicas, contos e romances não é mais tão importante quanto já foi nos séculos passados.

A atual explosão do mercado editorial – são centenas de eventos literários no mundo todo, milhares de escritores e editores, milhões de lançamentos, bilhões de exemplares – é o inesperado suspiro final da grande criatura. Do leviatã letrado. Que daqui a pouco começará a morrer.

A onipotência da literatura foi sugada por outras tecnologias. Pelo rádio e pelo cinema, em seguida pela televisão. Histórias poderosas continuam sendo contadas, mas as melhores não estão mais nos livros. Estão nas telas de cinema. Estão nos games. Estão principalmente nas séries produzidas para a tevê, imbatíveis.

O audiovisual passou a perna no meramente literário. Aproxima-se, agora, a realidade virtual. Em pouco tempo seremos convidados a participar das histórias. A interagir com os personagens. Isso irá abalar ainda mais os alicerces da literatura clássica, escrita apenas pra ser lida.

Queridos alquimistas da palavra, desembarquem, juntem-se a nós. Vocês estão chegando num momento magnífico. Que é também, ironicamente, um momento complicadíssimo.

Há uma revolução sendo gestada nos principais centros de pesquisa do mundo. Uma revolução que mudará pra sempre nossa espécie. Para o bem ou para o mal.

Quando essa revolução estiver alcançando o ponto máximo, no final deste século, tudo indica que a literatura já terá sido encostada, feito um gadget sem bateria. Não sejamos ingênuos. Vocês, eu, meus colegas de geração, estreantes e veteranos, nós todos somos a última legião antes da queda do Império Romano. Os últimos tricerátopos antes da extinção dos dinossauros.

Hoje as histórias mais inquietantes não são contadas por contistas e romancistas. Elas são contadas por bioengenheiros e tecnocientistas. São narrativas sobre a revolução pós-humana que se aproxima. Sobre a onda que, violenta, quando cobrir o planeta mudará drasticamente a configuração da realidade.

Audaciosos Ana e Arthur, Celso e Cristiano.

Intrépidos Daniel, Dédallo, Felipe Kryminice e Felipe Munhoz.

Atrevidos Francine e Guylherme, Marco e Mellissa.

Destemidos Renan, Rodrigo, Walter e Yuri.

Desliguem a barulheira circundante, mandem à merda a vidinha social literária. Vamos conversar sério.

O grande desejo do ser humano sempre foi prolongar o máximo possível a vida saudável e produtiva. Vale dizer, prolongar o máximo possível a consciência e todo o seu conteúdo: personalidade, memórias, afetos etc.

A maior parte das crenças religiosas que defendem a doutrina da alma imortal nasceu pra atender esse desejo tão humano de perpetuação eterna da consciência. Mas, o que antes somente a religião se atrevia a prometer – a vida eterna da consciência saudável e produtiva –, agora é a ciência que está ambicionando realizar.

Para alcançar esse objetivo, o ser humano está disposto a modificar seu código genético e, se for necessário, unir-se fisicamente às máquinas. Em breve o Homo sapiens se transformará no Homo ciberneticus. Seremos todos ciborgues.

Essa convergência geral de organismos e tecnologias, a ponto de se tornarem indistinguíveis, colocará o pós-humano no centro do palco cultural. Será o fim do período de desenvolvimento social e técnico batizado de Humanismo.

Será o fim da literatura.

Queridos alquimistas da palavra, desembarquem, juntem-se a nós. Vocês estão chegando na melhor hora. Que é também, ironicamente, a pior hora.

Nos últimos quinze anos, o número de eventos literários importantes cresceu no Brasil.

Ao lado das tradicionais Feira do Livro de Porto Alegre (iniciada em 1955), Bienal Internacional do Livro de São Paulo (1970), Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (1981) e Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro (1983) hoje nós temos a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty (2003), o Flop – Fórum das Letras de Ouro Preto (2005) e a Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco (2004), além de outras feiras e festas de menor envergadura, realizadas no país todo.

O mesmo pode ser dito a respeito dos prêmios literários. Hoje, além dos Prêmios Literários da Academia Brasileira de Letras, que inclui o tradicional Prêmio Machado de Assis (iniciado em 1941), e do Prêmio Jabuti (1958), nós temos o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon (1999), o Prêmio Portugal Telecom (2003), os Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional (2008), o Prêmio São Paulo de Literatura (2008) e o Prêmio Moacyr Scliar (2011).

Mas o aumento do número de eventos e prêmios literários, de romances e coletâneas de contos e poemas publicados, de leitores, de novos autores e novas editoras, talvez não signifique muita coisa.

Matérias como O vazio da cultura (ou a imbecilização do Brasil), publicada na revista Carta Capital de 6 de fevereiro de 2013, confirmam o ceticismo de inúmeros críticos culturais da imprensa e da universidade. Em sua opinião, apesar do crescimento econômico, apesar de boa parte dos brasileiros terem finalmente escapado da situação de miséria, a literatura brasileira – nossa cultura, de modo geral – está passando por uma das piores fases de sua história.

A grande maioria dos escritores, editores e leitores brasileiros não concorda com essa avaliação pessimista. O crítico literário João Cezar de Castro Rocha ironizou a postura da Carta Capital e de outros céticos entediados, batizando-a de melancolia chique.

Não me considero um melancólico chique. Acredito que o sistema literário tupiniquim prosperou muitíssimo nas últimas décadas. Os gráficos e as tabelas falam por si sós, a estatística não mente.

Mas há um fenômeno de contenção que está sendo negligenciado.

A bem-vinda enxurrada de bons autores e livros brasileiros, de ótimos eventos, prêmios etc., ainda assim está sendo freada por um tsunami estrangeiro. Por uma vigorosa reação externa, e a pororoca resultante não nos favorece nem um pouco.

Agora que o Brasil finalmente começa a produzir em quantidade e qualidade, o resto do planeta – principalmente o mundo anglófono – parece estar se mobilizando pra nos sufocar. A abundância de literatura estrangeira circulando hoje no país diminui o saldo positivo a nosso favor.

Pra quem gosta de um bom desafio, de uma briga feroz, que momento seria melhor pra começar a escrever e publicar?

O cenário atual – caótico, eufórico, bizarro, perigoso – pede guerrilheiros, alquimistas, xamãs. Pede escritores tão viciados na fantasmagoria literária que, se parassem de escrever, implodiriam.

Mas fiquemos alertas.

Estamos vivendo um momento sem paralelo na história de nossa longa evolução. Depois de humanizar praticamente todo o planeta, o ser humano está começando a modificar estruturalmente o próprio ser humano.

A primeira grande revolução tecnológica aconteceu ainda na pré-história, com a invenção da linguagem. A segunda, com a invenção da escrita. Nossa espécie nunca mais foi a mesma, sua realidade expandiu-se.

Com a invenção da escrita, nosso poder de memorização foi multiplicado infinitamente. A memória humana, até então restrita aos genes e ao cérebro, projetou-se pra fora do corpo e foi parar também nas placas de argila, nos pergaminhos, nos livros. Houve uma explosão de criatividade em todas as áreas do conhecimento.

A terceira revolução tecnológica, a onda pós-humana, promete um salto evolutivo tão radical e inquietante quanto o provocado pelas duas revoluções anteriores.

Os primeiros ciborgues – indivíduos com próteses eletrônicas internas ou externas – já circulam entre nós há pelo menos duas décadas. Interfaces cérebro-máquina-cérebro já permitem que tetraplégicos conectados a um exoesqueleto voltem a se movimentar.

Drogas da longevidade e da inteligência estão aumentando a expectativa de vida das pessoas e aprimorando sua capacidade cognitiva. Espera-se que as próximas gerações vivam saudavelmente duzentos anos ou mais.

Implantes oculares e auditivos já permitem que cegos enxerguem e surdos escutem. Em breve eles enxergarão e escutarão muito melhor do que as pessoas com visão e audição normais.

Implantes neurais também estão transformando a web e o celular numa extensão de nossa mente. Conversar com outras pessoas em breve será uma forma tecnológica de telepatia.

Nano-robôs estão sendo desenvolvidos para patrulhar nossa corrente sangüínea em busca de possíveis doenças. Essas nanomáquinas serão capazes, por exemplo, de exterminar células cancerígenas bem antes da formação de um tumor.

Até o final do século, a engenharia genética promete dar à luz bebês mais saudáveis e resistentes, futuros adultos livres de doenças e deficiências herdadas. Mas essa manipulação do código da vida poderá criar diferentes castas genéticas, umas mais aperfeiçoadas do que as outras, fato que provocará um novo capítulo na velha luta de classes.

O entrelaçamento de esferas antes fisicamente separadas – o natural e o artificial, o corpo e a máquina – traz inéditas implicações filosóficas e antropológicas.

Durante milênios as pessoas usaram o corpo como suporte cultural, decorando-o com tatuagens, pinturas, brincos, pulseiras, anéis, alfinetes, piercings etc.

Em 1958 o primeiro marca-passo invadiu o corpo de um paciente com um sério problema cardíaco. Hoje os implantes já tomaram a última fortaleza de nossa humanidade: o cérebro.

Complexos pares dialéticos estão surgindo no horizonte: robótica e livre-arbítrio, clonagem humana e bioética, inteligência artificial e autoconsciência…

A grande questão é: quando o novíssimo Homo ciberneticus terminar de modificar completamente o antigo Homo sapiens, que civilização emergirá dessa estranha metamorfose?

Uma civilização esquizofrênica e fora de controle, tiranizada pelo determinismo tecnológico? Ou uma civilização mais equilibrada e pacífica, capaz de abolir a estratificação social?

Audaciosos Ana e Arthur, Celso e Cristiano.

Intrépidos Daniel, Dédallo, Felipe Kryminice e Felipe Munhoz.

Atrevidos Francine e Guylherme, Marco e Mellissa.

Destemidos Renan, Rodrigo, Walter e Yuri.

Silenciem a sinestesia reinante, mandem à merda a burocracia do mercadinho editorial. Vamos conversar sério.

Vocês têm talento. Muito talento. Os contos reunidos nesta coletânea deixam isso bem claro. Vocês, ainda tão jovens – não se esqueçam de que as novas gerações viverão no mínimo cento e cinquenta, duzentos anos –, já sabem expressar poeticamente, sem piedade, a problemática condição humana.

Vocês são os novos alquimistas do aleatório, do desordenado aqui-agora. Já aprenderam, brigando nas ruas ou na universidade, que “toda a arte é um jogo com o caos; toda a arte está sempre avançando cada vez mais perigosamente para o caos e resgatando de suas garras províncias cada vez mais extensas; se existe qualquer progresso na história da arte e da literatura, então esse progresso consiste no crescimento constante dessas províncias; dessas magníficas províncias arrancadas do caos” (Arnold Hauser, História social da arte e da literatura).

Vocês são os novos guerrilheiros da irrealidade cotidiana, as narrativas aqui reunidas atestam isso. Vocês já sabem denunciar, com raiva ou afeto, os males individuais e sociais, os muitos níveis da estupidez humana.

Bem-vindos à confraria dos demônios descontentes. Agora somos irmãos, conversamos por telepatia. Com vocês, quero compartilhar minhas Três Leis da Integridade Criativa. Essas leis foram feitas por mim, para mim. São de uso pessoal. Mas gostaria que vocês também as assumissem para si.

1ª lei: Escrever apenas o que me dá prazer escrever.
2ª lei: Escrever textos com alta densidade poética, exceto quando isso contrariar a primeira lei.
3ª lei: Agradar o maior número possível de leitores, desde que tal desejo não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.

Vocês têm talento de sobra. Usem com sabedoria. Continuem escrevendo sobre as picuinhas domésticas, a periferia e a favela, os shopping centers, a infância, as redações de jornal, as transações financeiras e amorosas. Mas não esqueçam de escrever também sobre o tema mais importante do momento: o pós-humano.

Hoje, por meio dos avanços da ciência e da tecnologia, temos o poder de alterar fisicamente nossa própria espécie. As próximas gerações viverão mais e melhor, graças à manipulação genética, aos implantes eletrônicos e às drogas da longevidade e da inteligência?

Trabalhem essa interrogação.

Somos pequenos, mas ansiamos pela grandeza sobre-humana. Mesmo que a simples imagem dessa grandeza, de qualquer grandeza, provoque calafrio e bater de dentes.

Continuem escrevendo sobre os becos e os botecos, os cortiços e as coberturas de luxo. Mas não deixem de escrever também sobre o cibercaos que se aproxima. Tornem-se transgênicos, tornem-se ciborgues. Talvez essa metamorfose consiga salvar da extinção a literatura. Ou ao menos sua melhor parte.

Somos viajantes do tempo. O futuro pós-humano já chegou, só está mal distribuído. Afiem os cinco sentidos. Em certas partes do mundo, hoje já é amanhã.

Luiz Bras

Livro dos novos
Organização: Adriana Sydor
Travessa dos Editores