Livro dos novos

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Essa foi a mais provocativa e transgressora apresentação que eu já escrevi de um livro. Na tentativa de salvar algumas almas jovens do inferno da boçalidade, preferi oferecer um prefácio-manifesto, quase um antiprefácio, em vez de um prefácio chapa-branca, pasteurizado.

Sussurro telepático endereçado a dezesseis jovens ficcionistas

Queridos alquimistas da palavra, desembarquem, juntem-se a nós. Vocês estão chegando na melhor hora. Que é também, ironicamente, a pior hora. Agucem os cinco sentidos. Não sejam ingênuos.

Não há atividade mais obsoleta, neste início de século 21, do que a do ficcionista. De modo geral, toda a literatura está caminhando para a extinção. Escrever e ler poemas, crônicas, contos e romances não é mais tão importante quanto já foi nos séculos passados.

A atual explosão do mercado editorial – são centenas de eventos literários no mundo todo, milhares de escritores e editores, milhões de lançamentos, bilhões de exemplares – é o inesperado suspiro final da grande criatura. Do leviatã letrado. Que daqui a pouco começará a morrer.

A onipotência da literatura foi sugada por outras tecnologias. Pelo rádio e pelo cinema, em seguida pela televisão. Histórias poderosas continuam sendo contadas, mas as melhores não estão mais nos livros. Estão nas telas de cinema. Estão nos games. Estão principalmente nas séries produzidas para a tevê, imbatíveis.

O audiovisual passou a perna no meramente literário. Aproxima-se, agora, a realidade virtual. Em pouco tempo seremos convidados a participar das histórias. A interagir com os personagens. Isso irá abalar ainda mais os alicerces da literatura clássica, escrita apenas pra ser lida.

Queridos alquimistas da palavra, desembarquem, juntem-se a nós. Vocês estão chegando num momento magnífico. Que é também, ironicamente, um momento complicadíssimo.

Há uma revolução sendo gestada nos principais centros de pesquisa do mundo. Uma revolução que mudará pra sempre nossa espécie. Para o bem ou para o mal.

Quando essa revolução estiver alcançando o ponto máximo, no final deste século, tudo indica que a literatura já terá sido encostada, feito um gadget sem bateria. Não sejamos ingênuos. Vocês, eu, meus colegas de geração, estreantes e veteranos, nós todos somos a última legião antes da queda do Império Romano. Os últimos tricerátopos antes da extinção dos dinossauros.

Hoje as histórias mais inquietantes não são contadas por contistas e romancistas. Elas são contadas por bioengenheiros e tecnocientistas. São narrativas sobre a revolução pós-humana que se aproxima. Sobre a onda que, violenta, quando cobrir o planeta mudará drasticamente a configuração da realidade.

Audaciosos Ana e Arthur, Celso e Cristiano.

Intrépidos Daniel, Dédallo, Felipe Kryminice e Felipe Munhoz.

Atrevidos Francine e Guylherme, Marco e Mellissa.

Destemidos Renan, Rodrigo, Walter e Yuri.

Desliguem a barulheira circundante, mandem à merda a vidinha social literária. Vamos conversar sério.

O grande desejo do ser humano sempre foi prolongar o máximo possível a vida saudável e produtiva. Vale dizer, prolongar o máximo possível a consciência e todo o seu conteúdo: personalidade, memórias, afetos etc.

A maior parte das crenças religiosas que defendem a doutrina da alma imortal nasceu pra atender esse desejo tão humano de perpetuação eterna da consciência. Mas, o que antes somente a religião se atrevia a prometer – a vida eterna da consciência saudável e produtiva –, agora é a ciência que está ambicionando realizar.

Para alcançar esse objetivo, o ser humano está disposto a modificar seu código genético e, se for necessário, unir-se fisicamente às máquinas. Em breve o Homo sapiens se transformará no Homo ciberneticus. Seremos todos ciborgues.

Essa convergência geral de organismos e tecnologias, a ponto de se tornarem indistinguíveis, colocará o pós-humano no centro do palco cultural. Será o fim do período de desenvolvimento social e técnico batizado de Humanismo.

Será o fim da literatura.

Queridos alquimistas da palavra, desembarquem, juntem-se a nós. Vocês estão chegando na melhor hora. Que é também, ironicamente, a pior hora.

Nos últimos quinze anos, o número de eventos literários importantes cresceu no Brasil.

Ao lado das tradicionais Feira do Livro de Porto Alegre (iniciada em 1955), Bienal Internacional do Livro de São Paulo (1970), Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (1981) e Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro (1983) hoje nós temos a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty (2003), o Flop – Fórum das Letras de Ouro Preto (2005) e a Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco (2004), além de outras feiras e festas de menor envergadura, realizadas no país todo.

O mesmo pode ser dito a respeito dos prêmios literários. Hoje, além dos Prêmios Literários da Academia Brasileira de Letras, que inclui o tradicional Prêmio Machado de Assis (iniciado em 1941), e do Prêmio Jabuti (1958), nós temos o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon (1999), o Prêmio Portugal Telecom (2003), os Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional (2008), o Prêmio São Paulo de Literatura (2008) e o Prêmio Moacyr Scliar (2011).

Mas o aumento do número de eventos e prêmios literários, de romances e coletâneas de contos e poemas publicados, de leitores, de novos autores e novas editoras, talvez não signifique muita coisa.

Matérias como O vazio da cultura (ou a imbecilização do Brasil), publicada na revista Carta Capital de 6 de fevereiro de 2013, confirmam o ceticismo de inúmeros críticos culturais da imprensa e da universidade. Em sua opinião, apesar do crescimento econômico, apesar de boa parte dos brasileiros terem finalmente escapado da situação de miséria, a literatura brasileira – nossa cultura, de modo geral – está passando por uma das piores fases de sua história.

A grande maioria dos escritores, editores e leitores brasileiros não concorda com essa avaliação pessimista. O crítico literário João Cezar de Castro Rocha ironizou a postura da Carta Capital e de outros céticos entediados, batizando-a de melancolia chique.

Não me considero um melancólico chique. Acredito que o sistema literário tupiniquim prosperou muitíssimo nas últimas décadas. Os gráficos e as tabelas falam por si sós, a estatística não mente.

Mas há um fenômeno de contenção que está sendo negligenciado.

A bem-vinda enxurrada de bons autores e livros brasileiros, de ótimos eventos, prêmios etc., ainda assim está sendo freada por um tsunami estrangeiro. Por uma vigorosa reação externa, e a pororoca resultante não nos favorece nem um pouco.

Agora que o Brasil finalmente começa a produzir em quantidade e qualidade, o resto do planeta – principalmente o mundo anglófono – parece estar se mobilizando pra nos sufocar. A abundância de literatura estrangeira circulando hoje no país diminui o saldo positivo a nosso favor.

Pra quem gosta de um bom desafio, de uma briga feroz, que momento seria melhor pra começar a escrever e publicar?

O cenário atual – caótico, eufórico, bizarro, perigoso – pede guerrilheiros, alquimistas, xamãs. Pede escritores tão viciados na fantasmagoria literária que, se parassem de escrever, implodiriam.

Mas fiquemos alertas.

Estamos vivendo um momento sem paralelo na história de nossa longa evolução. Depois de humanizar praticamente todo o planeta, o ser humano está começando a modificar estruturalmente o próprio ser humano.

A primeira grande revolução tecnológica aconteceu ainda na pré-história, com a invenção da linguagem. A segunda, com a invenção da escrita. Nossa espécie nunca mais foi a mesma, sua realidade expandiu-se.

Com a invenção da escrita, nosso poder de memorização foi multiplicado infinitamente. A memória humana, até então restrita aos genes e ao cérebro, projetou-se pra fora do corpo e foi parar também nas placas de argila, nos pergaminhos, nos livros. Houve uma explosão de criatividade em todas as áreas do conhecimento.

A terceira revolução tecnológica, a onda pós-humana, promete um salto evolutivo tão radical e inquietante quanto o provocado pelas duas revoluções anteriores.

Os primeiros ciborgues – indivíduos com próteses eletrônicas internas ou externas – já circulam entre nós há pelo menos duas décadas. Interfaces cérebro-máquina-cérebro já permitem que tetraplégicos conectados a um exoesqueleto voltem a se movimentar.

Drogas da longevidade e da inteligência estão aumentando a expectativa de vida das pessoas e aprimorando sua capacidade cognitiva. Espera-se que as próximas gerações vivam saudavelmente duzentos anos ou mais.

Implantes oculares e auditivos já permitem que cegos enxerguem e surdos escutem. Em breve eles enxergarão e escutarão muito melhor do que as pessoas com visão e audição normais.

Implantes neurais também estão transformando a web e o celular numa extensão de nossa mente. Conversar com outras pessoas em breve será uma forma tecnológica de telepatia.

Nano-robôs estão sendo desenvolvidos para patrulhar nossa corrente sangüínea em busca de possíveis doenças. Essas nanomáquinas serão capazes, por exemplo, de exterminar células cancerígenas bem antes da formação de um tumor.

Até o final do século, a engenharia genética promete dar à luz bebês mais saudáveis e resistentes, futuros adultos livres de doenças e deficiências herdadas. Mas essa manipulação do código da vida poderá criar diferentes castas genéticas, umas mais aperfeiçoadas do que as outras, fato que provocará um novo capítulo na velha luta de classes.

O entrelaçamento de esferas antes fisicamente separadas – o natural e o artificial, o corpo e a máquina – traz inéditas implicações filosóficas e antropológicas.

Durante milênios as pessoas usaram o corpo como suporte cultural, decorando-o com tatuagens, pinturas, brincos, pulseiras, anéis, alfinetes, piercings etc.

Em 1958 o primeiro marca-passo invadiu o corpo de um paciente com um sério problema cardíaco. Hoje os implantes já tomaram a última fortaleza de nossa humanidade: o cérebro.

Complexos pares dialéticos estão surgindo no horizonte: robótica e livre-arbítrio, clonagem humana e bioética, inteligência artificial e autoconsciência…

A grande questão é: quando o novíssimo Homo ciberneticus terminar de modificar completamente o antigo Homo sapiens, que civilização emergirá dessa estranha metamorfose?

Uma civilização esquizofrênica e fora de controle, tiranizada pelo determinismo tecnológico? Ou uma civilização mais equilibrada e pacífica, capaz de abolir a estratificação social?

Audaciosos Ana e Arthur, Celso e Cristiano.

Intrépidos Daniel, Dédallo, Felipe Kryminice e Felipe Munhoz.

Atrevidos Francine e Guylherme, Marco e Mellissa.

Destemidos Renan, Rodrigo, Walter e Yuri.

Silenciem a sinestesia reinante, mandem à merda a burocracia do mercadinho editorial. Vamos conversar sério.

Vocês têm talento. Muito talento. Os contos reunidos nesta coletânea deixam isso bem claro. Vocês, ainda tão jovens – não se esqueçam de que as novas gerações viverão no mínimo cento e cinquenta, duzentos anos –, já sabem expressar poeticamente, sem piedade, a problemática condição humana.

Vocês são os novos alquimistas do aleatório, do desordenado aqui-agora. Já aprenderam, brigando nas ruas ou na universidade, que “toda a arte é um jogo com o caos; toda a arte está sempre avançando cada vez mais perigosamente para o caos e resgatando de suas garras províncias cada vez mais extensas; se existe qualquer progresso na história da arte e da literatura, então esse progresso consiste no crescimento constante dessas províncias; dessas magníficas províncias arrancadas do caos” (Arnold Hauser, História social da arte e da literatura).

Vocês são os novos guerrilheiros da irrealidade cotidiana, as narrativas aqui reunidas atestam isso. Vocês já sabem denunciar, com raiva ou afeto, os males individuais e sociais, os muitos níveis da estupidez humana.

Bem-vindos à confraria dos demônios descontentes. Agora somos irmãos, conversamos por telepatia. Com vocês, quero compartilhar minhas Três Leis da Integridade Criativa. Essas leis foram feitas por mim, para mim. São de uso pessoal. Mas gostaria que vocês também as assumissem para si.

1ª lei: Escrever apenas o que me dá prazer escrever.
2ª lei: Escrever textos com alta densidade poética, exceto quando isso contrariar a primeira lei.
3ª lei: Agradar o maior número possível de leitores, desde que tal desejo não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.

Vocês têm talento de sobra. Usem com sabedoria. Continuem escrevendo sobre as picuinhas domésticas, a periferia e a favela, os shopping centers, a infância, as redações de jornal, as transações financeiras e amorosas. Mas não esqueçam de escrever também sobre o tema mais importante do momento: o pós-humano.

Hoje, por meio dos avanços da ciência e da tecnologia, temos o poder de alterar fisicamente nossa própria espécie. As próximas gerações viverão mais e melhor, graças à manipulação genética, aos implantes eletrônicos e às drogas da longevidade e da inteligência?

Trabalhem essa interrogação.

Somos pequenos, mas ansiamos pela grandeza sobre-humana. Mesmo que a simples imagem dessa grandeza, de qualquer grandeza, provoque calafrio e bater de dentes.

Continuem escrevendo sobre os becos e os botecos, os cortiços e as coberturas de luxo. Mas não deixem de escrever também sobre o cibercaos que se aproxima. Tornem-se transgênicos, tornem-se ciborgues. Talvez essa metamorfose consiga salvar da extinção a literatura. Ou ao menos sua melhor parte.

Somos viajantes do tempo. O futuro pós-humano já chegou, só está mal distribuído. Afiem os cinco sentidos. Em certas partes do mundo, hoje já é amanhã.

Luiz Bras

Livro dos novos
Organização: Adriana Sydor
Travessa dos Editores

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