Anotações sobre o conto

Em março deste ano teve início o Ateliê Permanente de Criação Literária, na Oficina da Palavra – Casa Mário de Andrade, em São Paulo.
Os gêneros conto e crônica são o foco principal do Ateliê, e as anotações abaixo formam parte da base teórica das atividades de escrita.

Anotações sobre o conto

O território comum da literatura e da biologia é a anatomia.

Literatura e biologia produzem organismos que podem ser desmontados, analisados e catalogados. Mas esse movimento reducionista jamais foi capaz de aprisionar o mistério da criação.

Nas livrarias e nas bibliotecas existem quase duas dezenas de obras que teorizam sobre as formas literárias, dando dicas, comentando exemplos etc. Mas o estudo dessa bibliografia garante muito pouco durante a escritura de um conto ou um poema.

As anotações abaixo são uma simplificação didática, apenas isso: um desenho bastante esquemático, mostrando quais são os órgãos vitais de qualquer narrativa curta ou longa.

São o ponto de partida para saborosas conversas sobre as ficções que mais amamos. Debates descontraídos. Informais. Acompanhados de um bom fermentado ou destilado.

Eu duvido que exista, além da anatomia, uma fisiologia das formas literárias, ou seja, a ciência do funcionamento dos órgãos vitais de qualquer obra em prosa ou verso. Se existir, deve ser uma especialidade tão complicada e esotérica que não valerá a pena se preocupar com ela.

Teoria e prática é um casamento virtuoso. Mas na hora de escrever vale mais a prática excessiva do que a teoria exagerada.

[ Querido contista em início de carreira, não siga em frente antes de ler o artigo Reflexões sobre as antigas reflexões sobre o conto: parte 1 e parte 2. ]

Categorias da narrativa

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

O narrador e o personagem principal (protagonista) formam o centro gravitacional de qualquer narrativa. Ao redor deles gira todo o universo ficcional.

Os personagens se dividem em protagonista, antagonista e coadjuvante.

Muitas vezes o narrador é o protagonista ou um coadjuvante muito ligado a ele.

Não é exagero dizer que o protagonista é o elemento mais importante de uma narrativa. É do personagem principal – seu drama, suas ações, sua personalidade, seus conflitos internos e externos etc. – que os leitores mais se recordam, anos depois da leitura de um conto, uma novela ou um romance de que gostaram.

Os heróis da ficção são geralmente mais famosos do que os ficcionistas que lhes deram a vida. É mais fácil se lembrar da história de Ulisses, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Anna Karenina, Macabea ou Riobaldo do que da biografia dos autores que dedicaram tempo e talento na escritura dessas histórias.

Tipologia do narrador

Narrador em primeira pessoa
Protagonista: o herói conta sua história.
Coadjuvante: um amigo ou parente do protagonista conta a história, mantendo-se em segundo plano.
Exemplos famosos de narradores-coadjuvantes estão em Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle, A cidade e as serras, de Eça de Queirós, O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, Doutor Fausto, de Thomas Mann, e On the road, de Jack Kerouak.

Narrador em segunda pessoa
É o tipo mais raro de narrador. Trata-se basicamente de uma voz personificada, que narra e comenta as ações do protagonista, dá conselhos a ele, divaga, irrita-se, comove-se, sem jamais se corporificar na trama.
Somente o leitor escuta o narrador em segunda pessoa, mas este jamais fala com o leitor. O narrador em segunda pessoa fala apenas com o herói, mas este jamais escuta o que ele diz.
Narrador, protagonista e leitor vivem em planos existenciais diferentes.
Todos os contos da coletânea A vida é fêmea, de Homero Fonseca, são narrados em segunda pessoa.
Outro bom exemplo de narrador em segunda pessoa está em Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid.
Três capítulos de É assim que você a perde, de Junot Díaz, também apresentam esse narrador incomum.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro: narra de maneira objetiva e imparcial, sem se envolver emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente intruso ou intrometido: narra de modo passional, envolvendo-se emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente polifônico ou em transe: narra de maneira exaltada, às vezes delirante. Sua fala desordenada mistura a primeira, a segunda e a terceira pessoa. Sua linguagem é o discurso indireto livre, o monólogo interior ou o fluxo de consciência.

É bom frisar que a tradicional onisciência não é um atributo essencial do narrador.

O narrador onisciente, o próprio nome já diz, é o deus que sabe tudo não apenas do protagonista mas de todos os personagens e da história inteira. Não há detalhe ou segredo que ele não conheça. Seu alcance cronológico e geográfico é enorme. Está familiarizado com o desenlace antes mesmo que aconteça.

Muitos ficcionistas, porém, preferem evitar a onisciência do narrador: tiram dele o conhecimento absoluto, fazendo-o acompanhar bem de perto apenas o protagonista. Narrador e herói agora compartilham a mesma perspectiva e testemunham os mesmos eventos, sem saberem o que virá em seguida.

Mas esse narrador ainda mantém a habilidade de ouvir os pensamentos do protagonista, de conhecer sua vida subjetiva.

Há ficcionistas que tiram até isso de seu narrador, limitando-o a apenas descrever, de fora, o que está acontecendo.

O narrador volúvel e pouco confiável – em primeira, segunda ou terceira pessoa – é outra alternativa bastante estimulante, à disposição do ficcionista que deseja fugir do lugar comum. Esse narrador sonega informação e distorce certos fatos, a fim de melhorar sua reputação e ludibriar o leitor.

Modo dramático
À maneira do teatro: discurso direto, feito apenas de diálogos, às vezes com breves indicações de cena. Pode ser levado ao palco facilmente.
Muitos ficcionistas parodiaram certas formas de diálogo (catecismo, entrevista, inquérito policial, conversa no telefone, na rede social, interrogatório no tribunal etc.) na composição de narrativas incomuns.

Narrador-montador
Típico de narrativas experimentais, esse narrador intangível promove a colagem ou a montagem de fragmentos de textos (incluindo bilhetes, cartas, documentos, horóscopos, matérias de jornal e revista etc.) e imagens (desenhos, fotos, tíquetes, rótulos, anúncios de jornal e revista, partituras etc.).

Não é frequente, mas uma narrativa pode fazer uso de mais de um tipo de narrador.

Exemplos

Narrador em primeira pessoa
Protagonista
Ladeira desgraçada, roubou todo o meu fôlego. Paro um minuto pra cuspir. Abro a jaqueta e limpo os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Pulo o muro do quintal e fico observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Minha experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Abro bem devagar. Empunho a lanterna e o revólver roubados do meu padrasto, minhas mãos tremem. Antes de entrar, olho em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em primeira pessoa
Coadjuvante
Ladeira desgraçada, meu amigo resmunga, apoiando-se em mim. Paramos pra cuspir e recuperar o fôlego. Turco abre a jaqueta e limpa os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Turco pula o muro do quintal e fica observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Turco abre bem devagar. Empunha a lanterna e o revólver roubados do seu padrasto, suspeito que suas mãos tremem. Antes de entrar, Turco olha em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em segunda pessoa
É verdade, meu amigo: ladeira desgraçada. Pare um minuto pra cuspir e recuperar o fôlego. Teus óculos estão imundos, limpe na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Hora de pular o muro do quintal. Vai ficar encarando pra sempre a maçaneta da porta dos fundos? Tudo bem, querido. Eu sei que sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Epa! Mau sinal: a porta está destrancada. Abra bem devagar, Turco, bem devagar. Está esperando o quê pra empunhar a lanterna e o revólver? É, neguim, a lanterna e o revólver roubados do teu padrasto. Tuas mãos estão tremendo? Fique atento. Pode ser uma armadilha.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro
Uma névoa leitosa realça o inverno.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra Simone. Não devia ter confiado nela, pensa.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – ela boceja. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo – sua fala está mais fraca, sem emoção. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente intruso ou intrometido
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno. Cidade do caralho. Frio da porra.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem? Pra idiota da Simone, é claro. Confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – Um bocejo, essa não, ela bocejou mesmo. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo. – Sua fala está mais fraca, sem emoção. Putinha covarde. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente polifônico ou em transe
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno, cidade do caralho frio da porra, Bruno desce do táxi entra no saguão do hotel acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem?, pra idiota da Simone é claro, ah imbecil, confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida, Bruno explica que a reunião foi péssima ele não assinou o contrato você precisa vir pra cá agora mesmo, Simone boceja e resmunga ficou louco? é quase meia-noite não posso, você me enfiou nessa embrulhada o desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro você precisa pagar ao menos a conta do hotel, amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo, sua fala está mais fraca sem emoção putinha covarde outro bocejo, Bruno insiste, ela desconversa agora não dá mesmo Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Personagem

Um bom modo de firmar a fisionomia, o temperamento e o caráter de um personagem, seja ele o protagonista, o antagonista ou um coadjuvante, é respondendo um questionário simples.

O escritor deverá fazer isso antes mesmo de começar a escrever o conto.

A ficha abaixo, do protagonista, é somente um modelo que poderá ser modificado e incrementado de acordo com as circunstâncias.

Ficha do protagonista

Nome:
Apelido:
Data e local de nascimento:
Sexo:
Etnia:
Classe social:
Altura e peso:
Estado civil:
Escolaridade:
Religião:
Extrovertido ou introvertido:
Profissão:
Passatempo:
Prato preferido:
Fale um pouco de sua mãe:
Fale um pouco de seu pai:
Tem irmãos?
Grande amor de sua vida:
Quando perdeu a virgindade:
Um problema de saúde:
Maior virtude:
Pior vício:
Um segredo inconfessável:
Maior desejo (secreto ou não):
Acredita na imortalidade da alma?
Acredita em civilizações extraterrestres?
Frase predileta:
Outros dados importantes:
Quem ou o quê é seu antagonista?
Quando e como morreu:

Dica: quando for definir o segredo inconfessável, pense em algo realmente vergonhoso. Nesse segredo abjeto pode estar o principal conflito da narrativa.

Se o protagonista não for uma pessoa, mas um animal, um vegetal, um objeto ou uma força da natureza, outras perguntas mais pertinentes deverão ser formuladas pelo escritor.

Questões sobre a raça, o pelo ou as penas ou as escamas do animal; sobre os ramos, as folhas, o fruto e as flores do vegetal; sobre o material, o peso e as dimensões do objeto; sobre a intensidade e a constância da força da natureza (tornado, tempestade, vulcão etc.).

Nos casos em que o animal, o vegetal, o objeto ou a força da natureza forem personagens antropomorfizados, boa parte da ficha acima poderá ser usada. Um gato, uma orquídea, uma cadeira ou uma nuvem com características humanas podem ser extrovertidos ou introvertidos, ter um passatempo, um grande amor, virtudes e vícios, um segredo inconfessável…

E todos têm, sem exceção, um antagonista. Do contrário faltaria o combustível fundamental de qualquer enredo: o conflito.

Exercícios

Usando o narrador em segunda pessoa e a ficha do protagonista preenchida, escreva um breve texto (entre dez e quinze linhas) sobre o tema: o protagonista sai de casa.

Segundo exercício: o conflito.
Usando o modo dramático (discurso direto), escreva sobre o tema: o protagonista encontra seu antagonista.

Terceiro exercício: um momento marcante.
Usando o foco narrativo de sua preferência, escreva sobre o tema: o protagonista encontra a morte.

Indicações de leitura
Antonio Candido e outros autores: A personagem de ficção, editora Perspectiva.
David Lodge: A arte da ficção, editora L&PM.
Ítalo Moriconi (organização): texto introdutório de Os cem melhores contos brasileiros do século 20, editora Objetiva.
Ligia Chiappini Moraes Leite: O foco narrativo, editora Ática.
Massaud Moisés: capítulo sobre o conto, em A criação literária (volume 1), editora Cultrix.
Nádia Battella Gotlib: Teoria do conto, editora Ática.
Ricardo Piglia: Teses sobre o conto e Novas teses sobre o conto, em Formas breves, editora Companhia das Letras.

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