Que é poesia?

Esfinge Poesia

A esfinge saracoteia, rosna e encurrala Édipo a dez centímetros do abismo sem fundo.
Édipo conhece a única regra desse jogo de vida ou morte.
O monstro fará uma pergunta, que o homem deverá responder sem embromação.
Se a resposta estiver correta, a esfinge voltará para o abismo.
Se estiver errada, Édipo será devorado.
O monstro dispara: que é poesia?
Édipo lembra de Paul Valéry e desfere: “é a permanente hesitação entre som e sentido”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Game over. Tela preta. Tela branca.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Roman Jakobson e desfere: “é a linguagem voltada para sua própria materialidade”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Heidegger e desfere: “fundação do ser mediante a palavra”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Octavio Paz e desfere: “linguagem em estado de pureza selvagem”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Coleridge e desfere: “as melhores palavras na melhor ordem”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Novalis e desfere: “a religião original da humanidade”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Na última tentativa, Édipo não pensa em ninguém.
Pensa apenas nos milhares de poemas que leu na vida, compara todos eles, reflete sobre as semelhanças e diferenças, e desfere: poesia é qualquer texto composto em versos e estrofes.
Satisfeita, a esfinge salta pra dentro do abismo.

Procurada mais tarde pela imprensa, a esfinge declara: vejam no dicionário, definir é estabelecer limites, delimitar, indicar o verdadeiro sentido de algo, sua significação precisa; definições muito subjetivas, ambíguas, que não definem nada, não me interessam; os movimentos de vanguarda do século 20 aboliram a fronteira que separava os gêneros literários; releiam os melhores poemas de Maiakovski Álvaro de Campos Jacques Prévert Derek Walcott Bandeira Drummond Adilia Lopes; analisem as melhores páginas de Proust Joyce Virginia Woolf Faulkner Guimarães Rosa Clarice Lispector Hilda Hilst Saramago Lobo Antunes; a prosa incorporou procedimentos que antes eram exclusivos da poesia e a poesia incorporou procedimentos que antes eram exclusivos da prosa; todas as definições apresentadas por Édipo não são exclusivas da poesia, essas definições também se aplicam perfeitamente a muitas páginas de prosa; menos a última definição, que salvou sua última vida; Édipo percebeu a verdade: poesia é qualquer texto composto em versos e estrofes, prosa é qualquer texto composto em períodos e parágrafos.
Em poucos minutos já circula nas redes sociais o veredito irrefutável da esfinge: poesia é prosa com enjambement. Ponto.
“Princípio tão simples e sólido quanto a primeira lei de Kepler ou a primeira lei de Newton”, escreve um cronista social.

Dois meses depois a esfinge é encontrada morta, num galpão abandonado.
“Homicídio após longa tortura”, noticiam os jornais.
O modus operandi do assassino, ou dos assassinos, aponta para um grupo de famigerados poetas da ala mais radical da lírica tupiniquim.
Mas nada fica provado, ninguém é indiciado.

Entre os pergaminhos da esfinge são encontrados os três poemas abaixo – respectivamente de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Paulo Leminski – e os três minicontos reproduzidos logo em seguida – respectivamente de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado –, todos copiados com letra miúda, garatujas de criatura mítica.

A hora da estrela

(
Ela me incomoda tanto
que fiquei oco.
…..Estou oco desta moça.
E ela tanto mais me incomoda
quanto menos reclama.
Estou com raiva.
Uma cólera de derrubar copos e pratos
e quebrar vidraças.
…..Como me vingar?
Ou melhor, como me compensar?
Já sei:
amando meu cão
que tem mais comida do que a moça.
…..Por que ela não reage?
Cadê um pouco de fibra?
Não,
ela é doce e obediente.
)

Grande sertão: veredas

…..Uma coisa
…..é pôr ideias arranjadas,
outra é lidar com país de pessoas,
de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias…
…..Tanta gente – dá susto de saber –
…..e nenhum se sossega:
todos nascendo, crescendo,
…..se casando,
querendo colocação de emprego, comida,
…..saúde,
riqueza, ser importante,
querendo chuva e negócios bons…
De sorte que carece de se escolher:
ou a gente se tece de viver no safado comum,
…..ou cuida de só religião
…..só.
Eu podia ser: padre sacerdote,
se não chefe de jagunços;
…..para outras coisas
…..não fui parido.

Catatau

A cara dos mestres
é o modelo das máscaras.
Que cara alguém terá
para erguer a máscara
que jaz sobre a cara
dos mestres?

Onde é que nós estamos
que já não reconhecemos
os desconhecidos?
Quer ter a bondade de martirizar
essa santa ignorância?

A sombra
traz um vento
soprando o lume
só pra ver
a que mundo
este se resume.

Balada de Santa Maria Egipcíaca

Santa Maria Egipcíaca seguia em peregrinação à terra do Senhor. Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.
Santa Maria Egipcíaca chegou à beira de um grande rio. Era tão longe a outra margem! E estava junto à ribanceira, num barco, um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
– Leva-me ao outro lado. Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó. Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.
– Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe. Leva-me ao outro lado.
O homem duro escarneceu:
– Não tens dinheiro, mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu, na graça divina, ao gesto que ele fez. Santa Maria Egipcíaca despiu o manto, e entregou ao barqueiro a santidade da sua nudez.

Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sono, e o resto. Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa… Nossa!
Não me chovas, Maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto. Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma! Eu lhe dizia em vão – pois que Maria quanto mais eu rogava, mais chovia. E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho, que não aquece, pois água de chuva é mosto de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha! Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa e um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei. E quanto mais as ondas me levavam, as fontes de Maria mais chuvavam, de sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso, e eis o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chovido.
Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando contra essa chuva, estúpida e mortal catarata (jamais houve outra igual). Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram, e Maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram. Continentes já submergem com todos os viventes, e Maria chovendo. Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura, e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência, e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, Maria! – e ela parou.

Agora, ó José

É teu destino, ó José, a esta hora da tarde, se encostar na parede, as mãos para trás. Teu paletó abotoado de outro frio te guarda, enfeita com três botões tua paciência dura. A mulher que tens, tão histérica, tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão o teu passeio maneiro e olhas assim e pensas, o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta o que tu sentes, José?
O que te salva da vida é a vida mesma, ó José, e o que sobre ela está escrito a rogo de tua fé: “No meio do caminho tinha uma pedra”, “Tu és pedra e sobre esta pedra”, a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José, dorme com tua mulher, gira a aldraba de ferro pesadíssima. O reino do céu é semelhante a um homem como você, José.

Muito tempo depois, Édipo finalmente compreenderá que a esfinge não era tão sábia e lúcida quanto todos imaginavam.
Ao narrar a seus netos o encontro com o monstro, o herói explicará que faltou à esfinge a percepção mais aguda da real diferença entre poesia e poema.
Poesia, quando sinônimo de perfeição, é a qualidade presente em certos artefatos culturais, capaz de despertar o sentimento do belo e provocar o encantamento estético.
Poesia, quando sinônimo de poema, essa sim é o texto composto em versos e estrofes.
A primeira definição de poesia (sinônimo de perfeição) permite que a gente busque essa qualidade em todas as artes.
Permite que a gente fale da poesia que há nos bons poemas, nos bons contos, nos bons romances, na boa arquitetura, no bom cinema, no bom teatro, na boa escultura…
Se Paul Valéry, Roman Jakobson, Heidegger, Octavio Paz, Coleridge e Novalis tinham em mente a poesia enquanto perfeição, todas as seis primeiras definições não estavam erradas.
Esses senhores falavam da poesia presente em todos os artefatos culturais compostos com engenho e arte, não apenas nos bons poemas.
Diante dos netos, a conclusão de Édipo será uma só:
Errado estava o monstro, que só poupou minha vida, a última de sete, apenas quando recebeu a definição de poema.

Indicações de leitura
Antonio Candido: Na sala de aula, editora Ática.
Antonio Candido: O estudo analítico do poema, editora Humanitas.
Norma Goldstein: Versos, sons, ritmos, editora Ática.
Samira Chalhub: Funções da linguagem, editora Ática.

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