Archive for setembro \23\UTC 2014

Horas de voo

23/09/2014

Horas de voo

Literatura é uma substância dissimulada
que se modifica
de acordo com a quilometragem de leitores
& autores

Para leitor & autor até-dez-mil-horas
literatura é sólida

Para leitor & autor entre-dez-e-vinte-mil-horas
literatura é ora sólida ora líquida

Para leitor & autor acima-de-vinte-mil-horas
literatura é ora sólida ora líquida ora gasosa

Literatura
ora-sólida-ora-líquida-ora-gasosa
confunde demais o leitor e o autor
de baixa quilometragem

O chato é que gente confusa
costuma gritar feito o capeta
nas feiras nas festas
nos redemoinhos sociais

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Descrição do personagem

22/09/2014

Um modo incomum e irreverente de descrever um personagem é usar na descrição o vocabulário da profissão do personagem.

O resultado é quase sempre uma divertida amostra de nonsense. Exemplos:

O cardiologista tem trinta anos e sua fisionomia pulsante é uma organizada confusão de cateteres e artérias coronárias. A careca minuciosa feito um hemograma, os olhos capazes de controlar o colesterol a distância, as pequenas orelhas de estetoscópio, os dedos finos de bisturi, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do plantonista crônico, obediente à agenda aguda das paradas cardíacas, acostumado ao labirinto circulatório e respiratório do hospital.

O advogado tem trinta anos e sua fisionomia ajuizada é uma organizada confusão de intimações e habeas corpus. A careca minuciosa feito um código penal, os olhos capazes de controlar o processo judicial a distância, as pequenas orelhas de escrivão, os dedos finos de procurador, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do criminalista defensivo, obediente à agenda justiceira dos alvarás de soltura, acostumado ao labirinto doloso e culposo do tribunal.

O matemático tem trinta anos e sua fisionomia cilíndrica é uma organizada confusão de vértices e expressões numéricas. A careca minuciosa feito um algoritmo, os olhos capazes de controlar os fractais a distância, as pequenas orelhas de esquadro, os dedos finos de compasso, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do professor poliédrico, obediente à agenda comutativa das figuras concêntricas, acostumado ao labirinto assimétrico e incongruente da pós-graduação.

Uma variante desse método quase surrealista de descrição de um personagem é usar na descrição o vocabulário não de sua profissão, mas de algo que o personagem goste: um esporte, um passatempo, uma arte (música, cinema, literatura etc.).

Exercício

Descreva um personagem usando o método proposto acima.

O espaço na ficção

17/09/2014

Como subverter a categoria espacial numa obra de ficção?

Adolfo Bioy Casares faz isso em sua narrativa mais famosa, A invenção de Morel.

Numa ilha aparentemente deserta do Pacífico, um fugitivo da lei encontra um grupo de pessoas e passa a espioná-las. Mas essas pessoas, nosso pobre xereta logo descobre, não são de carne e osso. São representações tridimensionais (holografias perfeitas) de turistas que estiveram na ilha, mas já desapareceram.

O conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury, é protagonizado por uma casa deserta, automatizada, numa cidade devastada.

Por sua vez, Robert A. Heinlein concebe, no conto And he built a crooked house, uma casa em forma de hipercubo, com suas faces conectadas à quarta dimensão. Por fora, a casa é um cubo comum. Por dentro, todas as passagens levam a outros cubos, e as janelas abrem para lugares distantes no espaço e no tempo.

O romance de Stanisław Lem, Congresso futurológico, fala do espaço criado apenas em nossa mente, por substâncias alucinógenas. Realidade virtual também é o tema do romance Simulacron-3, de Daniel F. Galouye. Há ótimas versões cinematográficas desses dois livros.

No romance Jumper, de Steven Gould, o herói tem a habilidade de se teletransportar para qualquer lugar do planeta. O livro foi levado às telas pelo diretor Doug Liman.

A redução e a ampliação do espaço acontecem em certos momentos de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E nos filmes Viagem fantástica e Querida, encolhi as crianças. E no seriado que eu AMAVA quando era criança: Terra de gigantes.

O espaço cotidiano também muda em O incrível homem que encolheu, de Richard Matheson. Nesse romance um pai de família de classe média observa que tudo ao seu redor − esposa, filhos, objetos − está ficando maior a cada dia. Ou então é ele quem está encolhendo sem parar.

Outro exemplo de uso inusitado do espaço pode ser conferido no curta-metragem Tango, de Zbigniew Rybczynski, em que ocorre uma hipnótica sobreposição de personagens e ações.

Essa também é a premissa do curta-metragem Le portefeuille, de Vincent Bierrewaerts, em que um rapaz pára perto de uma carteira perdida na sarjeta. A partir daí a história mostra quatro alternativas de desenvolvimento.

Na primeira, o rapaz não vê a carteira e segue em frente. Na segunda, ele pega a carteira e segue em frente. Essa trilha também se bifurca: num caminho, o rapaz embolsa a grana e joga no lixo a carteira vazia. Noutro caminho, ele decide devolver a carteira com o dinheiro. Essa trilha também se bifurca. Num caminho, o rapaz se dá mal. Noutro caminho, nada de grave acontece.

O interessante é que as realidades paralelas acontecem simultaneamente, no mesmo espaço.

Certas gravuras ilusionistas de M.C. Escher também perturbam nossa trivial percepção do espaço tridimensional.

Por fim, no conto A biblioteca de Babel, todo o universo é transformado, por Borges, numa vasta biblioteca composta de um número absurdo de pequenas galerias hexagonais.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria espaço seja subvertida de alguma forma.

Crimes que compensam

14/09/2014

Agatha Christie e Simenon

Quem não aprecia um bom assassinato? Homicídios por envenenamento, estrangulamento, arma branca ou de fogo movimentam milhões de leitores e bilhões de dólares.

As narrativas policiais são uma equação que reúne quatro categorias: criminoso, vítima, crime e investigador. Cada ficcionista trabalha essas categorias de maneira muito particular.

Uns concentram a atenção um pouco mais na psicologia do investigador ou da vítima (James Patterson, Arnaldur Indridason), outros preferem mergulhar na dinâmica do crime: a motivação e os detalhes da execução (Elmore Leonard, Denis Johnson).

Há ainda os que decidem trabalhar a psicologia do criminoso (James M. Cain, Stieg Larsson), deixando em segundo plano as outras categorias.

A inglesa Agatha Christie (1890-1976) e o belga Georges Simenon (1903-1989), dois dos autores mais prolíferos da literatura policial, exercitaram as três modalidades.

Agatha Christie publicou mais de oitenta livros; Simenon, mais de quatrocentos. Foram traduzidos no mundo todo. Hercule Poirot, Miss Marple e Jules Maigret – popstars da investigação – já circulam no Brasil há décadas.

Uma pequena parte dessa invejável produção acaba de ser relançada, em nova roupagem, pela Globo Livros e pela Companhia das Letras.

O pacote de oito títulos de Agatha Christie traz cinco casos de Hercule Poirot, incluindo O misterioso caso de Styles, estreia da ficcionista, em 1920, e de seu detetive mais querido.

Na apresentação, John Curran revela que esse romance foi a resposta da jovem escritora ao desafio da irmã, lançado quatro anos antes: “Aposto que você não é capaz de escrever uma boa história de detetive.”

Miss Marple não está nessa leva de relançamentos. Mas a simpática e astuta velhinha deve aparecer em breve, quem sabe resolvendo o mistério do Assassinato na casa do pastor, de 1930, seu primeiro romance.

O destaque do pacote de títulos da Rainha do Crime é certamente E não sobrou nenhum, anteriormente batizado de O caso dos dez negrinhos. Publicado em 1939, é considerado o melhor romance policial de todos os tempos.

A história das dez pessoas confinadas numa ilha, assassinadas uma a uma de acordo com uma antiga cantiga infantil, vendeu mais de cem milhões de exemplares e foi adaptada várias vezes para o cinema e a tevê.

Também muito adaptada para o cinema e a tevê é a obra de Simenon.

Publicado em forma de folhetim no ano anterior, em maio de 1931 foi lançado Pietr, o letão, oficialmente o primeiro romance protagonizado pelo comissário Maigret e sua equipe (o herói não trabalha sozinho, e isso foi uma grande novidade na época).

Em dezembro do mesmo ano já eram onze os romances de Maigret publicados, e um não-Maigret, como dizia o próprio autor. Todos best-sellers.

Também em nova roupagem, cinco romances desse ano milagroso voltam às livrarias brasucas, Pietr, o letão entre eles.

Maigret é um funcionário público, quase um cidadão comum, que se compadece dos criminosos, e isso também foi uma novidade na época. Atento apenas aos fatos, seu bordão predileto é: “Nada de suposições, nada de conjecturas”.

Agatha Christie e Simenon deram início à era de ouro da literatura policial. Pertencem à escola do otimismo e do idealismo. Em suas ficções a justiça sempre triunfa.

Os investigadores criados por esses mestres são temperamentos pacíficos e analíticos, que solucionam os crimes por meio do raciocínio, não da violência.

Descendem do primeiro detetive digno desse título: Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, pai da narrativa policial. Também descendem de Sherlock Holmes, criação suprema de Arthur Conan Doyle.

Passam longe desse universo elegante a violência, o erotismo e as bebedeiras da escola hard-boiled, de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e outros.

Mas atualmente os filhos do hard-boiled e do roman noir dominam a cena. O equilíbrio entre otimistas e pessimistas é coisa do passado.

As narrativas de Rubem Fonseca e Cormac McCarthy expressam essa vitória do cinismo e da imoralidade. O pessimismo encerrou a briga por nocaute.

Então, ainda está para ser solucionado o maior mistério que ronda os clássicos de Agatha Christie e Simenon: sua permanência.

Os best-sellers de outrora são narrativas lentas, se comparadas com as de hoje. Essa diferença de ritmo atrapalha sua apreciação pelos leitores mais jovens, acostumados à violenta aceleração dos games e das séries de tevê, imbatíveis.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de agosto de 2014 ]

“Hiperconexões” na revista Pausa

11/09/2014

Vitruviano

Esta semana conversei com a jornalista e pesquisadora Márcia Costa, sobre a antologia Hiperconexões.

Márcia é coeditora da revista Pausa e autora do excelente estudo De Pagu a Patrícia: o último ato (Dobra Editorial).

Para conferir a entrevista, basta clicar aqui.

O tempo na ficção

02/09/2014

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

Narrador, personagem, enredo e linguagem são as que recebem mais atenção dos ficcionistas.

Tempo e espaço, ao contrário, são as categorias que os ficcionistas menos reelaboram e subvertem. Há algo de aparentemente inflexível na noção cotidiana de tempo e espaço, algo que parece fixo e imutável.

Talvez por isso os escritores se esforcem tanto pra manter a corriqueira ilusão espaçotemporal, de índole naturalista.

Podem até inventar narradores excêntricos e personagens bizarros vivendo aventuras insólitas, mas, nos quesitos tempo e espaço, preferem não fugir da tradicional ordem cronológica e geométrica dos fatos. Escolhem reforçar a ilusão de causalidade, em vez de desmontá-la.

Na literatura e no cinema, porém, há exemplos excelentes de narrativas que tratam o tempo de maneira pouco convencional.

No romance Um dia, o narrador de David Nicholls acompanha os protagonistas durante duas décadas, mas cada capítulo focaliza apenas um dia do ano: 15 de julho.

No romance Orlando: uma biografia, Virginia Woolf nos apresenta um protagonista que simplesmente não envelhece. Fenômeno semelhante ocorre com o garoto de doze anos do conto Saudações e adeus, de Ray Bradbury.

No conto O curioso caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, o protagonista nasce velho, vai rejuvenescendo ao longo da narrativa, até se transformar num feto e morrer.

No conto Viagem à semente, Alejo Carpentier inverte a seta do tempo e a história transcorre como num filme projetado de trás pra frente: os personagens rejuvenescem, os ponteiros do relógio giram no sentido contrário, a fumaça entra na chaminé, a água sobe para a torneira etc.

Um romancista brasuca, partindo da mesma premissa, conseguiu subverter não só nossa trivial noção de tempo, mas também de leitura. O romance Um minuto, de Newton Cesar, pede pra ser lido de trás pra frente. Você começa pela última linha, lá na página 197, vai subindo, vai voltando, e termina na primeira linha da página 9. No plano narrativo, o tempo também retrocede para o protagonista inicialmente velho e senil, que vai rejuvenescendo, ganhando saúde e agilidade.

No curta-metragem Palíndromo, de Philippe Barcinski, a projeção-de-trás-pra-frente faz de uma narrativa banal algo muito interessante.

No romance O jogo da amarelinha, Julio Cortázar embaralha a ordem dos capítulos, propondo ao leitor que leia na seqüência que preferir.

Numa passagem do romance Ubik, de Philip K. Dick, os personagens permanecem os mesmos, mas a tecnologia e os objetos retrocedem: um computador de última geração se transforma num computador de vinte anos atrás, depois numa máquina de escrever, o mesmo acontecendo com as roupas, os automóveis, os edifícios etc.

No filme O feitiço do tempo, de Harold Ramis, o protagonista fica preso numa fatia de tempo e é obrigado a reviver o mesmo dia inúmeras vezes. Essa divertida premissa já foi usada em muitas outras obras de ficção literária e audiovisual.

Em Amnésia, Christopher Nolan inverte o calendário, contando uma história de trás pra frente (o primeiro capítulo é na verdade o último da ordem cronológica). O mesmo ocorre no longa-metragem Irreversível, de Gaspar Noé, e no magnífico curta-metragem T.R.A.N.S.I.T., de Piet Kroon.

Em Corra, Lola, Corra, de Tom Tykwer, o tempo cronológico apresenta bifurcações que a protagonista consegue reavaliar quando a escolha inicial dá errado. Esse filme realiza na tela a premissa de um conto de Jorge Luis Borges, o genial Exame da obra de Herbert Quain.

Outra forma de subverter a causalidade numa narrativa é fazer o herói viajar no tempo e alterar um fato histórico qualquer. Ou encontrar seus múltiplos eus do passado e do futuro.

A maioria dos escritores de ficção científica já escreveu sobre viagens no tempo. Bons exemplos na literatura e no cinema não faltam: A máquina do tempo, de H.G. Wells, O fim da eternidade, de Isaac Asimov, a trilogia De volta para o futuro, de Robert Zemeckis, etc. O número de exemplos é quase infinito.

No divertido conto All you Zombies, de Robert A. Heinlein, um viajante no tempo descobre que é, nada mais nada menos, pai e mãe de si mesmo. Esse conto ganhou uma boa adaptação para as telas, intitulada O predestinado, dirigida pelos irmãos Michael e Peter Spierig.

No conto O outro, de Borges, o velho Borges tem uma provocativa conversa com o jovem Borges.

No filme brasuca O homem do futuro, de Cláudio Torres, o protagonista encontra-se com outros dois eus de épocas diferentes.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria tempo seja subvertida de alguma forma.

Comentário:
Qualquer hora, se conseguir reunir a habilidade e o talento necessários, quero escrever a história de um sujeito que tem quarenta anos, no dia seguinte volta a ter oito (mas se lembra que já teve quarenta), no outro dia salta para os oitenta (sempre se lembrando de tudo) e assim por diante, coitado.
Se essa história já foi contada num livro ou filme, por favor, me avisem. Vou querer ler-assistir.

Post-scriptum de 2014: o longa-metragem Shuffle, de Kurt Kuenne, lançado em 2011, é exatamente essa história. O filme narra a desventura de um sujeito cuja cronologia está fora de ordem, embaralhada. A cada dia ele acorda numa idade diferente, num dia diferente de sua vida, indo e voltando na linha cronológica, e sempre se lembrando de tudo.